Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146692
Banca
FCC
Órgão
CETESB
Ano
2024
Cargo
Adv ( )
Ciência: o valor dos limites
A esperança de que podemos atingir o conhecimento total é muito simplista. A ciência precisa falhar para avançar. Queremos certezas. Mas, para crescer, precisamos abraçar as incertezas. A existência dos limites não deve ser vista como um obstáculo intransponível. Limites são oportunidades, alavancas que nos ensinam algo sobre o mundo e sobre nós mesmos, que nos incentivam a prosseguir na busca de respostas. Limites expandem as possibilidades de quem podemos ser.
A ciência é muito mais do que conhecimento acumulado do mundo natural. É uma visão de mundo, um estilo de vida, uma aspiração coletiva de crescermos como espécie em um cosmos repleto de mistérios, de medos e encantos. A ciência é o cobertor com que cobrimos os pés à noite, a luz que ligamos no fim do corredor, o mentor paciente que nos lembra do que somos capazes quando trabalhamos juntos. Que a ciência seja usada tanto para o bem como para o mal não reflete a ciência em si, mas a precariedade da natureza humana, a tendência que temos tanto para criar quanto para destruir.
Embora as ciências físicas e sociais sejam capazes de iluminar muitos aspectos do conhecimento, não têm como missão responder a todas as perguntas. Nada diminuiria mais o espírito humano do que restringir nossa criatividade a uma única esquina do conhecimento. Somos criaturas multidimensionais e buscamos respostas de muitas formas. Cada uma tem seus propósitos e precisamos de todas elas.
Aceitar que o conhecimento é incompleto não é uma derrota do intelecto humano, não significa que estamos enquadrando a ciência como uma atividade humana, falível mesmo que poderosa, incompleta mesmo como melhor ferramenta para descrever o mundo. A ciência não reflete uma verdade divina, existente em um domínio platônico de perfeição e beleza. A ciência reflete a inquietude humana, nossa necessidade de ter algum controle sobre o tempo, sobre o misto de veneração e temor que sentimos quando confrontamos a imensidão do cosmos.
(Adaptado de: GLEISER, Marcelo. A ilha do conhecimento. 7.ed. Rio de Janeiro: Record, 2023, p. 325-328, passim)
A convicção exposta na frase A ciência precisa falhar para avançar justifica-se e acentua-se nesta outra afirmação do texto:
Atendência que temos tanto para criar quanto para destruir.
BSomos criaturas multidimensionais.
CQueremos certezas.
DLimites são oportunidades, alavancas.
Euma aspiração coletiva de crescermos.
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GabaritoD — Limites são oportunidades, alavancas.
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A ciência precisa falhar para avançar: a justificativa dos limites
Gabarito: letra D. A frase "A ciência precisa falhar para avançar" expressa a tese de que o erro e a limitação são condições para o progresso científico. Essa convicção se justifica e se acentua na afirmação "Limites são oportunidades, alavancas", pois ambos os enunciados compartilham a mesma lógica: o que parece obstáculo (falhar, ter limites) é, na verdade, o que impulsiona o avanço. Como se lê no 1º parágrafo: "Limites são oportunidades, alavancas que nos ensinam algo sobre o mundo e sobre nós mesmos, que nos incentivam a prosseguir na busca de respostas."
O comando pede que você identifique, entre as alternativas, aquela que justifica e acentua a ideia contida na frase destacada. Isso significa que a alternativa correta deve retomar e reforçar a mesma linha de raciocínio: a ciência avança justamente porque enfrenta limites e falhas. Não basta que a frase seja verdadeira no texto; ela precisa estar conectada logicamente à tese de que o erro é produtivo.
