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Questão de Português — Morfologia - Verbos — FCC 2024

PortuguêsMorfologia - Verbos
Código
fc070833
Banca
FCC
Órgão
MPE-AM
Ano
2024
Nível
Médio
Cargo
Agente de Apoio - Especialidade Administrativo
Atenção: Considere a crônica “Tartaruga de arrastão”, de Rachel de Queiroz, para responder à questão..

        O caso deu-se aqui na ilha, numa pescaria de arrastão. Da primeira redada veio um tal peixe que causou espanto: ninguém podia crer que naquele côncavo de mar morasse tanto peixe assim. Havia de ser alguma piracema que ia passando; para lá de trés toneladas de pescado foram apanhadas de uma só vez. Na segunda redada nada veio, ou quase nada — fugira a piracema ou fora toda colhida pela rede. Entretanto, no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho: uma tartaruga do mar. Tartaruga diferente daquelas fluviais que a gente conhece, tartaruga das profundezas salinas, meio peixe, porque em vez de pernas tem nadadeiras.

      Primeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. Depois foi agarrada e atirada ignominiosamente na areia, de barriga para cima. Por fim puseram-na em posição normal; e ela, recuperando imediatamente a compostura, estirou o pescoço enrugado e correu em torno de si um olho temeroso. Não sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. Muito pior que um bicho da terra pego numa rede: este pode estranhar a prisão, mas afinal continua dentro de um elemento conhecido, pisando chão, vendo árvores familiares, sentindo o cheiro da terra. A tartaruga não: para ela, nascida e vivida no mar, aquela era a mais estranha, a mais inacreditável e terrível das aventuras. Para aquela tartaruga era o mesmo que seria para um de nós vermo-nos transportados subitamente, sem dano físico, até o fundo do mar. Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. As caras desconhecidas de ignorados animais - no caso, homens. E todos, todos, canibais ou pior que isso — pois bem sentia ela sobre o seu casco grosso, sobre a carapaça encaracada, o olhar doce e atento e cobiçoso dos comedores de carne.

       A sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la. E sorte maior o fato de ninguém, pessoalmente, querer se responsabilizar pela carnificina naquela quinta-feira santa. Mas levaram-na para o galinheiro - que ignominia, uma veterana dos sete mares a ser atirada entre as galinhas, na noite que deveria ser a última da sua vida; ela que decerto esperava sepultar-se entre areias claras, nalgum maciço colorido de anêmonas do mar. Mas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração do homem, incertos, os seus impulsos. Tanto val para um lado como para o outro, tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta. O fato é que um coração se apiedou da tragédia e houve mão que abriu a porta da capoeira e encaminhou a marcha rampante do bicho marinho em direção da prala, em direção do mar, sua pátria. Ela também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu. Cortou a areia deixando um rastro longo, penetrou na água como um barco a deslizar do estaleiro, mergulhou, emergiu, voltou a cabeça ainda assustada para aquele mundo sujo, escuro, inimigo, onde viviam os homens, onde esperava nunca mais voltar; e mergulhou de novo, abraçando toda a água que podia entre as nadadeiras abertas.

(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel de. 100 crônicas escolhidas: um alpendre, uma rede, um açude. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021)
O verbo em negrito deve sua flexão à expressão sublinhada em:
  1. Ahouve mão que abriu a porta da capoeira
  2. BCortou a areia deixando um rastro longo
  3. CNão sei se os presentes compreenderam
  4. Dno meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho
  5. Evoltou a cabeça ainda assustada
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Flexão verbal determinada pela expressão sublinhada

Gabarito: letra D. O verbo "apareceu" (em negrito no original) flexiona-se na 3ª pessoa do singular para concordar com o sujeito "um bicho estranho" (expressão sublinhada). As demais alternativas apresentam verbos cuja flexão não decorre de uma expressão ou sujeito imediatamente sublinhado no trecho.

No texto: "no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho: uma tartaruga do mar."

A concordância verbal exige que o verbo se adeque ao número e pessoa do sujeito. Em D, o núcleo do sujeito é "bicho" (singular), o que justifica a forma "apareceu".

Alternativa A — ❌ Incorreta

O verbo "houve" é impessoal (usado para indicar existência) e não sofre variação de concordância com nenhum termo sublinhado. A flexão é fixa (3ª pessoa do singular).

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Cortou" tem sujeito oculto (a tartaruga), que não aparece como expressão sublinhada. A flexão decorre do sujeito desinencial.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Sei" está na 1ª pessoa do singular (eu, narrador), sem relação com qualquer expressão sublinhada no trecho.

Alternativa D — ✅ Correta

"Apareceu" concorda com o sujeito "um bicho estranho" – expressão sublinhada –, que é o termo que rege a flexão verbal.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Voltou" tem sujeito oculto (a tartaruga), não determinado por expressão sublinhada.

Dica de estudo: Para resolver questões de concordância verbal, identifique o sujeito do verbo e verifique se a forma verbal está no número/pessoa adequados. Palavras como "houve" (impessoal) e sujeitos ocultos são armadilhas comuns.

Gabarito: letra D.

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