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Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — FCC 2026

PortuguêsSignificação de Vocábulo e Expressões
Código
fc140704
Banca
FCC
Órgão
MPE AL
Ano
2026
Cargo
Tec ( )

Para a maioria dos brasileiros a pronúncia é “récorde”, proparoxítona, e não, como recomendam dez entre dez sábios, “recorde”, paroxítona. Estamos diante de um caso clássico de desobediência civil, em que a língua da vida real vai para um lado e a dos sábios, para o outro.

 

Recorde, termo adaptado do inglês record, pode ser substantivo – significando a melhor marca esportiva, o desempenho a ser superado – ou adjetivo – com sentido equivalente: “tempo recorde”, “velocidade recorde”. Quanto a isso, estamos todos de acordo. A divergência começa na hora de definir a prosódia da palavra. Em seu Dicionário de palavras & expressões estrangeiras, Luís Augusto Fischer observa com irreverência que há “duas pronúncias: a que os gramáticos preferem, ‘recorde’, ou a do resto da humanidade, ‘récorde’”. É mais ou menos isso. Basta trocar, na frase de Fischer, “o resto da humanidade” por “a maioria dos brasileiros” que ela fica perfeita. Em Portugal, a inclinação por “recorde” parece inquestionável. Aqui, ocorre o inverso.

 

Sempre pronunciei “récorde”. Puxando pela memória, não consigo pensar em ninguém que não o faça. Se, como em tantos casos, nossos dicionários e gramáticas ainda se aferram de maneira um tanto acrítica à preferência lusitana, isso é um problema deles, que precisa ser – e certamente será – corrigido um dia. O Houaiss foi o primeiro a abrir a porta. Veja a tímida mas significativa nota que constava ao pé do verbete recorde na edição de 2001: “Pelo menos no Brasil, ocorre também como palavra proparoxítona: ‘récorde’.” Mais tarde, o dicionário suprimiu a nota, mas passou a trazer o verbete récorde como variação de recorde.

 

Uma explicação provável para o descompasso: os portugueses tendem a manter a pronúncia que record ganhou na França, de onde importaram o anglicismo por tabela, enquanto os falantes brasileiros estabeleceram ligação direta com o idioma de origem, no qual o acento (no caso em que record é substantivo, e não verbo) recai na primeira sílaba. No dia em que a língua brasileira dissolver mais este preconceito, é evidente que a grafia será forçada a seguir atrás: escreveremos récorde, com acento. E tudo ficará mais harmônico entre som e traço, como deve ser.

 

(Adaptado de: RODRIGUES, Sérgio. Viva a língua brasileira! São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 73-75.)

Os chamados dêiticos são termos linguísticos que se referem à situação em que o enunciado é produzido, ao momento da enunciação e aos atores do discurso. Assim, termos como “ali”, “hoje” ou “amanhã” devem ser interpretados em funçã{o} de onde e em que momento se encontram os atores do discurso quando dizem “ali”, “hoje” ou “amanhã”   Verifica-se um dêitico que se refere ao lugar em que o enunciado é produzido (ou seja, ao lugar onde se encontra o autor do texto) no seguinte trecho:
  1. ASempre pronunciei “récorde”.
  2. BMais tarde, o dicionário suprimiu a nota.
  3. CAqui, ocorre o inverso.
  4. DÉ mais ou menos isso.
  5. EEm Portugal, a inclinação por “recórde” parece inquestionável.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Aqui, ocorre o inverso.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Dêiticos: a referência ao lugar da enunciação

Gabarito: letra C. O dêitico que se refere ao lugar em que o enunciado é produzido é o advérbio "Aqui", presente na alternativa C — "Aqui, ocorre o inverso." O termo "aqui" só pode ser interpretado se soubermos onde está o autor do texto: ele se refere ao Brasil, lugar de onde o autor escreve, em oposição a Portugal, mencionado na frase anterior. As demais alternativas ou não contêm dêitico de lugar, ou contêm dêiticos de outra natureza (pessoal, temporal, textual).

