Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — FCC 2024
Português›Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
fc146695
Banca
FCC
Órgão
CETESB
Ano
2024
Cargo
Adv ( )
Ciência: o valor dos limites
A esperança de que podemos atingir o conhecimento total é muito simplista. A ciência precisa falhar para avançar. Queremos certezas. Mas, para crescer, precisamos abraçar as incertezas. A existência dos limites não deve ser vista como um obstáculo intransponível. Limites são oportunidades, alavancas que nos ensinam algo sobre o mundo e sobre nós mesmos, que nos incentivam a prosseguir na busca de respostas. Limites expandem as possibilidades de quem podemos ser.
A ciência é muito mais do que conhecimento acumulado do mundo natural. É uma visão de mundo, um estilo de vida, uma aspiração coletiva de crescermos como espécie em um cosmos repleto de mistérios, de medos e encantos. A ciência é o cobertor com que cobrimos os pés à noite, a luz que ligamos no fim do corredor, o mentor paciente que nos lembra do que somos capazes quando trabalhamos juntos. Que a ciência seja usada tanto para o bem como para o mal não reflete a ciência em si, mas a precariedade da natureza humana, a tendência que temos tanto para criar quanto para destruir.
Embora as ciências físicas e sociais sejam capazes de iluminar muitos aspectos do conhecimento, não têm como missão responder a todas as perguntas. Nada diminuiria mais o espírito humano do que restringir nossa criatividade a uma única esquina do conhecimento. Somos criaturas multidimensionais e buscamos respostas de muitas formas. Cada uma tem seus propósitos e precisamos de todas elas.
Aceitar que o conhecimento é incompleto não é uma derrota do intelecto humano, não significa que estamos enquadrando a ciência como uma atividade humana, falível mesmo que poderosa, incompleta mesmo como melhor ferramenta para descrever o mundo. A ciência não reflete uma verdade divina, existente em um domínio platônico de perfeição e beleza. A ciência reflete a inquietude humana, nossa necessidade de ter algum controle sobre o tempo, sobre o misto de veneração e temor que sentimos quando confrontamos a imensidão do cosmos.
(Adaptado de: GLEISER, Marcelo. A ilha do conhecimento. 7.ed. Rio de Janeiro: Record, 2023, p. 325-328, passim)
Está plenamente adequado o emprego do elemento sublinhado na frase:
AUm misto de veneração e temor é o sentimento por que somos tomados frente ao cosmos.
BO emprego nocivo da ciência não é um efeito ao qual ela mesma seja responsável.
CAs altas aspirações das quais nos curvamos podem nos levar a um estado de frustração.
DOs limites científicos de cujos trata o texto derivam do limite mesmo da nossa humanidade.
EÉ na necessidade da plenitude do conhecimento aonde se nota toda a nossa arrogância.
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GabaritoA — Um misto de veneração e temor é o sentimento por que somos tomados frente ao cosmos.
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Regência e pronomes relativos: a adequação do elemento sublinhado
Gabarito: letra A. A frase "Um misto de veneração e temor é o sentimento por que somos tomados frente ao cosmos" é a única em que o elemento sublinhado está empregado com plena adequação: o verbo tomar (no sentido de "ser dominado por um sentimento") rege a preposição por, e o pronome relativo que retoma corretamente "sentimento", formando a locução por que (preposição + pronome relativo). Como se lê no texto: "o misto de veneração e temor que sentimos quando confrontamos a imensidão do cosmos" — a ideia de ser tomado por esse sentimento está ancorada na passagem.
A questão pede que você avalie o emprego do elemento sublinhado em cada frase, ou seja, se a regência (verbal ou nominal) e o uso do pronome relativo ou do advérbio estão corretos. Não se trata de interpretação de sentido, mas de gramática normativa aplicada ao texto: é preciso verificar se a preposição exigida pelo verbo/nome foi usada corretamente e se o pronome relativo está bem empregado.
O texto-base fala sobre os limites do conhecimento científico e a relação do ser humano com o cosmos. No trecho final, lemos: "o misto de veneração e temor que sentimos quando confrontamos a imensidão do cosmos". Essa passagem é a chave: o autor diz que sentimos veneração e temor diante do cosmos — ou seja, somos tomados por esse sentimento. A alternativa A explora exatamente essa regência: "somos tomados por algo".
