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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc063669
Banca
FCC
Órgão
TCE-GO
Ano
2022
Cargo
Analista de Controle Externo - Contabilidade
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

O que será da escrita sem solidão?

    Já não resta na minha vida nenhuma solidão. Me pergunto se haverá solidão em algum lugar, se alguém é ainda capaz de estar só, de alcançar um estado de solidão. Não me refiro, claro, à penúria afetiva, ao abandono, ao desamparo, males diários que se encontram por toda parte, no meio da multidão. Penso mais num silêncio dilatado, vasto, num silêncio que é a ausência de notícias, de palavras, de ruídos. Penso num retiro íntimo, um lugar em que já não se ouça a respiração ofegante do mundo.
   Andei lendo Escrever, de Marguerite Duras, um relato de como ela construiu para si uma solidão densa, de como só assim se tornou capaz de escrever. “A solidão é aquilo sem o qual não fazemos nada”, ela diz. “Aquilo sem o qual já não vemos nada.” Para a escrita, nada seria mais necessário que a solidão, algum grau de asilo pessoal seria sua condição imprescindível. Fiquei pensando o que será da escrita quando já não houver, em absoluto, a solidão. Fiquei pensando o que será da leitura quando não houver, em absoluto, silêncio.
   Por anos, escrever me exigiu uma busca irrequieta por espaços calmos, espaços isolados do alvoroço que nos cerca, que nos acossa. Quando não consegui construir a solidão em minha casa, me refugiei no consultório abandonado do meu pai, me exilei em outro país, no apartamento dos meus avós mortos, me recolhi em cantos ocultos de bibliotecas. Como se não pudesse ser visto, como se escrever fosse uma subversão, um segredo.
    A esta altura desisti de estar só. Me falta tempo para essas fugas, e já percebi que o mundo dispõe de fartos recursos para me achar onde quer que eu esteja. Quando consigo ignorar seus apelos, ouço minhas filhas no quarto ao lado, brincando, rindo, cogito me juntar a elas e me reprimo. Escrever deixou de ser ato subversivo e passou a ser, por vezes, cruel: ignoro minha filha que esmurra a porta e clama pelo pai enquanto não termino a frase de vez. Quando elas partem, ainda não há solidão: a casa reverbera os seus gritos, recria sua presença em infinitos objetos. Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével.


Adaptado de: FUKS, Julián. Lembremos do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 119-120)
A convicção de que o estado de solidão deixou de ser possível deve-se, sobretudo, à causa exposta no segmento
  1. Ao mundo dispõe de fartos recursos para me achar (4º parágrafo)
  2. Bà penúria afetiva, ao abandono, ao desamparo (1º parágrafo)
  3. Cé aquilo sem o qual não fazemos nada (2º parágrafo)
  4. Dalgum grau de asilo pessoal (2º parágrafo)
  5. Ebusca irrequieta por espaços calmos (3º parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — o mundo dispõe de fartos recursos para me achar (4º parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A convicção de que a solidão deixou de ser possível — causa explícita

Gabarito: letra A. A passagem que justifica a convicção do autor de que a solidão não é mais possível é a do quarto parágrafo: "o mundo dispõe de fartos recursos para me achar". O texto afirma que, após tentativas de isolamento, ele desistiu porque o mundo sempre o encontra, tornando a solidão inalcançável.

"A esta altura desisti de estar só. Me falta tempo para essas fugas, e já percebi que o mundo dispõe de fartos recursos para me achar onde quer que eu esteja." (4º parágrafo)

O comando pergunta a causa da convicção. A alternativa A é a única que apresenta o motivo diretamente ligado à impossibilidade prática: a onipresença do mundo exterior. As demais opções ou são descartadas pelo próprio autor, ou se referem a outros aspectos do texto.


Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O texto é claro: "o mundo dispõe de fartos recursos para me achar" é a razão pela qual ele desistiu de estar só. O segmento está no 4º parágrafo, após o relato de suas tentativas frustradas. A causa é apresentada com o conector "já percebi que", indicando a constatação que levou à desistência.


Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O autor afirma expressamente que não se refere à penúria afetiva, abandono ou desamparo:

"Não me refiro, claro, à penúria afetiva, ao abandono, ao desamparo, males diários que se encontram por toda parte, no meio da multidão." (1º parágrafo)

Portanto, B traz um conceito que o autor rejeita como definição de solidão, não sendo causa da impossibilidade.


Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: fora do escopo (atribuição indevida). A frase "é aquilo sem o qual não fazemos nada" é uma citação de Marguerite Duras, escritora mencionada pelo autor. Ele não a usa como motivo para sua própria convicção, mas como reflexão sobre a importância da solidão para a escrita. O segmento não responde ao porquê de a solidão ter deixado de ser possível.


Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: fora do escopo. "Algum grau de asilo pessoal" aparece no mesmo contexto da citação de Duras: é apresentado como condição imprescindível para a escrita, e não como causa da impossibilidade atual de solidão. O autor até diz que isso seria necessário, mas não é o motivo de sua convicção.


Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: fora do escopo (causa equivocada). A "busca irrequieta por espaços calmos" descreve o comportamento passado do autor, quando ainda tentava construir solidão. No entanto, a causa de ele ter desistido é justamente o fato de o mundo sempre encontrá-lo (alternativa A). A busca em si não é a razão da impossibilidade; ao contrário, ela era a tentativa de alcançar a solidão, agora abandonada.


Conclusão: A única alternativa que apresenta a causa exposta no texto é a letra A. As demais ou contradizem o texto ou tratam de elementos periféricos, sem conexão causal com a convicção do autor.

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