A inveja é uma forma de contemplação ressentida pelo sucesso dos outros, imbuída do desejo último de possuí-lo. Sabe-se que ela nunca é geral, mas particular, direcionada a atributos específicos do próximo. O objeto da inveja é inatingível, mas, muitas vezes, causa no invejoso a ilusão do contrário, envolvendo-o em um eterno ciclo de busca. De maneira paradoxal, ela toma conta de todo o seu corpo, física e psiquicamente.
Sabe-se que a inveja é tão perniciosa que os invejosos estão dispostos a destituir os outros de seus benefícios, ainda que, para tanto, seja necessário que eles mesmos sofram uma perda, podendo, inclusive, pôr fim à existência daquilo que beneficia sua própria vida. Ela não segue a lógica da coerência ou do sentido. A inveja é irracional, incontrolável e autodestrutiva. Muitos de nós devem ter visto com os próprios olhos.
Das 14 figuras que representam o vicio e a virtude, pintadas por Giotto na capela Arena, em Pádua, a inveja é que desempenha o papel mais significativo. Na rigorosa geometria espacial de seu programa de afrescos, Giotto pintou a Inveja em frente e em oposição à alegoria da Caridade. O confronto é um choque entre dois mundos diametralmente opostos: um do egoísmo e avareza e outro da generosidade plena.
(Adaptado de:FIDELIS, Gaudêncio. Revista Cult. Acesso em: 06/02/2024)
A inveja é tão perniciosa que os invejosos estão dispostos a destituir os outros de seus benefícios.
O termo sublinhado no trecho acima expressa, no contexto em que se encontra, ideia de
Acausa.
Bconsequência.
Cfinalidade.
Dproporção.
Econdição.
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GabaritoB — consequência.
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Conjunção consecutiva: o valor de "tão... que" no trecho sobre a inveja
Gabarito: letra B. No trecho "A inveja é tão perniciosa que os invejosos estão dispostos a destituir os outros de seus benefícios", a estrutura "tão... que" é uma locução conjuntiva consecutiva, que expressa consequência. A oração "que os invejosos estão dispostos..." indica o efeito decorrente do grau elevado da perniciosidade da inveja, como se lê no 2º parágrafo do texto.
O comando: identificar a relação semântica do conectivo
A questão pede que se reconheça a ideia expressa pelo termo sublinhado — no caso, a locução "tão... que" — no contexto em que se encontra. Isso significa que não basta decorar a classificação da conjunção; é preciso analisar a relação lógica que ela estabelece entre as orações do período. O comando "expressa, no contexto, ideia de" aponta para uma questão de semântica dos conectivos, em que a resposta depende do efeito de sentido produzido na frase.
O texto: a tese sobre a inveja e o trecho decisivo
O texto disserta sobre a inveja, definindo-a como "uma forma de contemplação ressentida pelo sucesso dos outros" e destacando seu caráter irracional e autodestrutivo. No 2º parágrafo, o autor afirma que a inveja é tão perniciosa que os invejosos estão dispostos a se prejudicar para prejudicar o próximo. É exatamente nesse trecho que mora a resposta: a estrutura "tão... que" liga uma intensidade (tão perniciosa) a um efeito (os invejosos estão dispostos a destituir os outros).
"Sabe-se que a inveja é tão perniciosa que os invejosos estão dispostos a destituir os outros de seus benefícios, ainda que, para tanto, seja necessário que eles mesmos sofram uma perda"
A oração iniciada por "que" não explica por que a inveja é perniciosa (causa), nem indica para que os invejosos agem (finalidade), nem estabelece proporção ou condição. Ela apresenta o resultado de a inveja ser tão perniciosa: os invejosos agem de determinada forma. Isso é consequência.
A técnica: como reconhecer a oração consecutiva
A oração subordinada adverbial consecutiva expressa consequência, efeito ou resultado de um fato expresso na oração principal. Suas conjunções típicas são: "tão... que", "tanto... que", "tal... que", "de modo que", "de forma que". A presença de um intensificador (tão, tanto, tal) na oração principal é a pista clássica: ele marca o grau que desencadeia a consequência.
No trecho, "tão" intensifica o adjetivo "perniciosa", e "que" introduz a consequência desse grau elevado. A relação é de causa e efeito: a causa é a inveja ser muito perniciosa; o efeito é os invejosos estarem dispostos a destituir os outros. A banca explora exatamente essa distinção entre causa (o motivo que gera o fato) e consequência (o fato gerado pela causa).
O gancho: teste cada alternativa perguntando "o que o conectivo faz?"
Para resolver, pergunte: a oração "que os invejosos estão dispostos..." explica o motivo (causa), indica o objetivo (finalidade), estabelece uma relação de simultaneidade (proporção), impõe uma condição (condição) ou apresenta o resultado (consequência)? A resposta é consequência, pois a oração subordinada completa o sentido do intensificador "tão", revelando o efeito do grau máximo de perniciosidade.
Conjunções subordinativas adverbiais: Causais (porque, já que, visto que, respondem "por quê?"); Consecutivas (tão... que, tanto... que, tal... que, expressam efeito/resultado); Finais (para que, a fim de que, expressam objetivo); Proporcionais (à medida que, ao passo que, expressam simultaneidade); Condicionais (se, caso, desde que, expressam hipótese)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Causa. A oração causal responde "por quê?" e é introduzida por "porque", "já que", "visto que", "como". No trecho, a oração "que os invejosos estão dispostos..." não explica o motivo de a inveja ser perniciosa; ela mostra o resultado dessa perniciosidade. A causa seria: "A inveja é perniciosa porque os invejosos..." — mas não é isso que o texto diz. A alternativa inverte a relação de causa e efeito.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Consequência. A locução "tão... que" é a marca da oração subordinada adverbial consecutiva. O intensificador "tão" eleva o grau do adjetivo "perniciosa", e a oração iniciada por "que" apresenta o efeito desse grau: os invejosos estão dispostos a destituir os outros de seus benefícios. É a relação clássica de causa e consequência, em que a consequência é o fato expresso na oração subordinada.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Finalidade. A oração final expressa objetivo, propósito e é introduzida por "para que", "a fim de que", "porque" (com sentido de "para que"). No trecho, a oração "que os invejosos estão dispostos..." não indica a intenção de a inveja ser perniciosa; ela indica o resultado dessa perniciosidade. A finalidade seria: "A inveja é perniciosa para que os invejosos..." — o que não faz sentido no contexto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Proporção. A oração proporcional expressa simultaneidade, correspondência e é introduzida por "à medida que", "ao passo que", "quanto mais... mais". No trecho, não há uma relação de proporcionalidade entre dois fatos que variam juntos. A estrutura "tão... que" é típica de consecutiva, não de proporcional. A alternativa confunde a ideia de intensidade com a de proporção.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Condição. A oração condicional expressa hipótese, condição e é introduzida por "se", "caso", "desde que", "contanto que". No trecho, a oração "que os invejosos estão dispostos..." não impõe uma condição para a inveja ser perniciosa; ela apresenta o efeito dessa perniciosidade. A condição seria: "A inveja é perniciosa se os invejosos..." — o que não é o sentido do texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre causa e consequência. A estrutura "tão... que" é a pista decisiva: o intensificador "tão" marca o grau que gera o efeito. Se a oração subordinada completa o sentido do intensificador, é consecutiva; se responde "por quê?", é causal.
PEGA ESSA DICA!
Ao encontrar "tão/tanto/tal + que", desconfie imediatamente de consecutiva. Teste substituindo por "de modo que" ou "de tal forma que": se a frase mantiver o sentido, é consequência.