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Questão de Português — Interpretação de Textos — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fc070852
Banca
FCC
Órgão
MPE-AM
Ano
2024
Nível
Médio
Cargo
Agente de Apoio - Especialidade Administrativo
Atenção: Considere o texto “A irresistível ascensão do boto”, de Marcelo Leite, para responder à questão.

     Diz a lenda amazônica que os botos saem do rio, se transformam em moços formosos e conquistam as donzelas, engravidando-as. Vaidoso, na forma humana leva sempre um chapéu na cabeça, supostamente para cobrir o orifício reminiscente da existência aquática. Pode não ser verdade, mas serve como justificação para barrigas inexplicáveis pela ausência de marido. Bem ao modo da natureza social da Amazônia, onde bichos costumam virar gente, e vice-versa. O trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval.

     Mitos e causos à parte, não é que a ciência revela o que os amazônidas já sabiam? Botos machos são mesmo galantes. Como seus primos humanos, muitas vezes partem para atrair fêmeas com um ramalhete — não de flores, mas de plantas aquáticas. Essa imitação barata do comportamento humano é pesquisada por Vera Maria Ferreira da Silva, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), e Tony Martin, do Serviço Antártico Britânico. Não deixa de ser irônico que a instituição de Martin promova estudos em plena região equatorial. Nem, tampouco, que o estudo de Silva se torne público no Brasil por intermédio de uma revista de divulgação britânica, a New Scientist.

     Silva e Martin estudaram bolos-lucuxis por três anos na região amazônica. Avistaram mais de 6.000 grupos em Mamirauá, Tefé (oeste do Estado do Amazonas). Em mais de 200 dessas observações havia um indivíduo carregando objetos com o bico, como um maço de ervas ou um pedaço de pau. Em geral o portador era um macho. Era, portanto, forte a sugestão de que se trata de um comportamento sexual. Para comprovar sua hipótese, Silva e Martin buscaram o socorro da genética. Os resultados preliminares indicam que os mais assíduos portadores de ramos e paus seriam também os reprodutores mais bem-sucedidos. Em português claro, O comportamento seria uma forma de exibicionismo — no bom sentido. Machos exibem objetos vistosos para se valorizar sexualmente aos olhos das fêmeas.

     O curioso é encontrar o expediente só em alguns grupos isolados desses cetáceos. O padrão parece sugerir que O comportamento só faz parte do repertório de alguns bandos, disseminando-se neles, ou para outros, por imitação e aprendizado. Numa única e controversa palavra, cultura. Não faz muito tempo, essa era uma noção que só fazia sentido aplicar a humanos. “Cultura”, afinal, sempre foi entendida como o oposto de “natureza”. A fronteira, tão cara às ciências humanas, foi ficando menos nítida com as sucessivas documentações, por vários grupos de pesquisa, do uso de ferramentas por outros primatas. Pelo visto, O boto está prestes a subir na escala social.

(Adaptado de: LEITE, Marcelo. Ciência: use com cuidado. Campinas: Editora da Unicamp, 2014)
O autor manifesta-se explicitamente em seu próprio texto no seguinte trecho:
  1. AOs resultados preliminares indicam que os mais assíduos portadores de ramos e paus seriam também os reprodutores mais bem-sucedidos. (3º parágrafo)
  2. BPara comprovar sua hipótese, Silva e Martin buscaram o socorro da genética. (3º parágrafo)
  3. CO trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval. (1º parágrafo)
  4. DDiz a lenda amazônica que os botos saem do rio, se transformam em moços formosos e conquistam as donzelas, engravidando-as. (1º parágrafo)
  5. EComo seus primos humanos, muitas vezes partem para atrair fêmeas com um ramalhete — não de flores, mas de plantas aquáticas. (2º parágrafo)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — O trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval. (1º parágrafo)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Identificação da opinião do autor no texto

Gabarito: letra C. O autor manifesta-se explicitamente no trecho "O trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval", pois a expressão "verdadeiro carnaval" é uma metáfora carregada de juízo de valor, revelando a opinião do autor sobre o fenômeno. As demais alternativas limitam-se a relatar fatos, lendas ou hipóteses científicas, sem expressar posicionamento pessoal.


Alternativa A — ❌ Incorreta

"Os resultados preliminares indicam que os mais assíduos portadores de ramos e paus seriam também os reprodutores mais bem-sucedidos." (3º parágrafo)

O trecho relata uma conclusão parcial da pesquisa de Silva e Martin, sem acrescentar avaliação pessoal do autor. É uma constatação factual, não uma manifestação de opinião.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Para comprovar sua hipótese, Silva e Martin buscaram o socorro da genética." (3º parágrafo)

Aqui o autor descreve um procedimento metodológico dos cientistas, de forma objetiva. Não há juízo de valor ou subjetividade.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"O trânsito de jabutis, onças, peixes e botos entre o que nós, de fora, enxergamos como dois mundos é um verdadeiro carnaval." (1º parágrafo)

O autor emprega a metáfora "verdadeiro carnaval" para qualificar a mistura entre os mundos humano e animal, expressando sua percepção pessoal. A palavra "verdadeiro" intensifica o caráter opinativo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Diz a lenda amazônica que os botos saem do rio, se transformam em moços formosos e conquistam as donzelas, engravidando-as." (1º parágrafo)

Trata-se da reprodução de uma crença popular, sem qualquer intervenção opinativa do autor. Ele apenas apresenta o mito.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Como seus primos humanos, muitas vezes partem para atrair fêmeas com um ramalhete — não de flores, mas de plantas aquáticas." (2º parágrafo)

O autor compara o comportamento dos botos ao humano, mas de maneira descritiva, sem emitir opinião explícita. A ausência de marcas de subjetividade (como adjetivos valorativos) afasta a alternativa.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar a opinião do autor, procure por palavras ou expressões que revelem juízo de valor, como adjetivos ("verdadeiro"), advérbios modalizadores, metáforas ou ironia. Relatos de fatos, lendas ou resultados de pesquisa não configuram, por si só, manifestação explícita.

Conclusão: Apenas em C o autor se posiciona de forma clara, utilizando linguagem figurada e valorativa. Portanto, C é o gabarito.

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