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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc070836
Banca
FCC
Órgão
MPE-AM
Ano
2024
Nível
Médio
Cargo
Agente de Apoio - Especialidade Administrativo
Atenção: Considere a crônica “Tartaruga de arrastão”, de Rachel de Queiroz, para responder à questão..

        O caso deu-se aqui na ilha, numa pescaria de arrastão. Da primeira redada veio um tal peixe que causou espanto: ninguém podia crer que naquele côncavo de mar morasse tanto peixe assim. Havia de ser alguma piracema que ia passando; para lá de trés toneladas de pescado foram apanhadas de uma só vez. Na segunda redada nada veio, ou quase nada — fugira a piracema ou fora toda colhida pela rede. Entretanto, no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho: uma tartaruga do mar. Tartaruga diferente daquelas fluviais que a gente conhece, tartaruga das profundezas salinas, meio peixe, porque em vez de pernas tem nadadeiras.

      Primeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. Depois foi agarrada e atirada ignominiosamente na areia, de barriga para cima. Por fim puseram-na em posição normal; e ela, recuperando imediatamente a compostura, estirou o pescoço enrugado e correu em torno de si um olho temeroso. Não sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. Muito pior que um bicho da terra pego numa rede: este pode estranhar a prisão, mas afinal continua dentro de um elemento conhecido, pisando chão, vendo árvores familiares, sentindo o cheiro da terra. A tartaruga não: para ela, nascida e vivida no mar, aquela era a mais estranha, a mais inacreditável e terrível das aventuras. Para aquela tartaruga era o mesmo que seria para um de nós vermo-nos transportados subitamente, sem dano físico, até o fundo do mar. Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. As caras desconhecidas de ignorados animais - no caso, homens. E todos, todos, canibais ou pior que isso — pois bem sentia ela sobre o seu casco grosso, sobre a carapaça encaracada, o olhar doce e atento e cobiçoso dos comedores de carne.

       A sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la. E sorte maior o fato de ninguém, pessoalmente, querer se responsabilizar pela carnificina naquela quinta-feira santa. Mas levaram-na para o galinheiro - que ignominia, uma veterana dos sete mares a ser atirada entre as galinhas, na noite que deveria ser a última da sua vida; ela que decerto esperava sepultar-se entre areias claras, nalgum maciço colorido de anêmonas do mar. Mas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração do homem, incertos, os seus impulsos. Tanto val para um lado como para o outro, tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta. O fato é que um coração se apiedou da tragédia e houve mão que abriu a porta da capoeira e encaminhou a marcha rampante do bicho marinho em direção da prala, em direção do mar, sua pátria. Ela também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu. Cortou a areia deixando um rastro longo, penetrou na água como um barco a deslizar do estaleiro, mergulhou, emergiu, voltou a cabeça ainda assustada para aquele mundo sujo, escuro, inimigo, onde viviam os homens, onde esperava nunca mais voltar; e mergulhou de novo, abraçando toda a água que podia entre as nadadeiras abertas.

(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel de. 100 crônicas escolhidas: um alpendre, uma rede, um açude. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021)
Retoma um termo mencionado anteriormente no texto a palavra sublinhada em:
  1. Apenetrou na água como um barco a deslizar do estaleiro (3º parágrafo).
  2. Bvoltou a cabeça ainda assustada para aquele mundo sujo, escuro, inimigo, onde viviam os homens (3º parágrafo).
  3. CMas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração da homem (3º parágrafo).
  4. Dtanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta (3º parágrafo).
  5. Ehouve mão que abriu a porta da capoeira e encaminhou a marcha rampante do bicho marinho (3º parágrafo).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta (3º parágrafo).

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Coesão referencial — pronome anafórico

Gabarito: letra D. A palavra sublinhada é o pronome "o" em "o festeja", que retoma o termo "o seu irmão bicho", mencionado anteriormente no mesmo período. As demais alternativas trazem artigos definidos ("a cabeça", "o coração", "a porta") ou palavras sem função anafórica ("como", "do bicho marinho").

PEGA ESSA DICA!

Pronome oblíquo átono (o, a, os, as) funciona como complemento verbal e retoma um termo já expresso. Artigos definidos acompanham substantivos, mas não os substituem.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"como um barco a deslizar" — a palavra sublinhada é "como" (conjunção comparativa) ou "um" (artigo indefinido); nenhum deles retoma termo anterior.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"a cabeça" — "a" é artigo definido que acompanha "cabeça", sem função anafórica.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"o coração" — "o" é artigo definido; não retoma termo anterior.

Alternativa D — ✅ Correta

"o festeja" — o pronome "o" retoma "o seu irmão bicho", mencionado logo antes no mesmo trecho.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"a porta" — "a" é artigo definido. "Do bicho marinho" é locução prepositiva + substantivo, sem pronome anafórico.

Gabarito: letra D

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