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Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — FCC 2026

PortuguêsOutras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
fc140693
Banca
FCC
Órgão
MPE AL
Ano
2026
Cargo
Tec ( )

Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta. Todo dia, imaginem, ela passava na fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta. O pessoal da alfândega – tudo malandro velho – começou a desconfiar da velhinha. Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da alfândega mandou ela parar. A velhinha parou e então o fiscal perguntou assim pra ela:

 

– Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui todo dia, com esse saco aí atrás. Que diabo a senhora leva nesse saco?

 

A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe restavam e mais os outros, que ela adquirira no odontólogo, e respondeu:

 

– É areia!

 

Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco. A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco e dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em frente. Ela montou na lambreta e foi embora, com o saco de areia atrás. Mas o fiscal ficou desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com areia e no outro com muamba, dentro daquele maldito saco. No dia seguinte, quando ela passou na lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou parar outra vez. Perguntou o que é que ela levava no saco e ela respondeu que era areia, uai! O fiscal examinou e era mesmo. Durante um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia.

 

Diz que foi aí que o fiscal se chateou:

 

– Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com quarenta anos de serviço. Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.

 

– Mas no saco só tem areia! – insistiu a velhinha. E já ia tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:

 

– Eu prometo à senhora que deixo a senhora passar. Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém, mas a senhora vai me dizer: qual é o contrabando que a senhora está passando por aqui todos os dias?

 

– O senhor promete que não "espaia"? – quis saber a velhinha.

 

– Juro – respondeu o fiscal.

 

– É lambreta.

 

(Adaptado de: RAMOS, Graciliano et al. Para gostar de ler: contos, v. 8. São Paulo: Ática, 1985, p. 17-18)

No conto, o narrador dirige-se explicitamente a seus leitores no seguinte trecho:
  1. AAchou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco.
  2. BDurante um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia.
  3. CUm dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da alfândega mandou ela parar.
  4. DTodo dia, imaginem, ela passava na fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta.
  5. EO pessoal da alfândega – tudo malandro velho – começou a desconfiar da velhinha.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Todo dia, imaginem, ela passava na fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O narrador que conversa com o leitor: a função fática no conto

Gabarito: letra D. A única alternativa em que o narrador se dirige explicitamente ao leitor é a que contém a expressão "imaginem", um verbo no imperativo que convoca diretamente quem lê a participar da cena. Como se lê no texto: "Todo dia, imaginem, ela passava na fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta." Essa interpelação direta é a marca da função fática da linguagem, que estabelece e mantém o contato entre emissor e receptor.

O comando: localizar a interpelação direta

O enunciado pede que se identifique o trecho em que o narrador "dirige-se explicitamente a seus leitores". A palavra-chave é "explicitamente": não se trata de inferir uma intenção, mas de encontrar a marca linguística visível dessa interpelação. O recurso típico é o vocativo ou o verbo no imperativo dirigido a um interlocutor — no caso, o leitor. É uma questão de compreensão/recorrência: a resposta está literal no texto, basta localizá-la.

O texto: a quebra da quarta parede

O conto é narrado em 3ª pessoa, mas o narrador, em determinado momento, abandona a impessoalidade e fala diretamente com quem lê. Isso ocorre no primeiro parágrafo, quando ele usa o verbo "imaginar" no imperativo: "Todo dia, imaginem, ela passava na fronteira...". O uso de "imaginem" (plural, pois se dirige a todos os leitores) é uma interpelação explícita, um convite para que o leitor visualize a cena. É exatamente isso que a alternativa D reproduz.

A técnica: função fática e marcas de interpelação

A função fática da linguagem é aquela centrada no canal de comunicação: seu objetivo é estabelecer, prolongar ou interromper o contato entre emissor e receptor. Expressões como "imaginem", "vejam", "entendem?", "não é?" são típicas dessa função. No texto, o narrador usa "imaginem" para chamar o leitor para dentro da narrativa, criando cumplicidade. As demais alternativas são todas narrativas puras: descrevem ações dos personagens sem qualquer marca de interpelação ao leitor.

1Marcas típicas
Vocativo ("leitor", "amigo")
Verbo no imperativo ("imaginem", "vejam")
2Função fática
Centrada no canal
Estabelece contato com o leitor
3No texto
"imaginem" (imperativo)
Quebra da impessoalidade
Interpelação explícita ao leitor
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Interpelação explícita ao leitor: Marcas típicas (Vocativo ("leitor", "amigo"), Verbo no imperativo ("imaginem", "vejam")); Função fática (Centrada no canal, Estabelece contato com o leitor); No texto ("imaginem" (imperativo), Quebra da impessoalidade)

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Achou que não era areia nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para examinar o saco."

Este trecho narra a ação do fiscal, em 3ª pessoa, sem qualquer marca de interpelação ao leitor. É narrativa pura, sem função fática. Erro: tangencia o tema — fala do enredo, mas não contém interpelação.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Durante um mês seguido o fiscal interceptou a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era areia."

Também é narrativa pura, descrevendo a repetição das abordagens. Não há verbo no imperativo, vocativo ou qualquer marca de contato com o leitor. Erro: tangencia o tema — é parte do enredo, mas não há interpelação.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco atrás, o fiscal da alfândega mandou ela parar."

Narra a primeira abordagem do fiscal. Novamente, narrativa pura, sem interpelação ao leitor. Erro: tangencia o tema — descreve a cena, mas não há marca de contato com o leitor.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Todo dia, imaginem, ela passava na fronteira montada na lambreta, com um bruto saco atrás da lambreta."

A palavra "imaginem" é a marca explícita da interpelação. O verbo "imaginar" no imperativo plural dirige-se diretamente aos leitores, convidando-os a visualizar a cena. É a função fática em ação: o narrador quebra a narrativa para falar com quem lê. Nenhuma outra alternativa contém esse recurso.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"O pessoal da alfândega – tudo malandro velho – começou a desconfiar da velhinha."

Narra a desconfiança dos fiscais, em 3ª pessoa. Não há interpelação ao leitor. Erro: tangencia o tema — é parte do enredo, mas sem marca de contato com o leitor.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece trechos que são todos do conto, mas apenas um contém a interpelação explícita. A armadilha é o candidato se perder no enredo e não perceber que a questão pede a marca linguística da interpelação, não o conteúdo da narrativa.

PEGA ESSA DICA!

Ao ver "dirige-se explicitamente ao leitor", procure por vocativos ("leitor", "amigo") ou verbos no imperativo ("imaginem", "vejam"). Essas são as marcas típicas da função fática.

Conclusão: a questão testa a capacidade de identificar a função fática da linguagem. A única alternativa com interpelação explícita é a D, que contém o imperativo "imaginem". As demais são narrativas puras, sem qualquer marca de contato com o leitor.

Gabarito: letra D

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