A técnica para resolver: identifique o verbo ou nome que rege a preposição e veja se o pronome relativo (ou o advérbio) está adequado. No caso de "por que", temos a preposição por (exigida por "tomados") + o pronome relativo que (retomando "sentimento"). Nas demais, há erros de regência ou de uso de "onde/aonde".
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura regência verbal com o uso de pronomes relativos e de "onde/aonde". A alternativa C, por exemplo, usa "das quais" com o verbo "curvar-se", que rege a preposição a (curvar-se a algo), não de. Já a E troca "onde" por "aonde" indevidamente.
Pronomes relativos e regência: "por que" (preposição + relativo) (Tomar por → "por que somos tomados"); "ao qual" (preposição a) (Responsável por, não "a" → "pelo qual"); "das quais" (preposição de) (Curvar-se a, não "de" → "às quais"); "de cujos" (posse) (Tratar de → "de que" ou "dos quais"); "aonde" (movimento) (Notar em lugar estático → "onde")
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A frase "Um misto de veneração e temor é o sentimento por que somos tomados frente ao cosmos" está correta. O verbo tomar (no sentido de "ser dominado por um sentimento") rege a preposição por: "somos tomados por um sentimento". O pronome relativo que retoma "sentimento", e a preposição por é exigida pela regência. A construção "por que" = preposição + pronome relativo, equivalente a "pelo qual". O texto sustenta essa ideia: "o misto de veneração e temor que sentimos quando confrontamos a imensidão do cosmos" — o sentimento é algo que nos toma, que nos domina.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"O emprego nocivo da ciência não é um efeito ao qual ela mesma seja responsável." O verbo ser responsável rege a preposição por (ser responsável por algo), não a. O correto seria "pelo qual ela mesma seja responsável". A alternativa troca a preposição, cometendo erro de regência. No texto, lemos: "Que a ciência seja usada tanto para o bem como para o mal não reflete a ciência em si, mas a precariedade da natureza humana" — ou seja, a ciência não é responsável pelo uso nocivo; a responsabilidade é da natureza humana. Mas a regência correta seria "responsável por".
Alternativa C — ❌ Incorreta
"As altas aspirações das quais nos curvamos podem nos levar a um estado de frustração." O verbo curvar-se rege a preposição a (curvar-se a algo), não de. O correto seria "às quais nos curvamos". A alternativa usa a preposição errada, caracterizando erro de regência. O texto menciona "aspiração coletiva" ("uma aspiração coletiva de crescermos como espécie"), mas não há relação de regência com "curvar-se".
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Os limites científicos de cujos trata o texto derivam do limite mesmo da nossa humanidade." A expressão "de cujos" está inadequada: o verbo tratar (no sentido de "abordar um assunto") rege a preposição de (tratar de algo), mas o pronome relativo cujos já traz a ideia de posse e não admite preposição antes dele quando o verbo é "tratar de". O correto seria "de que trata o texto" ou "dos quais trata o texto". A forma "de cujos" é um erro clássico de regência. O texto fala dos limites científicos, mas a construção está gramaticalmente incorreta.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"É na necessidade da plenitude do conhecimento aonde se nota toda a nossa arrogância." O advérbio aonde é usado com verbos que indicam movimento (ir, chegar), como em "aonde você vai?". Aqui, o verbo é notar (nota-se algo em algum lugar), que pede o advérbio onde (lugar estático). O correto seria "onde se nota". A alternativa troca "onde" por "aonde", erro clássico. O texto fala da "necessidade de ter algum controle sobre o tempo", mas a construção está inadequada.
Conclusão: a única frase em que o elemento sublinhado está plenamente adequado é a letra A, pois respeita a regência do verbo "tomar" (por) e usa corretamente o pronome relativo. As demais erram na preposição (B, C, D) ou no uso de "aonde" (E).
PEGA ESSA DICA!
Ao avaliar o emprego de pronomes relativos, pergunte: qual é a regência do verbo ou nome? Se o verbo pede "a", use "ao qual/à qual"; se pede "de", use "do qual/da qual"; se pede "por", use "pelo qual/pela qual". E lembre: onde para lugar estático, aonde para movimento.