Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc140687
Banca
FCC
Órgão
MPE AL
Ano
2026
Cargo
Ana ( )
Atenção: Para responder à questão, baseie-se no texto abaixo.
Palavras de amor
Os sentimentos funcionam como picadas de mosquito, que coçamos e recoçamos até que se tornem feridas infectadas e, às vezes, septicemias fatais. Salvo um exercício difícil de autocontrole, qualquer picada pode adquirir uma relevância desmedida. A gente tende a se coçar muito além da conta porque descobre nisso um prazer autônomo.
Por isso mesmo, em geral, não confio nos sentimentos: nem nos meus, nem nos dos outros. Não é que suponho que os humanos mintam quando amam, odeiam, ou se desesperam: nada disso. Apenas verifico que os sentimentos podem ser condições autoinduzidas, transtornos ou desvios produzidos pelos próprios indivíduos que, se não procuram sarna para se coçar (como diz o ditado), no mínimo adoram coçar as sarnas que têm.
Tomemos o exemplo do amor. Eu encontro, conheço ou vislumbro de longe uma pessoa que preenche algumas condições básicas para que eu goste dela. Sussurrando entre quatro paredes ou gritando em praça pública, anotando no meu diário ou escrevendo para grandes editoras, passo a encher o ar ou as páginas com as descrições da beleza inigualável da pessoa amada e com as declarações hiperbólicas do meu sentimento.
Claro, minha prosa ou minha poesia poderão, quem sabe, conquistar o meu objeto de amor, mas esse é um efeito colateral. O efeito mais importante de minhas palavras de amor não é tanto o de seduzir o objeto dos meus sonhos, mas o de eu me apaixonar cada vez mais. Pois a intensidade do meu amor será diretamente proporcional à insistência e à virulência das minhas declarações.
Em linguística chamamos performativasaquelas expressões que, ao serem proferidas, constituem o fato do qual elas falam. Exemplo clássico: um chefe de Estado dizendo “Declaro a guerra”: essa frase é a própria declaração de guerra. Algo semelhante ocorre com o amor: a gente aprende a amar e a declarar o amor pelas palavras dos escritores, o amor se torna relevante em nossa vida à força de ser idealizado pela literatura. Sim, os tempos mudam, e talvez se afirme hoje, aos poucos, uma retórica nova, menos sentimental, capaz de dar valor literário a uma vida sem amores e paixões.
(Adaptado de CALLIGARIS, Contardo. Aproveitar a vida e suas dores. São Paulo: Planeta do Brasil, 2025, p. 155-157)
No que diz respeito à intensidade dos nossos sentimentos, ocorre uma relevância desmedida quando
Aas palavras que os exprimem passam a corresponder à sua legítima natureza.
Beles são autoinduzidos a se alçarem a um patamar superior ao que lhes é próprio.
Cnossas paixões mais íntimas afloram para alcançarem um êxtase real e insuperável.
Deles identificam com exatidão a identidade dos sujeitos que passam a dominar.
Eeles produzem efeitos colaterais que acabam por revelar suas falsas intenções.
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GabaritoB — eles são autoinduzidos a se alçarem a um patamar superior ao que lhes é próprio.
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A relevância desmedida dos sentimentos: quando eles se autoinduzem
Gabarito: letra B. A questão pede a condição em que os sentimentos ganham uma relevância desmedida, e o texto a define no 2º parágrafo: os sentimentos "podem ser condições autoinduzidas, transtornos ou desvios produzidos pelos próprios indivíduos". A alternativa B parafraseia exatamente essa ideia ao dizer que eles são "autoinduzidos a se alçarem a um patamar superior ao que lhes é próprio" — ou seja, elevados artificialmente acima do que seriam naturalmente. As demais alternativas ou extrapolam, ou contradizem, ou tangenciam o que o autor afirma.
O comando: compreensão, não inferência
O enunciado pergunta "ocorre uma relevância desmedida quando" — ou seja, pede a condição que o texto associa a essa relevância. Isso é uma questão de compreensão/recorrência: a resposta está explícita no texto, bastando localizar a passagem e reconhecer a paráfrase. Não se trata de deduzir algo nas entrelinhas, mas de identificar a reescritura fiel de uma ideia já dita. Por isso, o método é: localizar o trecho que fala da "relevância desmedida" e ver qual alternativa o reescreve sem acrescentar nem suprimir nada.
