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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc063671
Banca
FCC
Órgão
TCE-GO
Ano
2022
Cargo
Analista de Controle Externo - Contabilidade
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

O que será da escrita sem solidão?

    Já não resta na minha vida nenhuma solidão. Me pergunto se haverá solidão em algum lugar, se alguém é ainda capaz de estar só, de alcançar um estado de solidão. Não me refiro, claro, à penúria afetiva, ao abandono, ao desamparo, males diários que se encontram por toda parte, no meio da multidão. Penso mais num silêncio dilatado, vasto, num silêncio que é a ausência de notícias, de palavras, de ruídos. Penso num retiro íntimo, um lugar em que já não se ouça a respiração ofegante do mundo.
   Andei lendo Escrever, de Marguerite Duras, um relato de como ela construiu para si uma solidão densa, de como só assim se tornou capaz de escrever. “A solidão é aquilo sem o qual não fazemos nada”, ela diz. “Aquilo sem o qual já não vemos nada.” Para a escrita, nada seria mais necessário que a solidão, algum grau de asilo pessoal seria sua condição imprescindível. Fiquei pensando o que será da escrita quando já não houver, em absoluto, a solidão. Fiquei pensando o que será da leitura quando não houver, em absoluto, silêncio.
   Por anos, escrever me exigiu uma busca irrequieta por espaços calmos, espaços isolados do alvoroço que nos cerca, que nos acossa. Quando não consegui construir a solidão em minha casa, me refugiei no consultório abandonado do meu pai, me exilei em outro país, no apartamento dos meus avós mortos, me recolhi em cantos ocultos de bibliotecas. Como se não pudesse ser visto, como se escrever fosse uma subversão, um segredo.
    A esta altura desisti de estar só. Me falta tempo para essas fugas, e já percebi que o mundo dispõe de fartos recursos para me achar onde quer que eu esteja. Quando consigo ignorar seus apelos, ouço minhas filhas no quarto ao lado, brincando, rindo, cogito me juntar a elas e me reprimo. Escrever deixou de ser ato subversivo e passou a ser, por vezes, cruel: ignoro minha filha que esmurra a porta e clama pelo pai enquanto não termino a frase de vez. Quando elas partem, ainda não há solidão: a casa reverbera os seus gritos, recria sua presença em infinitos objetos. Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével.


Adaptado de: FUKS, Julián. Lembremos do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 119-120)
Considerando-se o contexto, depreende-se que há uma oposição de sentido entre os segmentos
  1. Aseus apelos / a casa reverbera (4º parágrafo)
  2. Bsilêncio dilatado / retiro íntimo (1º parágrafo)
  3. Casilo pessoal / absoluto silêncio (2º parágrafo)
  4. Disolados do alvoroço / consultório abandonado (3º parágrafo)
  5. Eato subversivo / tudo o que eu escrever aqui (4º parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — ato subversivo / tudo o que eu escrever aqui (4º parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Oposição de sentido entre segmentos — Gabarito: E

Gabarito: letra E. A oposição de sentido está entre o que a escrita era (ato subversivo) e o que ela é agora (marcada pela ausência de solidão, "tudo o que eu escrever aqui"), conforme o 4º parágrafo. O texto afirma que "Escrever deixou de ser ato subversivo e passou a ser, por vezes, cruel", e conclui que "tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével" da falta de solidão. Há uma clara oposição entre um estado anterior (subversão, segredo) e o presente (escrita condicionada pelo ambiente familiar).

"Escrever deixou de ser ato subversivo e passou a ser, por vezes, cruel: ignoro minha filha que esmurra a porta e clama pelo pai [...] Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével."

A expressão "ato subversivo" designa a escrita em solidão, secreta; já "tudo o que eu escrever aqui" refere-se à escrita agora, sem solidão, com a "marca" da presença dos filhos. A oposição é contextual e semântica.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"seus apelos" (do mundo) e "a casa reverbera" são ambos elementos que perturbam a solidão; não há oposição, mas complementaridade na descrição dos ruídos.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"silêncio dilatado" e "retiro íntimo" são noções correlatas no primeiro parágrafo – ambos representam a solidão desejada. São sinônimos contextuais, não opostos.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"asilo pessoal" (condição para escrever) e "absoluto silêncio" (necessário para leitura) são ambos requisitos da atividade intelectual; não há oposição.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"isolados do alvoroço" e "consultório abandonado" são exemplos de espaços de refúgio; um é a característica, o outro é o local concreto. Não há oposição.

Conclusão: A única alternativa em que os segmentos se opõem é a E. O gabarito oficial é letra E.

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