O comando: identificar o dêitico de lugar

A questão pede que você verifique qual trecho contém um dêitico que se refere ao lugar em que o enunciado é produzido. Isso é uma tarefa de compreensão — a resposta está explícita no texto, mas exige que você conheça o conceito de dêitico e saiba reconhecê-lo na prática. Não é uma inferência; é uma identificação direta.

O texto: o autor fala do Brasil

O texto discute a pronúncia de "recorde" no Brasil e em Portugal. No segundo parágrafo, o autor afirma:

"Em Portugal, a inclinação por 'recorde' parece inquestionável. Aqui, ocorre o inverso."

O advérbio "aqui" é um dêitico de lugar: ele aponta para o lugar onde o autor está, ou seja, o Brasil. Sem saber que o autor escreve do Brasil, não é possível entender o que "aqui" significa. É exatamente isso que a questão pede: um termo que só pode ser interpretado em função do lugar da enunciação.

A técnica: reconhecer os tipos de dêiticos

Dêiticos são termos que dependem do contexto da enunciação para ter sentido. Eles podem ser:

  • Pessoais: referem-se aos atores do discurso (eu, tu, ele, nós...).

  • Temporais: referem-se ao momento da enunciação (hoje, amanhã, agora...).

  • Espaciais/locativos: referem-se ao lugar da enunciação (aqui, ali, lá...).

  • Textuais: referem-se a partes do próprio texto (isso, isto, aquilo...).

A pegadinha da banca é justamente confundir esses tipos. Veja como cada alternativa se classifica:

Alternativa

Termo dêitico

Tipo

A) "Sempre pronunciei"

"Sempre"

Temporal (frequência)

B) "Mais tarde"

"Mais tarde"

Temporal

C) "Aqui"

"Aqui"

Espacial

D) "Isso"

"Isso"

Textual

E) "Em Portugal"

"Em Portugal"

Nome próprio de lugar (não dêitico)

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Sempre pronunciei 'récorde'."

O advérbio "sempre" é um dêitico temporal, pois indica frequência no tempo, não lugar. Além disso, o pronome "eu" (implícito) é dêitico pessoal. Não há referência ao lugar da enunciação. Erro: troca de tipo de dêitico (temporal/pessoal em vez de espacial).

Alternativa B — ❌ Incorreta

"Mais tarde, o dicionário suprimiu a nota."

A expressão "mais tarde" é um dêitico temporal, referindo-se a um momento posterior ao da enunciação. Não indica lugar. Erro: troca de tipo de dêitico (temporal em vez de espacial).

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Aqui, ocorre o inverso."

O advérbio "aqui" é um dêitico espacial clássico: só pode ser interpretado se soubermos onde o autor está. No texto, "aqui" refere-se ao Brasil, lugar de onde o autor escreve, em contraste com Portugal. É exatamente o que o enunciado pede: um dêitico que se refere ao lugar em que o enunciado é produzido.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"É mais ou menos isso."

O pronome demonstrativo "isso" é um dêitico textual: retoma algo dito anteriormente no texto (a frase de Fischer). Não se refere a lugar. Erro: troca de tipo de dêitico (textual em vez de espacial).

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Em Portugal, a inclinação por 'recorde' parece inquestionável."

"Em Portugal" é um nome próprio de lugar, não um dêitico. Um dêitico é um termo cujo referente depende do contexto da enunciação; "Portugal" tem referente fixo, independente de quem fala ou de onde. Erro: confunde nome de lugar com dêitico (fuga ao conceito).

Fechamento

A regra de ouro: dêitico é todo termo que só ganha sentido pleno quando sabemos quem fala, quando fala e de onde fala. Na hora da prova, pergunte: "esse termo muda de referente se o autor estiver em outro lugar?" Se sim, é dêitico espacial. "Aqui" muda — depende do lugar do autor. "Portugal" não muda — é sempre Portugal.

NÃO CAIA NESSA!

Ao identificar dêiticos, classifique-os primeiro: pessoal, temporal, espacial ou textual. A banca adora trocar um tipo pelo outro.

Gabarito: letra C.

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