Questão de Medicina — Ginecologia e Obstetrícia — FGV 2025
Medicina›Ginecologia e Obstetrícia
Código
fg115435
Banca
FGV
Órgão
MPU
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Analista do - Ginecologia
Ao realizar a ultrassonografia morfológica de 1º trimestre, é constatado que essa paciente tem alto risco de desenvolver préeclâmpsia ao longo da gestação.Diante dessa situação, a melhor orientação para ela é:
Arestringir a ingesta de sódio;
Bfazer repouso domiciliar no leito;
Ccomeçar o uso de metildopa;
Dprogramar o parto com 37 semanas de gestação;
Ecomeçar a usar AAS antes da 16ª semana de gestação.
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GabaritoE — começar a usar AAS antes da 16ª semana de gestação.
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Prevenção de pré-eclâmpsia: o papel do AAS na gestação de alto risco
Gabarito: letra E. Na gestante identificada como de alto risco para pré-eclâmpsia na ultrassonografia morfológica de 1º trimestre, a conduta preventiva comprovadamente eficaz é o início precoce de ácido acetilsalicílico (AAS) em baixa dose antes da 16ª semana, conforme recomendação das principais diretrizes obstétricas (ACOG, ISSHP, FEBRASGO). As demais alternativas — restrição de sódio, repouso no leito, metildopa e parto programado com 37 semanas — não são medidas preventivas de primeira linha para reduzir a incidência da doença.
A pré-eclâmpsia é uma síndrome hipertensiva específica da gestação, caracterizada por hipertensão arterial e proteinúria (ou disfunção orgânica) após a 20ª semana, com fisiopatologia centrada na disfunção placentária e no desequilíbrio entre fatores angiogênicos e antiangiogênicos. Acredita-se que o desenvolvimento anormal da vasculatura placentária no início da gravidez leve à hipoperfusão, liberando fatores como a sFlt-1 (tirosinoquinase solúvel tipo 1) e a endoglina solúvel (sENG), que antagonizam o VEGF e o PIGF, causando disfunção endotelial sistêmica — o que explica hipertensão, proteinúria e as demais manifestações. É justamente nesse cenário que o AAS em baixa dose atua: ele inibe a síntese de tromboxano A2 (pró-agregante e vasoconstritor) sem bloquear a prostaciclina (antiagregante e vasodilatadora), restaurando parcialmente o equilíbrio e reduzindo o risco de desenvolvimento da doença.
A prevenção farmacológica é indicada para gestantes com um fator de alto risco ou dois fatores de risco moderado. Entre os fatores de alto risco estão: diabetes tipos 1 e 2, hipertensão arterial crônica, história pessoal de pré-eclâmpsia em gestação anterior, obesidade, doença renal crônica, reprodução assistida, doenças autoimunes e gestação múltipla. Já os fatores de risco moderado incluem: descolamento prematuro de placenta em gestação anterior, natimorto em gestação anterior, idade materna maior que 40 anos e feto com crescimento intrauterino restrito em gestação anterior. A ultrassonografia morfológica de 1º trimestre, ao avaliar o Doppler das artérias uterinas e outros marcadores, contribui para a estratificação de risco, permitindo a identificação precoce dessas pacientes.
O AAS deve ser iniciado preferencialmente entre 12 e 16 semanas de gestação, e no máximo até 28 semanas em casos específicos, na dose de 100 mg via oral à noite (algumas literaturas indicam 150 mg, mas essa apresentação não está disponível no mercado nacional). O tratamento é mantido até 36 semanas, quando é descontinuado. Além do AAS, recomenda-se o carbonato de cálcio na dose de 1,5 g/dia, especialmente em populações com carência de cálcio, como a brasileira. É importante destacar que o AAS é uma medida preventiva, não terapêutica: uma vez estabelecido o diagnóstico de pré-eclâmpsia, o tratamento definitivo é o parto, e o AAS deve ser suspenso.
A pegadinha central desta questão está em confundir prevenção com tratamento. A metildopa é um anti-hipertensivo usado no tratamento da hipertensão na gestação, não na prevenção da pré-eclâmpsia. O parto programado com 37 semanas é uma conduta para casos já diagnosticados com pré-eclâmpsia, quando há indicação de interrupção da gestação, e não uma medida preventiva. A restrição de sódio e o repouso no leito, embora historicamente recomendados, não têm evidência científica para prevenir a pré-eclâmpsia e não são mais indicados pelas diretrizes atuais. Guarde essa distinção: prevenir = AAS + cálcio; tratar = anti-hipertensivos + MgSO4 + parto.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A restrição de sódio não previne a pré-eclâmpsia. Embora seja uma medida razoável para controle da hipertensão arterial crônica, não há evidência de que reduza a incidência da doença em gestantes de alto risco. As diretrizes atuais não recomendam essa medida como prevenção primária.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O repouso domiciliar no leito não é recomendado para prevenção da pré-eclâmpsia. Estudos não demonstraram benefício e a imobilização pode aumentar o risco de tromboembolismo venoso. A recomendação atual é manter atividade física habitual, salvo contraindicações obstétricas específicas.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A metildopa é um anti-hipertensivo de escolha para tratamento da hipertensão arterial na gestação, mas não tem papel na prevenção da pré-eclâmpsia. Seu uso é reservado para gestantes que já apresentam hipertensão, não para aquelas com risco aumentado de desenvolver a doença.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Programar o parto com 37 semanas é uma conduta para casos de pré-eclâmpsia já estabelecida, quando há indicação de interrupção da gestação para evitar complicações maternas e fetais. Não é uma medida preventiva e não se aplica a uma gestante assintomática, apenas com alto risco.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O AAS em baixa dose (100 mg/dia) iniciado antes da 16ª semana é a medida preventiva de primeira linha para gestantes de alto risco. O início precoce é crucial porque a placentação anormal ocorre no primeiro trimestre, e a ação antiagregante do AAS precisa estar presente antes que o processo fisiopatológico se estabeleça. O tratamento é mantido até 36 semanas.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de pré-eclâmpsia, memorize o tripé preventivo: AAS 100 mg à noite (12–16 semanas até 36 semanas) + Cálcio 1,5 g/dia. E diferencie: prevenção (AAS/cálcio) × tratamento da crise hipertensiva (nifedipina/hidralazina) × profilaxia de convulsão (MgSO4) × cura (parto).