Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Tipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre) — FCC 2026

PortuguêsTipos de Discurso (Direto, Indireto e Indireto Livre)
Código
fc140692
Banca
FCC
Órgão
MPE AL
Ano
2026
Cargo
Tec ( )

Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia, imaginem, ela passava na fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta. O pessoal da alfândega – tudo malandro velho – começou a desconfiar da velhinha. Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da alfândega mandou ela parar. A velhinha parou e então o fiscal perguntou assim pra ela:

 

– Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia, com esse saco aí atrás. Que diabo a senhora leva nesse saco?

 

A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e mais os outros, que ela adquirira no odontólogo, e respondeu:

 

– É areia!

 

Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco. A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco e dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em frente. Ela montou na lambreta e foi embora, com o saco de areia atrás. Mas o fiscal ficou desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com areia e no outro com muamba, dentro daquele maldito saco. No dia seguinte, quando ela passou na lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou parar outra vez. Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo. Durante um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia.

 

Diz que foi aí que o fiscal se chateou:

 

– Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com quarenta anos de serviço. Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.

 

– Mas no saco só tem areia! – insistiu a velhinha. E já ia tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:

 

– Eu prometo à senhora que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai me dizer: qual é o contrabando que a senhora está passando por aqui todos os dias?

 

– O senhor promete que não "espaia"? – quis saber a velhinha.

 

– Juro – respondeu o fiscal.

 

– É lambreta.

 

(Adaptado de: RAMOS, Graciliano et al. Para gostar de ler: contos, v. 8. São Paulo: Ática, 1985, p. 17-18)

No chamado discurso indireto livre, a voz da personagem mescla-se intimamente à voz do narrador, a exemplo do que ocorre em:
  1. AMuito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em frente.
  2. B– O senhor promete que não "espaia"? – quis saber a velhinha.
  3. CPerguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai!
  4. DUm dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da alfândega mandou ela parar.
  5. E– Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia, com esse saco aí atrás.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai!

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Discurso indireto livre: a voz da personagem dentro da voz do narrador

Gabarito: letra C. A alternativa C é a única que apresenta o discurso indireto livre, pois nela a fala da personagem — a velhinha — surge dentro do discurso do narrador, sem verbos de elocução, travessões ou conjunções que a introduzam. O trecho "Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai!" mistura a narração em 3ª pessoa com a expressão típica da personagem, o "uai!", que não pertence ao narrador, mas sim à fala da velhinha, reproduzida de forma espontânea.

O comando: identificar o discurso indireto livre

A questão pede que você reconheça, entre as alternativas, aquela em que ocorre o discurso indireto livre. Esse é um conceito de análise do discurso — não é uma questão de compreensão ou inferência, mas de identificação de um recurso estilístico dentro do texto. Para resolvê-la, você precisa saber as características de cada tipo de discurso e, principalmente, a diferença entre eles.

O texto: a história da velhinha contrabandista

O texto narra a história de uma velhinha que atravessa a fronteira todos os dias com um saco de areia, despertando a suspeita do fiscal da alfândega. O clímax da narrativa está na revelação final: o contrabando era a própria lambreta. Para contar essa história, o narrador utiliza os três tipos de discurso: o direto (com travessões, como em "– Escuta aqui, vovozinha..."), o indireto (com verbos de elocução e conjunções, como em "ordenou à velhinha que fosse em frente") e o indireto livre (que mistura a voz do narrador com a da personagem).

A técnica: o que caracteriza o discurso indireto livre

O discurso indireto livre é uma mescla entre a fala do narrador e a fala da personagem. Ele não é introduzido por verbos de elocução (como "disse", "perguntou", "respondeu"), nem por travessões, aspas ou dois-pontos, e não é marcado por conjunções integrantes (como "que" ou "se"). A fala da personagem surge espontaneamente dentro da narração, muitas vezes com marcas de oralidade, como interjeições, exclamações ou perguntas diretas.

No trecho da alternativa C, o narrador começa com o verbo "perguntou" (que é um verbo de elocução), mas a partir daí a fala da personagem se insere de forma indireta: "o que é que ela levava no saco". No entanto, o final "uai!" é uma interjeição típica da fala da velhinha, que não foi introduzida por nenhum verbo dicendi. É exatamente essa mistura — a narração em 3ª pessoa com a expressão oral da personagem — que caracteriza o discurso indireto livre.

"Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai!"

O "uai!" é a pista decisiva: ele não é do narrador, é da personagem, e aparece sem nenhuma marca de separação (sem travessão, sem aspas, sem verbo introdutor). É a voz da velhinha emergindo dentro da voz do narrador.

Análise das alternativas

Tipo de Discurso

Característica Principal

Marca Típica

Exemplo (da questão)

Direto

Transcrição literal da fala da personagem

Travessão, aspas, dois-pontos, verbo de elocução

"– Escuta aqui, vovozinha..." (E)

Indireto

Narrador reproduz a fala com suas próprias palavras

Verbo de elocução + conjunção integrante ("que", "se")

"ordenou à velhinha que fosse em frente" (A)

Indireto Livre

Mescla da voz do narrador com a da personagem, sem marcas de separação

Interjeição, exclamação ou pergunta direta inserida na narração

"Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai!" (C)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Muito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em frente."

Aqui temos discurso indireto, não indireto livre. O verbo "ordenou" é um verbo de elocução, e a fala da personagem é reproduzida pelo narrador por meio da conjunção integrante "que" ("que fosse em frente"). Não há mistura de vozes: o narrador apenas relata o que foi dito, sem inserir a fala da personagem de forma espontânea.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"– O senhor promete que não "espaia"? – quis saber a velhinha."

Esta é uma ocorrência clássica de discurso direto. A fala da personagem é transcrita literalmente, marcada por travessão, e introduzida pelo verbo de elocução "quis saber". Não há mescla de vozes: a fala da velhinha está claramente separada da narração.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai!"

Como explicado, o trecho mistura a narração ("Perguntou", "ela respondeu") com a fala da personagem ("uai!"), sem marcas de separação. O "uai!" é uma interjeição típica da velhinha, que surge dentro do discurso do narrador, sem verbo de elocução que a introduza. É o exemplo perfeito de discurso indireto livre.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da alfândega mandou ela parar."

Este trecho é puramente narrativo. Não há fala de personagem, apenas a descrição dos fatos pelo narrador. O verbo "mandou" não introduz um discurso, mas uma ação. Não se trata de nenhum tipo de discurso (direto, indireto ou indireto livre).

Alternativa E — ❌ Incorreta

"– Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia, com esse saco aí atrás."

Assim como a alternativa B, esta é uma ocorrência de discurso direto. A fala do fiscal é transcrita literalmente, marcada por travessão, e não há mistura com a voz do narrador. O discurso direto é a transcrição exata da fala da personagem, sem a participação do narrador.

Conclusão

A chave para identificar o discurso indireto livre é perceber a ausência de marcas de separação entre a fala da personagem e a narração. Enquanto o discurso direto usa travessões/aspas e o indireto usa verbos de elocução + conjunções, o indireto livre insere a fala da personagem de forma espontânea, muitas vezes com marcas de oralidade, como o "uai!" da alternativa C.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar o discurso indireto livre, procure por interjeições, exclamações ou perguntas diretas que não sejam introduzidas por verbos de elocução. Essas marcas de oralidade são o sinal de que a voz da personagem está emergindo dentro da voz do narrador.

Gabarito: letra C

Link permanente: /questoes/fc140692