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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2022

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc068212
Banca
FCC
Órgão
TCE-GO
Ano
2022
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.

O que será da escrita sem solidão?

        Já não resta na minha vida nenhuma solidão. Me pergunto se haverá solidão em algum lugar, se alguém é ainda capaz de estar só, de alcançar um estado de solidão. Não me refiro, claro, à penúria afetiva, ao abandono, ao desamparo, males diários que se encontram por toda parte, no meio da multidão. Penso mais num silêncio dilatado, vasto, num silêncio que é a ausência de notícias, de palavras, de ruídos. Penso num retiro íntimo, um lugar em que já não se ouça a respiração ofegante do mundo.
       Andei lendo Escrever, de Marguerite Duras, um relato de como ela construiu para si uma solidão densa, de como só assim se tornou capaz de escrever. “A solidão é aquilo sem o qual não fazemos nada”, ela diz. “Aquilo sem o qual já não vemos nada.” Para a escrita, nada seria mais necessário que a solidão, algum grau de asilo pessoal seria sua condição imprescindível. Fiquei pensando o que será da escrita quando já não houver, em absoluto, a solidão. Fiquei pensando o que será da leitura quando não houver, em absoluto, silêncio.
       Por anos, escrever me exigiu uma busca irrequieta por espaços calmos, espaços isolados do alvoroço que nos cerca, que nos acossa. Quando não consegui construir a solidão em minha casa, me refugiei no consultório abandonado do meu pai, me exilei em outro país, no apartamento dos meus avós mortos, me recolhi em cantos ocultos de bibliotecas. Como se não pudesse ser visto, como se escrever fosse uma subversão, um segredo.
        A esta altura desisti de estar só. Me falta tempo para essas fugas, e já percebi que o mundo dispõe de fartos recursos para me achar onde quer que eu esteja. Quando consigo ignorar seus apelos, ouço minhas filhas no quarto ao lado, brincando, rindo, cogito me juntar a elas e me reprimo. Escrever deixou de ser ato subversivo e passou a ser, por vezes, cruel: ignoro minha filha que esmurra a porta e clama pelo pai enquanto não termino a frase de vez. Quando elas partem, ainda não há solidão: a casa reverbera os seus gritos, recria sua presença em infinitos objetos. Nesta casa nunca mais haverá solidão, e tudo o que eu escrever aqui trará essa marca indelével.

(Adaptado de: FUKS, Julián. Lembremos do futuro. São Paulo: Companhia das Letras, 2022, p. 119-120)
Um segmento do texto tem seu sentido corretamente interpretado no seguinte caso:
  1. APenso mais num silêncio dilatado (1º parágrafo) = Cogito sobretudo um silenciar expandido
  2. Balgum grau de asilo pessoal (2º parágrafo) = um certo nível de intimidação recolhida
  3. Ccomo se escrever fosse uma subversão (3º parágrafo) = sendo de tal forma penosa uma escritura
  4. Do mundo dispõe de fartos recursos (4º parágrafo) = retiram-se da vida inúmeros expedientes
  5. Etrará essa marca indelével (4º parágrafo) = advirá desse estigma insondável
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Penso mais num silêncio dilatado (1º parágrafo) = Cogito sobretudo um silenciar expandido

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpretação de segmentos textuais: paráfrase e sentido contextual

Gabarito: letra A. A única alternativa que mantém fielmente o sentido do trecho original é a A, pois "silêncio dilatado" é parafraseado por "silenciar expandido" e "penso mais" por "cogito sobretudo", sem distorção do significado.

A questão testa a capacidade de reconhecer paráfrases corretas de trechos do texto, sem acrescentar ou alterar sentidos. Deve-se confrontar cada interpretação com o trecho original e verificar se há equivalência semântica.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Penso mais num silêncio dilatado, vasto [...]" (1º parágrafo)

A expressão "silêncio dilatado" equivale a "silenciar expandido": ambos indicam um silêncio ampliado. "Penso mais" é corretamente traduzido por "cogito sobretudo", mantendo o sentido de ênfase. A paráfrase preserva o significado contextual.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"algum grau de asilo pessoal seria sua condição imprescindível" (2º parágrafo)

"Asilo pessoal" significa refúgio, abrigo, lugar de recolhimento. A alternativa troca por "intimidação recolhida" (sentimento de medo ou coação), que não está no texto. Erro: troca de conceito.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"como se escrever fosse uma subversão, um segredo" (3º parágrafo)

"Subversão" significa ato de rebelar-se, contestar a ordem. A alternativa propõe "penosa" (dolorosa, sofrida), que altera o sentido. Erro: troca de conceito.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"o mundo dispõe de fartos recursos para me achar" (4º parágrafo)

"Dispõe de fartos recursos" = possui abundantes meios. A alternativa inverte para "retiram-se da vida inúmeros expedientes", que sugere falta ou supressão. Erro: contradiz o texto.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"trará essa marca indelével" (4º parágrafo)

"Marca indelével" = marca que não se apaga. A alternativa substitui por "estigma insondável" (marca negativa que não se pode compreender). "Indelével" não é sinônimo de "insondável". Erro: troca de conceito.

💡 Dica: Ao verificar paráfrases, mantenha a mesma classe gramatical e o campo semântico. Desconfie de trocas que introduzem ideias novas (intimidação, penosa, retirar, estigma).

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