O texto: a tese sobre os sentimentos
O autor desenvolve uma tese cética: os sentimentos, como picadas de mosquito, tendem a ser "coçados" além da conta, ganhando uma "relevância desmedida" (1º parágrafo). No 2º parágrafo, ele explica o mecanismo: os sentimentos "podem ser condições autoinduzidas, transtornos ou desvios produzidos pelos próprios indivíduos". Ou seja, a desmedida não vem da natureza do sentimento, mas de uma autoindução — o próprio sujeito os infla. No 4º parágrafo, ele aplica isso ao amor: "a intensidade do meu amor será diretamente proporcional à insistência e à virulência das minhas declarações" — quanto mais se declara, mais se apaixona. A resposta mora exatamente nessa noção de autoindução.
A técnica: paráfrase fiel × extrapolação
A alternativa correta é a que reescreve com outras palavras a ideia de que os sentimentos são autoinduzidos a um nível acima do natural. Veja o trecho decisivo:
"Apenas verifico que os sentimentos podem ser condições autoinduzidas, transtornos ou desvios produzidos pelos próprios indivíduos"
A expressão "relevância desmedida" (1º parágrafo) é retomada pela ideia de "alçarem a um patamar superior ao que lhes é próprio" — ou seja, um nível que não lhes é natural. A alternativa B captura os dois elementos: a autoindução e o excesso em relação ao que seria próprio. As demais ou introduzem noções que o texto não sustenta (extrapolação), ou invertem o sentido (contradição), ou fogem ao tema.
Alternativa A — ❌ Incorreta
"as palavras que os exprimem passam a corresponder à sua legítima natureza"
O texto diz o oposto: as palavras inflam o sentimento, não o expressam fielmente. No 4º parágrafo, o autor afirma que o efeito das palavras de amor não é "tanto o de seduzir o objeto dos meus sonhos, mas o de eu me apaixonar cada vez mais" — ou seja, as palavras criam o sentimento, não o revelam. A alternativa contradiz o texto ao sugerir que as palavras correspondem à "legítima natureza" do sentimento.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Apenas verifico que os sentimentos podem ser condições autoinduzidas, transtornos ou desvios produzidos pelos próprios indivíduos"
A alternativa parafraseia essa passagem: "autoinduzidos" retoma "condições autoinduzidas"; "alçarem a um patamar superior ao que lhes é próprio" retoma a ideia de "relevância desmedida" (1º parágrafo). O texto afirma que a desmedida ocorre quando o próprio indivíduo infla o sentimento — exatamente o que a B diz. É a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"nossas paixões mais íntimas afloram para alcançarem um êxtase real e insuperável"
O texto não fala em "êxtase real e insuperável" nem em "paixões mais íntimas" que "afloram" naturalmente. Pelo contrário, o autor é cético quanto à autenticidade dos sentimentos: eles são "condições autoinduzidas", não algo que aflora espontaneamente. A alternativa extrapola ao introduzir a noção de êxtase e de naturalidade, que não está no texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"eles identificam com exatidão a identidade dos sujeitos que passam a dominar"
O texto não menciona que os sentimentos "identificam" ou "dominam" sujeitos. Essa é uma ideia completamente alheia ao texto — o autor fala de autoindução, não de dominação. A alternativa tangencia o tema (sentimentos) mas introduz uma relação de poder que não existe no texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"eles produzem efeitos colaterais que acabam por revelar suas falsas intenções"
O texto menciona "efeito colateral" no 4º parágrafo, mas com sentido oposto: o efeito colateral das palavras de amor é "eu me apaixonar cada vez mais" — ou seja, um efeito que reforça o sentimento, não que revela "falsas intenções". A alternativa contradiz o texto ao atribuir às palavras a revelação de falsidade, quando o autor diz que elas intensificam o amor.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a paráfrase de uma ideia central, trocando termos por sinônimos. A alternativa E usa a expressão "efeitos colaterais" que existe no texto, mas inverte o sentido — é a clássica armadilha de trocar um vocábulo crucial ("revelar falsas intenções" em vez de "apaixonar cada vez mais").
PEGA ESSA DICA!
Ao resolver questões de compreensão, grife no texto a passagem que responde ao comando e compare cada alternativa com ela, perguntando: "o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora?". A correta é sempre a paráfrase fiel — nem mais, nem menos.
Conclusão: a relevância desmedida ocorre quando os sentimentos são autoinduzidos a um nível acima do natural, como diz o texto. A alternativa B é a única que reescreve essa ideia sem extrapolar, contradizer ou tangenciar. Gabarito: letra B.