Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Sintaxe — FCC 2024

PortuguêsSintaxe
Código
fc070843
Banca
FCC
Órgão
MPE-AM
Ano
2024
Nível
Médio
Cargo
Agente de Apoio - Especialidade Administrativo
Atenção: Considere a crônica “Tartaruga de arrastão”, de Rachel de Queiroz, para responder à questão..

        O caso deu-se aqui na ilha, numa pescaria de arrastão. Da primeira redada veio um tal peixe que causou espanto: ninguém podia crer que naquele côncavo de mar morasse tanto peixe assim. Havia de ser alguma piracema que ia passando; para lá de trés toneladas de pescado foram apanhadas de uma só vez. Na segunda redada nada veio, ou quase nada — fugira a piracema ou fora toda colhida pela rede. Entretanto, no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho: uma tartaruga do mar. Tartaruga diferente daquelas fluviais que a gente conhece, tartaruga das profundezas salinas, meio peixe, porque em vez de pernas tem nadadeiras.

      Primeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. Depois foi agarrada e atirada ignominiosamente na areia, de barriga para cima. Por fim puseram-na em posição normal; e ela, recuperando imediatamente a compostura, estirou o pescoço enrugado e correu em torno de si um olho temeroso. Não sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. Muito pior que um bicho da terra pego numa rede: este pode estranhar a prisão, mas afinal continua dentro de um elemento conhecido, pisando chão, vendo árvores familiares, sentindo o cheiro da terra. A tartaruga não: para ela, nascida e vivida no mar, aquela era a mais estranha, a mais inacreditável e terrível das aventuras. Para aquela tartaruga era o mesmo que seria para um de nós vermo-nos transportados subitamente, sem dano físico, até o fundo do mar. Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. As caras desconhecidas de ignorados animais - no caso, homens. E todos, todos, canibais ou pior que isso — pois bem sentia ela sobre o seu casco grosso, sobre a carapaça encaracada, o olhar doce e atento e cobiçoso dos comedores de carne.

       A sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la. E sorte maior o fato de ninguém, pessoalmente, querer se responsabilizar pela carnificina naquela quinta-feira santa. Mas levaram-na para o galinheiro - que ignominia, uma veterana dos sete mares a ser atirada entre as galinhas, na noite que deveria ser a última da sua vida; ela que decerto esperava sepultar-se entre areias claras, nalgum maciço colorido de anêmonas do mar. Mas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração do homem, incertos, os seus impulsos. Tanto val para um lado como para o outro, tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta. O fato é que um coração se apiedou da tragédia e houve mão que abriu a porta da capoeira e encaminhou a marcha rampante do bicho marinho em direção da prala, em direção do mar, sua pátria. Ela também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu. Cortou a areia deixando um rastro longo, penetrou na água como um barco a deslizar do estaleiro, mergulhou, emergiu, voltou a cabeça ainda assustada para aquele mundo sujo, escuro, inimigo, onde viviam os homens, onde esperava nunca mais voltar; e mergulhou de novo, abraçando toda a água que podia entre as nadadeiras abertas.

(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel de. 100 crônicas escolhidas: um alpendre, uma rede, um açude. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021)
Rachel de Queiroz dirige-se diretamente a seu leitor no seguinte trecho da crônica:
  1. AA sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la. (3º parágrafo)
  2. BEla também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu. (3º parágrafo)
  3. CImagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. (2º parágrafo)
  4. DPrimeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. (2º parágrafo)
  5. ENão sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. (2º parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. (2º parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Direcionamento ao leitor na crônica

Gabarito: letra C. A autora dirige-se diretamente ao leitor no trecho que utiliza o verbo no imperativo: "Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece", como se lê no 2º parágrafo da crônica. O imperativo "Imagine" estabelece uma interlocução explícita com o leitor, convidando-o a participar da reflexão. As demais alternativas são apenas narrações descritivas, sem esse direcionamento.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar o direcionamento direto ao leitor, procure verbos no imperativo ("imagine", "veja", "note") ou pronomes de tratamento como "você" ou "tu" que se refiram ao leitor.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la. – É uma afirmação narrativa, sem qualquer marca de interpelação ao leitor. A autora relata um fato, não conversa com quem lê.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Ela também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu. – Continua a narração em terceira pessoa. Não há vocativo nem imperativo direcionado ao leitor.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece." – O verbo "Imagine" está no imperativo afirmativo, dirigindo-se ao leitor como interlocutor. É o único trecho em que a autora quebra a narrativa para conversar diretamente com quem lê.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Primeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. – Narração pura, sem marcas de interação com o leitor.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Não sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. – A expressão "Não sei" é uma opinião da narradora, mas os "presentes" são as pessoas no cenário, não o leitor. Não há direcionamento direto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca testa o conhecimento da interlocução textual. Muitos alunos podem confundir uma frase em primeira pessoa (como a da alternativa E) com direcionamento ao leitor, mas o verbo no imperativo é a marca inequívoca.

Gabarito: letra C

Link permanente: /questoes/fc070843