O texto desenvolve essa tese ao longo do primeiro parágrafo: "A esperança de que podemos atingir o conhecimento total é muito simplista. A ciência precisa falhar para avançar." Em seguida, o autor explica que "a existência dos limites não deve ser vista como um obstáculo intransponível" e conclui: "Limites são oportunidades, alavancas que nos ensinam algo sobre o mundo e sobre nós mesmos, que nos incentivam a prosseguir na busca de respostas." Perceba a estrutura: a falha é apresentada como causa do avanço; os limites, como meio para o crescimento. A alternativa D é a única que repete essa relação de causa e consequência, transformando o que seria um empecilho em um impulso.
A técnica para resolver questões como esta é mapear a relação semântica entre as ideias. Pergunte: "Qual alternativa mantém a mesma relação de causa e consequência que a frase inicial?" As demais alternativas são verdadeiras no texto, mas não estabelecem essa relação. Elas ou apresentam uma característica da ciência (como a alternativa E), ou uma constatação sobre o ser humano (como a B), ou uma oposição (como a C), ou uma dualidade (como a A). Nenhuma delas explica por que a ciência precisa falhar para avançar.
NÃO CAIA NESSA!
A banca oferece frases que estão no texto, mas que não mantêm a relação de causa e consequência com a tese inicial. A alternativa D é a única que justifica a frase, pois transforma o limite em alavanca para o progresso.
PEGA ESSA DICA!
Ao ler o comando, sublinhe os verbos "justifica" e "acentua". Eles indicam que a resposta deve reforçar a ideia, não apenas repeti-la. Teste cada alternativa perguntando: "Esta frase explica por que a ciência precisa falhar?"
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erro: tangenciar o tema. A frase "tendência que temos tanto para criar quanto para destruir" aparece no 2º parágrafo, mas refere-se à natureza humana, não à relação entre falha e avanço científico. O texto diz: "Que a ciência seja usada tanto para o bem como para o mal não reflete a ciência em si, mas a precariedade da natureza humana, a tendência que temos tanto para criar quanto para destruir." Essa passagem trata do uso da ciência, não do processo de avanço. Portanto, não justifica a tese de que a ciência precisa falhar para avançar.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: tangenciar o tema. "Somos criaturas multidimensionais" é uma afirmação do 3º parágrafo, que defende a pluralidade de formas de conhecimento. O texto diz: "Somos criaturas multidimensionais e buscamos respostas de muitas formas." Essa ideia é sobre a diversidade do conhecimento humano, não sobre a função do erro ou do limite. Não há relação de causa e consequência com a frase inicial.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: contradizer o texto. "Queremos certezas" aparece no 1º parágrafo, mas em um contexto de oposição: "Queremos certezas. Mas, para crescer, precisamos abraçar as incertezas." O autor reconhece o desejo humano por certezas, mas o contrapõe à necessidade de aceitar incertezas. Essa frase não justifica a tese; ela apresenta o obstáculo que a tese supera. Portanto, não acentua a ideia de que a ciência precisa falhar para avançar.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Justificativa: A frase "Limites são oportunidades, alavancas" é a única que retoma e reforça a tese de que a falha e o limite são condições para o avanço. O texto diz: "Limites são oportunidades, alavancas que nos ensinam algo sobre o mundo e sobre nós mesmos, que nos incentivam a prosseguir na busca de respostas." A palavra "alavancas" é a chave: ela transforma o limite em instrumento de progresso, exatamente como a falha é apresentada como causa do avanço. A relação de causa e consequência é explícita: os limites causam o aprendizado e o incentivo à busca.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: tangenciar o tema. "Uma aspiração coletiva de crescermos" aparece no 2º parágrafo: "É uma visão de mundo, um estilo de vida, uma aspiração coletiva de crescermos como espécie." Essa frase descreve a ciência como um projeto coletivo, mas não explica por que a ciência precisa falhar para avançar. Não há relação de causa e consequência com a tese inicial.
Conclusão: A alternativa D é a única que mantém a relação de causa e consequência com a frase "A ciência precisa falhar para avançar", pois transforma o limite em alavanca para o progresso. As demais alternativas são verdadeiras no texto, mas não justificam nem acentuam a tese central.