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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — FCC 2024

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
fc146811
Banca
FCC
Órgão
CETESB
Ano
2024
Cargo
Tec Adm ( )

Essa crônica é uma despedida. Resolvi, por decisão própria, parar de escrever em Cotidiano [caderno do jornal FSP].

 

Devo ter perdido o juízo. Minha decisão contrária um dos dois maiores sonhos de cada escritor. Primeiro, o sonho de ser um best-seller. Confesso: sou vítima dessa vaidade. O outro sonho dos escritores é ter seus textos publicados num jornal importante. O que significa reconhecimento duplo: do jornal que os publica e dos leitores. Todo escritor tem uma pitada de narcisismo.

 

Fernando Pessoa tem um poema que diz assim: "tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, tenho dó delas..." e Ele se pergunta se " não haverá um cansaço das coisas, de todas as coisas..." Respondo: sim. Há um cansaço. A velhice é o tempo do cansaço de todas as coisas. Estou velho. Estou cansado. Já escrevi muito. Mas, agora , meus 78 anos estão pesando. E, como acontece com as estrelas, há sempre a obrigação de brilhar. A obrigação : é isso o que pesa. Perco o sono atormentado por deveres, pensando no que tenho de escrever. Sinto - pode ser que não seja assim, mas é assim que eu sinto - que já disse tudo. Não tenho novidades a escrever. Mas tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever.

 

O tempo dos jornais é o hoje, as presenças. Mas minha alma é movida pelas ausências: nos jornais, não há lugar para ressureições.

 

(Adaptado de: ALVES, Rubem. "Despedida". Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 01/02/2024)

Depreende-se que o autor do texto pretende deixar de escrever uma coluna de jornal porque.
  1. Aa maturidade intelectual o fez superar o narcisismo que o motivava a escrever para um jornal importante.
  2. Bos novos formatos de divulgação de notícias causaram desinteresse pelas crônicas diárias.
  3. Ca competitividade típica dos dias atuais bloqueou seu potencial criativo.
  4. Da obrigação inerente a esse oficio tornou-se para ele um fardo pesado.
  5. Eo desejo que tem de dedicar-se à literatura erudita é tolhido pelo tempo gasto na escrita da coluna.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — a obrigação inerente a esse oficio tornou-se para ele um fardo pesado.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A despedida do cronista: o peso da obrigação

Gabarito: letra D. O autor deixa de escrever a coluna porque a obrigação inerente ao ofício — escrever mesmo sem vontade — tornou-se um fardo pesado. Essa leitura é autorizada diretamente pelo texto, no trecho em que ele afirma: "A obrigação: é isso o que pesa" e "tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever". As demais alternativas extrapolam o texto, acrescentando motivos que não estão nele.

O comando pede que se depreenda (inferência) o motivo da despedida. Diferente de uma questão de compreensão literal, aqui é preciso conectar as pistas que o autor espalha: ele está velho, cansado, sente que já disse tudo, mas ainda tem o dever de escrever. A resposta não está numa frase isolada, mas na síntese dessas ideias — e a alternativa D é a única que capta essa síntese sem inventar nada.

O texto é uma crônica de despedida. O autor, Rubem Alves, anuncia que vai parar de escrever no caderno Cotidiano. Ele confessa vaidades (ser best-seller, ter texto em jornal importante), mas o núcleo da justificativa está no terceiro parágrafo: a velhice, o cansaço e, sobretudo, a obrigação de brilhar que pesa. A metáfora das estrelas — "há sempre a obrigação de brilhar" — é a chave: o que pesa não é escrever, é a obrigação de escrever.

A técnica para resolver: teste cada alternativa perguntando: o texto autoriza isto, ou exige acrescentar algo de fora? A correta é a única que se sustenta inteiramente no que está escrito; as erradas, cada uma a seu modo, extrapolam — trazem um motivo que o autor não menciona. Vejamos uma a uma.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a maturidade intelectual o fez superar o narcisismo. O texto, porém, não diz isso. O autor confessa a vaidade: "Confesso: sou vítima dessa vaidade" — e não há nenhuma passagem indicando que ele a tenha superado. A alternativa extrapola: inventa uma evolução psicológica que o texto não sustenta.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa fala em novos formatos de divulgação e desinteresse pelas crônicas. Nada disso aparece no texto. O autor não menciona internet, redes sociais, concorrência digital ou qualquer mudança no mercado de notícias. É uma extrapolação com base em conhecimento de mundo — o texto não autoriza.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa atribui a despedida à competitividade típica dos dias atuais que teria bloqueado seu potencial criativo. O texto não fala em competitividade nem em bloqueio criativo. O autor diz que "já disse tudo" e que não tem "novidades a escrever", mas isso é cansaço e esgotamento pessoal, não um bloqueio causado por concorrência. Extrapolação.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa sintetiza com precisão o motivo central: a obrigação inerente ao ofício tornou-se um fardo pesado. O texto é explícito:

"A obrigação: é isso o que pesa."

E complementa:

"tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever."

O autor não diz que perdeu o prazer de escrever ou que não gosta mais do jornal; diz que o dever de escrever, imposto pela rotina da coluna, é o que o oprime. É exatamente o que a alternativa D afirma.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa fala em desejo de dedicar-se à literatura erudita tolhido pelo tempo da coluna. O texto não menciona literatura erudita, nem qualquer projeto literário paralelo. O autor fala de cansaço e de já ter dito tudo, não de um desejo de escrever outra coisa. Extrapolação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece motivos plausíveis (narcisismo, formatos novos, competitividade, literatura erudita) que não estão no texto. A correta é a única que sintetiza as pistas explícitas.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, desconfie de alternativas que soam verdadeiras no mundo real, mas que o texto não menciona. Pergunte sempre: "onde o texto autoriza isto?"

Gabarito: letra D.

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