Questão de Medicina — Neurologia — FGV 2025
- Código
- fg115227
- Banca
- FGV
- Órgão
- MPU
- Ano
- 2025
- Nível
- Superior
- Cargo
- Analista do - Clínica Médica
- AI, apenas;
- BI e II, apenas;
- CI e III, apenas;
- DII e III, apenas;
- EI, II e III.
GabaritoC — I e III, apenas;
Gabarito: letra C — corretos os itens I e III. O item II está incorreto porque o delirium, embora se desenvolva em curto período e represente alteração da atenção e consciência basais, tem curso flutuante durante o dia, e não linear. Os critérios diagnósticos seguem o DSM-5, que exige distúrbio de atenção/consciência, início agudo, flutuação, distúrbio cognitivo adicional e exclusão de transtorno neurocognitivo preexistente ou coma.
O delirium é uma síndrome neuropsiquiátrica aguda e flutuante, caracterizada por perturbação da atenção e da consciência, acompanhada de alterações cognitivas que se desenvolvem em horas a dias. É uma emergência médica, frequentemente precipitada por doença clínica, intoxicação ou abstinência de substâncias, e está associado a pior prognóstico, maior mortalidade e maior tempo de internação. A demência, por outro lado, é um declínio cognitivo crônico e progressivo, que compromete domínios específicos sem o componente central de flutuação da atenção.
O diagnóstico diferencial entre delirium e demência é um desafio clínico, especialmente em idosos hospitalizados. A chave está na temporalidade e no padrão de comprometimento: o delirium tem início abrupto, curso flutuante e afeta primariamente a atenção; a demência tem início insidioso, curso progressivo e compromete múltiplos domínios cognitivos de forma mais estável. O Confusion Assessment Method (CAM) é a ferramenta validada para rastreio, exigindo início agudo, curso flutuante, desatenção e pensamento desorganizado ou alteração do nível de consciência.
Os critérios do DSM-5 para delirium são o referencial diagnóstico. Eles exigem: (1) distúrbio de atenção e consciência; (2) desenvolvimento em curto período, representando mudança do estado basal, com tendência a flutuar durante o dia; (3) distúrbio cognitivo adicional (memória, orientação, linguagem, habilidade visuoespacial ou percepção); (4) alterações não mais bem explicadas por transtorno neurocognitivo preexistente e não ocorrendo em contexto de coma; e (5) evidência de causa orgânica. O item II erra ao afirmar que a intensidade é linear, quando o DSM-5 e a prática clínica enfatizam a flutuação como marca registrada.
A pegadinha da banca está na palavra "linear" no item II. O candidato que memoriza os critérios de forma superficial pode aceitar a afirmação, mas o termo correto é "flutuante". Essa flutuação é tão característica que o CAM a inclui como critério essencial, e a literatura destaca que o diagnóstico pode não ser realizado em uma primeira avaliação justamente por causa dela. Guarde a fronteira entre início agudo + flutuação (delirium) e início insidioso + progressão (demência): é exatamente nela que os itens se dividem.
Critério | Delirium | Demência |
|---|---|---|
Início | Agudo (horas a dias) | Insidioso (meses a anos) |
Curso | Flutuante durante o dia | Progressivo e estável |
Atenção | Comprometimento central | Preservada nas fases iniciais |
Consciência | Alterada | Normal até fases avançadas |
Causa | Orgânica (clínica, intoxicação, abstinência) | Neurodegenerativa ou vascular |
Reversibilidade | Potencialmente reversível | Irreversível (na maioria) |
O item I afirma que o delirium cursa com outros distúrbios da cognição, como memória, desorientação, linguagem, capacidade visual e espacial ou percepção. Isso está correto e é um dos critérios do DSM-5: além do distúrbio de atenção, há um distúrbio adicional na cognição. O delirium afeta secundariamente todas as funções cognitivas que dependem da atenção, incluindo memória, linguagem e percepção, podendo haver alucinações e ilusões, especialmente na forma hiperativa.
O item II está incorreto na parte final: o distúrbio não ocorre de forma linear em intensidade durante o dia, mas sim de forma flutuante. O início agudo e a alteração relativa à atenção e consciência basais estão corretos, mas a flutuação é a característica central — o paciente pode apresentar períodos de lucidez intercalados com piora, e essa variação é um dos pilares do diagnóstico pelo CAM e pelo DSM-5.
O item III está correto: os distúrbios não são mais bem explicados por outro transtorno neurocognitivo preexistente, estabelecido ou em evolução, e não ocorrem no contexto de coma. Isso corresponde ao critério D do DSM-5. O delirium pode ocorrer sobreposto à demência, mas, nesse caso, a alteração aguda da atenção não é explicada apenas pelo quadro demencial crônico. A exclusão do coma é essencial, pois o coma representa nível de consciência gravemente reduzido, no qual não se avalia a atenção.
Conclusão: corretos os itens I e III → portanto, a alternativa é a letra C.
Gabarito: letra C
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