Questão de Medicina — Neurologia — FGV 2025
- Código
- fg115221
- Banca
- FGV
- Órgão
- MPU
- Ano
- 2025
- Nível
- Superior
- Cargo
- Analista do - Clínica Médica
- Acampylobacter jejuni;
- BHIV;
- Ccitomegalovírus;
- Dvírus Epstein Barr;
- Evírus influenza A e B.
GabaritoA — campylobacter jejuni;
Gabarito: letra A. O microrganismo mais frequentemente associado às infecções que precedem a síndrome de Guillain-Barré (SGB) é o Campylobacter jejuni, uma bactéria gram-negativa causadora de gastroenterite aguda. Essa associação é clássica e amplamente descrita na literatura médica, sendo o C. jejuni responsável por cerca de 20% a 40% dos casos de SGB, muito à frente dos demais agentes listados.
A SGB é uma polirradiculoneuropatia desmielinizante inflamatória aguda, de caráter autoimune, que acomete preferencialmente a mielina dos nervos periféricos, especialmente na porção proximal (raízes nervosas). O quadro clínico típico é de fraqueza muscular ascendente, arreflexia e alterações sensitivas, frequentemente precedido por um evento infeccioso ou vacinal. O mecanismo fisiopatológico envolve mimetismo molecular: antígenos do agente infeccioso (como lipopolissacarídeos do C. jejuni) desencadeiam resposta imune cruzada contra gangliosídeos da membrana do nervo periférico, como GM1, GD1a e GQ1b. Essa reação cruzada é a base da doença e explica por que infecções bacterianas e virais são gatilhos tão importantes.
Aproximadamente 60% a 70% dos pacientes relatam uma doença aguda nas 1 a 4 semanas que antecedem o início dos sintomas neurológicos. Entre os agentes mais comuns estão, além do C. jejuni, o citomegalovírus (CMV), o vírus Epstein-Barr (EBV), o Mycoplasma pneumoniae, o HIV e, mais recentemente, o vírus Zika. No entanto, o C. jejuni é, de longe, o mais frequente, sendo identificado em cerca de um terço dos casos. Essa prevalência elevada se deve à alta incidência de infecções por essa bactéria na população e à sua forte capacidade de induzir mimetismo molecular com os gangliosídeos.
A distinção entre os agentes é relevante não apenas para o diagnóstico etiológico, mas também para o prognóstico: infecção prévia por C. jejuni associa-se a formas mais graves da SGB, com maior acometimento axonal (variantes como AMAN — neuropatia axonal motora aguda) e pior recuperação. Já infecções por CMV e EBV tendem a cursar com a forma desmielinizante clássica (AIDP), de melhor prognóstico. O HIV pode estar associado tanto a formas desmielinizantes quanto axonais, e o vírus influenza é um gatilho menos frequente, embora tenha sido relatado em associação com a SGB, especialmente em contextos de vacinação (embora o risco seja muito baixo).
A banca explora aqui um conhecimento essencial de neurologia clínica: a associação entre SGB e Campylobacter jejuni. O candidato que memoriza apenas os agentes virais (CMV, EBV, influenza) pode ser induzido a erro, pois eles também são gatilhos reconhecidos, mas não os mais frequentes. A palavra-chave da questão é "mais frequente", que direciona inequivocamente para o C. jejuni. Além disso, é importante lembrar que a SGB é uma doença autoimune, e o gatilho infeccioso é um dos pilares do entendimento fisiopatológico, sendo cobrado com frequência em provas de residência e concursos.
Guarde a hierarquia dos gatilhos: C. jejuni > CMV > EBV > Mycoplasma > HIV > Zika. Essa ordem é o critério que separa as alternativas e é exatamente o que a questão testa.
Agente Infeccioso | Frequência na SGB | Mecanismo/Forma Clínica Associada |
|---|---|---|
Campylobacter jejuni | Mais frequente (20%–40% dos casos) | Mimetismo molecular com gangliosídeos (GM1, GD1a); associado a formas axonais (AMAN) e pior prognóstico |
Citomegalovírus (CMV) | 10%–15% dos casos | Associado à forma desmielinizante clássica (AIDP), com maior envolvimento de nervos cranianos e disautonomia |
Vírus Epstein-Barr (EBV) | 5%–10% dos casos | Precede a SGB, geralmente após mononucleose infecciosa |
HIV | Menos frequente | Pode ocorrer na soroconversão ou em qualquer fase; associado a formas desmielinizantes e axonais |
Vírus influenza A e B | Menos frequente | Gatilho raro; risco muito baixo associado à vacinação |
O Campylobacter jejuni é o agente infeccioso mais frequentemente associado à SGB. Estudos mostram que cerca de 20% a 40% dos pacientes com SGB têm evidência sorológica ou coprocultura positiva para essa bactéria, que causa gastroenterite aguda. O mecanismo é o mimetismo molecular entre os lipopolissacarídeos da parede bacteriana e os gangliosídeos GM1 e GD1a dos nervos periféricos, desencadeando a resposta autoimune. Essa associação é tão forte que a presença de anticorpos anti-GM1 é mais comum em pacientes com infecção prévia por C. jejuni.
O HIV é um gatilho reconhecido da SGB, especialmente em fases iniciais da infecção ou na soroconversão, mas não é o mais frequente. A SGB associada ao HIV pode ocorrer em qualquer fase da doença, mas sua prevalência é muito menor que a do C. jejuni. Além disso, o HIV também pode causar outras neuropatias periféricas, como a polineuropatia distal simétrica, o que pode confundir o diagnóstico. A banca inclui o HIV como distrator por ser uma infecção viral comum e associada a várias manifestações neurológicas, mas não é o principal gatilho da SGB.
O citomegalovírus (CMV) é um dos gatilhos virais mais comuns da SGB, sendo responsável por cerca de 10% a 15% dos casos. No entanto, fica atrás do C. jejuni em frequência. A infecção por CMV costuma preceder a forma desmielinizante clássica (AIDP) e está associada a um perfil clínico com maior envolvimento de nervos cranianos e disautonomia. Apesar de ser um agente importante, não é o mais frequente, o que torna a alternativa incorreta.
O vírus Epstein-Barr (EBV) também é um gatilho reconhecido, responsável por cerca de 5% a 10% dos casos de SGB. A mononucleose infecciosa, causada pelo EBV, pode preceder o quadro neurológico. No entanto, sua frequência é menor que a do C. jejuni e do CMV. A banca o inclui como distrator por ser um vírus comum e associado a manifestações autoimunes, mas não é o mais frequente.
O vírus influenza A e B é um gatilho menos frequente da SGB. Embora haja relatos de SGB após infecção por influenza e, historicamente, após vacinação contra influenza (com risco muito baixo), a associação é bem menos comum que com C. jejuni. Estudos mostram que a infecção por influenza pode preceder a SGB em uma pequena parcela dos casos, mas não é o agente mais frequente. A alternativa tenta explorar a associação com vacinas, mas o enunciado fala em "infecções que precedem", e mesmo assim o influenza não lidera.
Gabarito: letra A — o Campylobacter jejuni é o microrganismo mais frequente nas infecções que precedem a síndrome de Guillain-Barré.
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