Questão de Sociologia — Estratificação e desigualdade social — FCC 2022
Sociologia›Estratificação e desigualdade social
Código
fc068057
Banca
FCC
Órgão
SEC-BA
Ano
2022
[…] Florestan, tendo inspirado a juventude que fundou o Movimento Negro Unificado, no final dos anos 1970, [percebeu] que a democracia racial brasileira, mais que um ideal normativo […], tinha se transformado em mito. Mito não no sentido de falsidade, como alguns pensam, mas no sentido de uma ideologia dominante, de uma percepção de classe que pensa o seu ideal de conduta como verdade efetiva. O mito consistiria em tomar o que eram desigualdades raciais – próprias da ordem racial escravocrata – como desigualdades de classes da ordem competitiva – próprias do capitalismo industrial. A burguesia e a classe média brasileiras projetavam tal ideal de comportamento de classe de modo a encobrir o seu racismo.(Adaptado de: GUIMARÃES, Antonio Sérgio Alfredo. Prefácio. In: FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes: o legado da “raça branca”. v. 1. 5.ed. São Paulo: Editora Globo, 2008, p. 12-13)
ACom o fim do Império, o fato de que as elites dominantes avaliaram a importância de compensar as populações negras por séculos de opressão nas senzalas contribuiu para a difusão da ideia de que seria possível alcançar a igualdade racial em um país multiétnico.
BCom a crise do regime escravocrata, as camadas populares assumem a condução do processo revolucionário, passando a determinar e conduzir os processos políticos engendrados pela nova ordem republicana.
COperou-se, com a Lei Áurea, a continuação de um mecanismo típico da escravidão: a igualdade perante Deus equivaleria, agora, à igualdade perante a Lei − o que, de um lado, abrandava os efeitos da servidão e, de outro, garantia a inserção plena da população negra na nova ordem democrática.
DA ilusão de igualdade entre brancos e negros, presente desde o período colonial, foi suprimida graças à conformação das relações raciais aos fundamentos jurídicos e éticos que se seguiram à Proclamação da República em 1889.
EA promessa de uma igualdade futura como prevenção de possíveis tensões raciais e a permanência de um padrão de integração gradativa à sociedade de classes mantiveram a população negra alheia às possibilidades de ascensão social, perpetuando sua condição degradada de existência.
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GabaritoE — A promessa de uma igualdade futura como prevenção de possíveis tensões raciais e a permanência de um padrão de integração gradativa à sociedade de classes mantiveram a população negra alheia às possibilidades de ascensão social, perpetuando sua condição degradada de existência.
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Análise do mito da democracia racial segundo Florestan Fernandes
Gabarito: letra E. A alternativa E capta a tese central de Florestan: o mito da democracia racial opera como ideologia dominante que, ao prometer uma igualdade futura e defender uma integração gradativa, impede a mobilidade social da população negra e perpetua sua condição degradada — exatamente o que o texto de Guimarães descreve como "tomar desigualdades raciais como desigualdades de classe" para encobrir o racismo da burguesia e classe média brasileiras.
O enunciado sintetiza a crítica de Florestan Fernandes ao mito da democracia racial: uma ideologia que transforma desigualdades raciais (herança escravocrata) em desigualdades de classe (próprias do capitalismo), servindo para encobrir o racismo estrutural. A partir dessa chave, cada alternativa deve ser julgada.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que as elites pós-Império quiseram compensar a população negra, contribuindo para o ideal de igualdade racial. O texto mostra o oposto: o mito serviu para encobrir as desigualdades, não para compensá-las. A elite não buscou compensação, mas sim perpetuar a exclusão sob a aparência de igualdade.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Sugere que as camadas populares conduziram o processo revolucionário após a crise escravocrata. Essa interpretação não corresponde ao pensamento de Florestan, que destaca a continuidade do domínio das elites e a não incorporação das massas negras como cidadãs plenas.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Alega que a Lei Áurea prolongou um mecanismo de igualdade perante Deus/Lei e garantiu inserção plena. Na verdade, a abolição sem políticas de inclusão manteve a população negra marginalizada. O mito da democracia racial serviu para abrandar a percepção da desigualdade, mas não para garantir inserção real.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Defende que a ilusão de igualdade foi suprimida após a República. O texto sustenta justamente o contrário: o mito persistiu e se fortaleceu na ordem republicana, convertendo desigualdades raciais em diferenças de classe.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Retrata exatamente a função do mito: a promessa de igualdade no futuro e o padrão de integração gradativa (que nunca se concretiza) mantêm a população negra excluída das oportunidades de ascensão, perpetuando a desigualdade estrutural. Essa é a tese central de Florestan Fernandes, exposta no texto de Antonio Sérgio Guimarães.
PEGA ESSA DICA!
Em questões sobre Florestan Fernandes, lembre-se: o mito da democracia racial não é mera falsidade, mas uma ideologia dominante que naturaliza a desigualdade racial ao tratá-la como desigualdade de classe. Fique atento a alternativas que sugerem compensação ou superação do racismo — o autor enfatiza a permanência da exclusão.