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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc070851
Banca
FCC
Órgão
MPE-AM
Ano
2024
Nível
Médio
Cargo
Agente de Apoio - Especialidade Administrativo
Atenção: Considere o texto “A irresistível ascensão do boto”, de Marcelo Leite, para responder à questão.

     Diz a lenda amazônica que os botos saem do rio, se transformam em moços formosos e conquistam as donzelas, engravidando-as. Vaidoso, na forma humana leva sempre um chapéu na cabeça, supostamente para cobrir o orifício reminiscente da existência aquática. Pode não ser verdade, mas serve como justificação para barrigas inexplicáveis pela ausência de marido. Bem ao modo da natureza social da Amazônia, onde bichos costumam virar gente, e vice-versa. O trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval.

     Mitos e causos à parte, não é que a ciência revela o que os amazônidas já sabiam? Botos machos são mesmo galantes. Como seus primos humanos, muitas vezes partem para atrair fêmeas com um ramalhete — não de flores, mas de plantas aquáticas. Essa imitação barata do comportamento humano é pesquisada por Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e Tony Martin, do Serviço Antártico Britânico. Não deixa de ser irônico que a instituição de Martin promova estudos em plena região equatorial. Nem, tampouco, que o estudo de Silva se torne público no Brasil por intermédio de uma revista de divulgação britânica, a New Scientist.

     Silva e Martin estudaram bolos-lucuxis por três anos na região amazônica. Avistaram mais de 6.000 grupos em Mamirauá, Tefé (oeste do Estado do Amazonas). Em mais de 200 dessas observações havia um indivíduo carregando objetos com o bico, como um maço de ervas ou um pedaço de pau. Em geral o portador era um macho. Era, portanto, forte a sugestão de que se trata de um comportamento sexual. Para comprovar sua hipótese, Silva e Martin buscaram o socorro da genética. Os resultados preliminares indicam que os mais assíduos portadores de ramos e paus seriam também os reprodutores mais bem-sucedidos. Em português claro, O comportamento seria uma forma de exibicionismo — no bom sentido. Machos exibem objetos vistosos para se valorizar sexualmente aos olhos das fêmeas.

     O curioso é encontrar o expediente só em alguns grupos isolados desses cetáceos. O padrão parece sugerir que O comportamento só faz parte do repertório de alguns bandos, disseminando-se neles, ou para outros, por imitação e aprendizado. Numa única e controversa palavra, cultura. Não faz muito tempo, essa era uma noção que só fazia sentido aplicar a humanos. “Cultura”, afinal, sempre foi entendida como o oposto de “natureza”. A fronteira, tão cara às ciências humanas, foi ficando menos nítida com as sucessivas documentações, por vários grupos de pesquisa, do uso de ferramentas por outros primatas. Pelo visto, O boto está prestes a subir na escala social.

(Adaptado de: LEITE, Marcelo. Ciência: use com cuidado. Campinas: Editora da Unicamp, 2014)
De acordo com Marcelo Leite,
  1. Aalguns grupos de botos parecem estar incorporando a cultura humana.
  2. Bas fronteiras entre cultura e natureza não mais se aplicam aos botos.
  3. Ca distinção entre cultura e natureza mostra-se cada vez mais necessária.
  4. Da noção de cultura parece não se aplicar mais aos próprios humanos.
  5. Eindícios de cultura parecem estar presentes em alguns grupos de botos.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — indícios de cultura parecem estar presentes em alguns grupos de botos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Indícios de cultura em grupos de botos – Compreensão textual

Gabarito: letra E. A única alternativa que parafraseia fielmente a tese do texto é a E: o autor afirma que o comportamento de portar objetos por alguns grupos de botos pode ser considerado um indício de cultura. Essa conclusão está explícita no último parágrafo, como se vê abaixo.

“Numa única e controversa palavra, cultura.” “O padrão parece sugerir que o comportamento só faz parte do repertório de alguns bandos…”

O texto inteiro sustenta que determinados grupos de botos exibem um comportamento que, segundo os pesquisadores, pode ser interpretado como cultural – mas nunca como cultura humana. As demais alternativas ou extrapolam ou contradizem o texto.


Alternativa A — ❌ Incorreta

“alguns grupos de botos parecem estar incorporando a cultura humana.”

Erro: extrapolação (fora do escopo). O texto não menciona que os botos incorporam cultura humana; ao contrário, o comportamento é descrito como “exibicionismo” e, no máximo, como uma forma de cultura animal, sem qualquer vínculo com a cultura dos humanos. A palavra “humana” é acrescentada indevidamente.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“as fronteiras entre cultura e natureza não mais se aplicam aos botos.”

Erro: contradiz o texto. O autor diz que a fronteira “foi ficando menos nítida” (3º parágrafo), ou seja, tornou-se menos clara, mas não que deixou de existir. Afirmar que “não mais se aplicam” é uma negação absoluta que o texto não sustenta.

“A fronteira, tão cara às ciências humanas, foi ficando menos nítida…”

Alternativa C — ❌ Incorreta

“a distinção entre cultura e natureza mostra-se cada vez mais necessária.”

Erro: contradiz o texto. O autor defende exatamente o oposto: a distinção está se tornando menos necessária, pois a descoberta de comportamentos culturais em animais a enfraquece. A alternativa inverte a direção do raciocínio.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“a noção de cultura parece não se aplicar mais aos próprios humanos.”

Erro: extrapolação (fora do escopo). O texto trata exclusivamente da aplicação do conceito de cultura a animais (os botos); em nenhum momento sugere que os humanos deixaram de ter cultura. A ideia é inteiramente alheia ao texto.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“indícios de cultura parecem estar presentes em alguns grupos de botos.”

Acerto: paráfrase fiel do texto. O último parágrafo afirma que o comportamento de carregar objetos “só faz parte do repertório de alguns bandos” e que isso pode ser chamado de “cultura”. A alternativa reproduz exatamente essa ideia: indícios de cultura em alguns grupos, sem generalizar para todos os botos nem misturar com cultura humana.

“O padrão parece sugerir que o comportamento só faz parte do repertório de alguns bandos… Numa única e controversa palavra, cultura.”

Conclusão: A banca pediu a alternativa que está de acordo com o texto. Apenas a letra E se mantém dentro dos limites do que foi dito, sem acrescentar, suprimir ou inverter informações.

Gabarito: letra E.

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