Essa crônica é uma despedida. Resolvi, por decisão própria, parar de escrever em Cotidiano [caderno do jornal FSP].
Devo ter perdido o juízo. Minha decisão contrária um dos dois maiores sonhos de cada escritor. Primeiro, o sonho de ser um best-seller. Confesso: sou vítima dessa vaidade. O outro sonho dos escritores é ter seus textos publicados num jornal importante. O que significa reconhecimento duplo: do jornal que os publica e dos leitores. Todo escritor tem uma pitada de narcisismo.
Fernando Pessoa tem um poema que diz assim: "tenho dó das estrelas luzindo há tanto tempo, tenho dó delas..." e Ele se pergunta se " não haverá um cansaço das coisas, de todas as coisas..." Respondo: sim. Há um cansaço. A velhice é o tempo do cansaço de todas as coisas. Estou velho. Estou cansado. Já escrevi muito. Mas, agora , meus 78 anos estão pesando. E, como acontece com as estrelas, há sempre a obrigação de brilhar. A obrigação : é isso o que pesa. Perco o sono atormentado por deveres, pensando no que tenho de escrever. Sinto - pode ser que não seja assim, mas é assim que eu sinto - que já disse tudo. Não tenho novidades a escrever. Mas tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever.
O tempo dos jornais é o hoje, as presenças. Mas minha alma é movida pelas ausências: nos jornais, não há lugar para ressureições.
Mas tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever.
O termo sublinhado expressa, no contexto em que se encontra, uma
Aadvertência.
Bcondição.
Cconcessão.
Dhipótese.
Ereiteração.
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GabaritoC — concessão.
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O valor concessivo de "quando" no contexto
Gabarito: letra C. No trecho "Mas tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever", a conjunção "quando" não marca tempo, mas sim concessão: expressa um fato que se admite (a vontade de não escrever) sem que ele impeça a ação principal (a obrigação de escrever). A pista está na oposição entre "obrigação" e "vontade" — o autor escreve apesar de não querer, não no momento em que não quer.
"Mas tenho a obrigação de escrever quando minha vontade é não escrever."
Aqui, "quando" equivale a "embora", "ainda que" ou "mesmo que": a vontade contrária é uma ressalva, não uma condição. A banca cobra exatamente isso: o valor semântico da conjunção no contexto, não o valor temporal básico que ela costuma ter.
O comando
A questão pede que se identifique o que o termo sublinhado expressa no contexto. Isso é uma questão de interpretação de sentido contextual — não se resolve decorando a lista de conjunções, mas analisando a relação lógica que a conjunção estabelece entre as orações. O verbo "expressa" indica que se busca o valor semântico (a ideia veiculada), e não a classe gramatical.
O texto e o movimento argumentativo
A crônica é uma despedida: o autor, cansado e velho, decide parar de escrever. No trecho em questão, ele confessa um conflito: sente a obrigação de escrever, mas sua vontade é não escrever. A conjunção "quando" liga essas duas ideias opostas. Se fosse temporal, diria "no momento em que minha vontade é não escrever" — o que seria estranho, pois a vontade não é um evento pontual. Se fosse condicional, diria "se minha vontade for não escrever" — mas a vontade já é um fato presente. O que o autor quer dizer é: mesmo tendo vontade de não escrever, tenho a obrigação de escrever. Essa é a essência da concessão: admitir um obstáculo sem que ele anule a ação.
A técnica que decide
Para distinguir concessão de condição, faça o teste da substituição: troque a conjunção por "embora" (concessão) ou por "se" (condição). Veja:
"Tenho a obrigação de escrever embora minha vontade seja não escrever" → faz sentido, é concessão.
"Tenho a obrigação de escrever se minha vontade for não escrever" → não faz sentido, pois a obrigação não depende da vontade.
Além disso, na concessão o fato da oração subordinada é real (a vontade de não escrever existe), enquanto na condição ele é hipotético ("se minha vontade for..."). No texto, a vontade é um fato presente: "minha vontade é não escrever". Isso reforça a concessão.
As alternativas
Valor de "quando" no contexto: Concessão (gabarito) (Equivale a "embora"/"ainda que", Fato real que não impede a ação, Teste: substituir por "embora" → faz sentido); Condição (distrator) (Equivale a "se", Fato hipotético, Teste: substituir por "se" → não faz sentido); Temporal (valor básico) (Equivale a "no momento em que", Não cabe no contexto)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Advertência seria um aviso, uma chamada de atenção para um perigo ou consequência. No trecho, não há nenhum tom de alerta; o autor apenas constata um conflito interno. A conjunção não introduz um aviso, mas uma ressalva. A alternativa tangencia o sentido, pois confunde o tom geral do texto (que é de desabafo) com uma função que não está presente.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Condição seria expressa por "se", "caso", "desde que", etc., e indicaria uma hipótese necessária para a ocorrência do fato principal. No trecho, a vontade de não escrever não é condição para a obrigação de escrever; pelo contrário, é um obstáculo que não impede a obrigação. A banca arma aqui: o candidato vê "quando" e pensa em tempo, mas a alternativa B oferece "condição", que é o valor mais próximo de "se" — e muitos marcam por associação automática. Mas o teste da substituição mostra que "se" não cabe: "tenho a obrigação de escrever se minha vontade for não escrever" não faz sentido lógico. A alternativa contradiz a relação real entre as orações.
Alternativa C — ✅ Correta
Concessão é a relação em que se admite um fato contrário, mas ele não impede a ação principal. É exatamente o que ocorre: "tenho a obrigação de escrever quando (= embora) minha vontade é não escrever". A vontade contrária é uma ressalva, não uma condição. O autor escreve apesar de não querer. A substituição por "embora" confirma: "tenho a obrigação de escrever embora minha vontade seja não escrever". A alternativa está inteiramente sustentada pelo texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Hipótese é uma suposição, algo que pode ou não ocorrer. No trecho, a vontade de não escrever é um fato presente ("minha vontade é não escrever"), não uma possibilidade. A conjunção "quando" aqui não introduz uma situação hipotética, mas uma circunstância real que se admite. A alternativa extrapola ao tratar como suposição o que o texto apresenta como realidade.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Reiteração seria a repetição de uma ideia já expressa. O trecho não repete nada; ele apresenta uma nova informação (a vontade contrária) que se opõe à obrigação. A conjunção não tem função de repetir, mas de estabelecer uma relação de oposição/reserva. A alternativa foge ao tema, pois não corresponde a nenhum valor conjuncional.
Conclusão
A questão ensina que conjunções têm valor contextual: "quando" pode ser temporal, condicional ou concessivo, dependendo da relação lógica entre as orações. O teste da substituição ("embora" vs. "se") é a ferramenta decisiva. Gabarito: letra C.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora o valor atípico de "quando" (concessivo em vez de temporal), levando o candidato a marcar "condição" ou "hipótese" por associação automática com "se".
PEGA ESSA DICA!
Ao encontrar uma conjunção, pergunte: "que relação lógica existe entre as orações?" e teste a substituição por conjunções típicas (embora, se, quando, porque). Isso resolve a maioria das questões de valor semântico.