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Questão de Português — Morfologia — FCC 2024

PortuguêsMorfologia
Código
fc070840
Banca
FCC
Órgão
MPE-AM
Ano
2024
Nível
Médio
Cargo
Agente de Apoio - Especialidade Administrativo
Atenção: Considere a crônica “Tartaruga de arrastão”, de Rachel de Queiroz, para responder à questão..

        O caso deu-se aqui na ilha, numa pescaria de arrastão. Da primeira redada veio um tal peixe que causou espanto: ninguém podia crer que naquele côncavo de mar morasse tanto peixe assim. Havia de ser alguma piracema que ia passando; para lá de trés toneladas de pescado foram apanhadas de uma só vez. Na segunda redada nada veio, ou quase nada — fugira a piracema ou fora toda colhida pela rede. Entretanto, no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho: uma tartaruga do mar. Tartaruga diferente daquelas fluviais que a gente conhece, tartaruga das profundezas salinas, meio peixe, porque em vez de pernas tem nadadeiras.

      Primeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. Depois foi agarrada e atirada ignominiosamente na areia, de barriga para cima. Por fim puseram-na em posição normal; e ela, recuperando imediatamente a compostura, estirou o pescoço enrugado e correu em torno de si um olho temeroso. Não sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. Muito pior que um bicho da terra pego numa rede: este pode estranhar a prisão, mas afinal continua dentro de um elemento conhecido, pisando chão, vendo árvores familiares, sentindo o cheiro da terra. A tartaruga não: para ela, nascida e vivida no mar, aquela era a mais estranha, a mais inacreditável e terrível das aventuras. Para aquela tartaruga era o mesmo que seria para um de nós vermo-nos transportados subitamente, sem dano físico, até o fundo do mar. Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. As caras desconhecidas de ignorados animais - no caso, homens. E todos, todos, canibais ou pior que isso — pois bem sentia ela sobre o seu casco grosso, sobre a carapaça encaracada, o olhar doce e atento e cobiçoso dos comedores de carne.

       A sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la. E sorte maior o fato de ninguém, pessoalmente, querer se responsabilizar pela carnificina naquela quinta-feira santa. Mas levaram-na para o galinheiro - que ignominia, uma veterana dos sete mares a ser atirada entre as galinhas, na noite que deveria ser a última da sua vida; ela que decerto esperava sepultar-se entre areias claras, nalgum maciço colorido de anêmonas do mar. Mas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração do homem, incertos, os seus impulsos. Tanto val para um lado como para o outro, tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta. O fato é que um coração se apiedou da tragédia e houve mão que abriu a porta da capoeira e encaminhou a marcha rampante do bicho marinho em direção da prala, em direção do mar, sua pátria. Ela também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu. Cortou a areia deixando um rastro longo, penetrou na água como um barco a deslizar do estaleiro, mergulhou, emergiu, voltou a cabeça ainda assustada para aquele mundo sujo, escuro, inimigo, onde viviam os homens, onde esperava nunca mais voltar; e mergulhou de novo, abraçando toda a água que podia entre as nadadeiras abertas.

(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel de. 100 crônicas escolhidas: um alpendre, uma rede, um açude. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021)
O termo que qualifica o substantivo na expressão árvores familiares (2º parágrafo) tem sentido equivalente àquele que qualifica o substantivo em:
  1. Aareias claras (3º parágrafo).
  2. Belemento conhecido (2º parágrafo).
  3. Cmundo sujo (3º parágrafo).
  4. Dbicho estranho (1º parágrafo).
  5. Eolho temeroso (2º parágrafo).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — elemento conhecido (2º parágrafo).

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Termo que qualifica substantivo: equivalência de sentido

Gabarito: letra B. O adjetivo "familiares" em "árvores familiares" expressa o sentido de "conhecido", "familiar". A única alternativa que apresenta adjetivo com esse mesmo sentido é "elemento conhecido" (B), conforme se comprova no próprio texto.

Resolução

A questão pede equivalência de sentido entre o termo qualificador (adjetivo) de "árvores familiares" e o de outra expressão. "Familiares" significa "que são conhecidas, habituais". Vamos conferir cada alternativa:

  • Alternativa A – ❌ Incorreta: "areias claras" – claras indica cor (brancas ou iluminadas), não familiaridade. O texto menciona "sepultar-se entre areias claras" (3º parágrafo), referindo-se ao leito marinho claro, sem relação com "conhecido".

  • Alternativa B – ✅ Correta ⟵ GABARITO: "elemento conhecido" – conhecido é sinônimo direto de familiar. O texto afirma: "este pode estranhar a prisão, mas afinal continua dentro de um elemento conhecido" (2º parágrafo). Exatamente o mesmo sentido de ambiente familiar, habitual.

  • Alternativa C – ❌ Incorreta: "mundo sujo" – sujo é antônimo de limpo, não se aproxima de "conhecido". O texto usa "mundo sujo, escuro, inimigo" (3º parágrafo) para descrever o ambiente hostil dos humanos.

  • Alternativa D – ❌ Incorreta: "bicho estranho" – estranho é oposto de familiar. O texto inicia com "apareceu um bicho estranho" (1º parágrafo), referindo-se à tartaruga como algo desconhecido.

  • Alternativa E – ❌ Incorreta: "olho temeroso" – temeroso expressa medo, não familiaridade. O texto fala do "olho temeroso" (2º parágrafo) da tartaruga, indicando seu pavor.

Portanto, apenas B mantém a equivalência semântica.

PEGA ESSA DICA!

Questões de equivalência de sentido exigem identificar o significado contextual da palavra. Grafe o termo no texto e compare com cada alternativa descartando aquelas que indicam qualidade diferente (cor, oposição, emoção etc.).

Gabarito: letra B

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