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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc063668
Banca
FCC
Órgão
TCE-GO
Ano
2022
Cargo
Analista de Controle Externo - Contabilidade
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

O que será da escrita sem solidão?

    Já não resta na minha vida nenhuma solidão. Me pergunto se haverá solidão em algum lugar, se alguém é ainda capaz de estar só, de alcançar um estado de solidão. Não me refiro, claro, à penúria afetiva, ao abandono, ao desamparo, males diários que se encontram por toda parte, no meio da multidão. Penso mais num silêncio dilatado, vasto, num silêncio que é a ausência de notícias, de palavras, de ruídos. Penso num retiro íntimo, um lugar em que já não se ouça a respiração ofegante do mundo.
   Andei lendo Escrever, de Marguerite Duras, um relato de como ela construiu para si uma solidão densa, de como só assim se tornou capaz de escrever. “A solidão é aquilo sem o qual não fazemos nada”, ela diz. “Aquilo sem o qual já não vemos nada.” Para a escrita, nada seria mais necessário que a solidão, algum grau de asilo pessoal seria sua condição imprescindível. Fiquei pensando o que será da escrita quando já não houver, em absoluto, a solidão. Fiquei pensando o que será da leitura quando não houver, em absoluto, silêncio.
   Por anos, escrever me exigiu uma busca irrequieta por espaços calmos, espaços isolados do alvoroço que nos cerca, que nos acossa. Quando não consegui construir a solidão em minha casa, me refugiei no consultório abandonado do meu pai, me exilei em outro país, no apartamento dos meus avós mortos, me recolhi em cantos ocultos de bibliotecas. Como se não pudesse ser visto, como se escrever fosse uma subversão, um segredo.
    A esta altura desisti de estar só. Me falta tempo para essas fugas, e já percebi que o mundo dispõe de fartos recursos para me achar onde quer que eu esteja. Quando consigo ignorar seus apelos, ouço minhas filhas no quarto ao lado, brincando, rindo, cogito me juntar a elas e me reprimo. Escrever deixou de ser ato subversivo e passou a ser, por vezes, cruel: ignoro minha filha que esmurra a porta e clama pelo pai enquanto não termino a frase de vez. Quando elas partem, ainda não há solidão: a casa reverbera os seus gritos, recria sua presença em infinitos objetos. Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével.


Adaptado de: FUKS, Julián. Lembremos do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 119-120)
Depreende-se da leitura do último parágrafo que, diante da agitação de suas filhas, o autor
  1. Apercebeu que aquela perturbação, uma vez afastada, dava lugar à solidão mais produtiva.
  2. Bpassou a considerar sua antiga necessidade de solidão como um simples capricho de escritor frustrado.
  3. Cteve que considerar a força dos elementos externos que passaram a integrar sua produção de escritor.
  4. Dse deu conta de que escrever passaria a ser algo inviável, na falta de um pleno recolhimento.
  5. Ese viu como um pai cuja indiferença aos apelos das crianças revelava sua maturidade como criador.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — teve que considerar a força dos elementos externos que passaram a integrar sua produção de escritor.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A marca indelével da vida na escrita

Gabarito: letra C. O autor reconhece que a agitação das filhas e a reverberação da casa tornaram-se elementos que integram sua produção literária, como se lê no trecho final: "Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével". A resposta pede uma inferência (depreende-se), e a única alternativa sustentada pelo texto é a que capta a incorporação dos elementos externos ao ato de escrever.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Quando elas partem, ainda não há solidão: a casa reverbera os seus gritos, recria sua presença em infinitos objetos."

O autor nega que o afastamento das filhas traga solidão produtiva. A alternativa contradiz o texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

O texto não afirma que a necessidade de solidão era capricho. Pelo contrário, o autor ainda a busca, mas "desistiu de estar só" por falta de tempo e pelos recursos do mundo para achá-lo. A alternativa extrapola ao inserir um juízo de "frustração" e "capricho" que não está no texto.

Alternativa C — ✅ Correta

"Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével."

A força dos elementos externos (filhas, ruídos, memória) agora integra a produção do escritor, que escreve sob a presença constante deles. Inferência legítima.

Alternativa D — ❌ Incorreta

O autor continua escrevendo, embora com dificuldade: "ignoro minha filha que esmurra a porta e clama pelo pai enquanto não termino a frase". Escrever não se tornou inviável, apenas cruel. A alternativa exagera o sentido do texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

O autor se sente cruel ao ignorar as filhas, não demonstra maturidade ou indiferença: "Escrever deixou de ser ato subversivo e passou a ser, por vezes, cruel". A alternativa distorce o tom do parágrafo.

Gabarito: letra C.

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