Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — FGV 2025
Medicina›Pediatria e Neonatologia
Código
fg115477
Banca
FGV
Órgão
MPU
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Analista do - Junta Médica em Psiquiatria
João, um menino de 7 anos, é levado à consulta pelos pais devido a episódios recorrentes de manchas de fezes na roupa íntima, que ocorrem tanto durante o dia quanto à noite, há aproximadamente três meses. Segundo os pais, apesar de estar completamente treinado para o uso do banheiro, João apresenta dificuldade para evacuar, principalmente porque reclama de dor durante os movimentos intestinais. Há um histórico de constipação crônica, caracterizada por fezes duras e de diâmetro aumentado, o que tem levado o menino a reter o desejo de defecar para evitar o desconforto. No exame físico, durante a palpação abdominal, identifica-se massa bem delimitada no quadrante inferior, associada a sensibilidade aumentada na região periumbilical, sugerindo acúmulo de fezes impactadas. O exame digital do reto confirma a presença de fezes endurecidas com preservação do tônus do esfíncter anal, sem sinais de anormalidades estruturais. O exame neurológico está normal.Com base na história e nos achados do exame físico, o diagnóstico mais provável é:
Aencoprese retentiva;
Bencoprese não retentiva;
Cdoença de Hirschsprung;
Dsíndrome do intestino irritável;
Econstipação funcional sem incontinência fecal.
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GabaritoA — encoprese retentiva;
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Encoprese retentiva: diagnóstico diferencial na criança
Gabarito: letra A. O quadro de João — criança de 7 anos, já treinada para o uso do banheiro, com perda involuntária de fezes (dia e noite), constipação crônica com fezes endurecidas e de diâmetro aumentado, dor à evacuação, massa fecal palpável no abdome e fezes impactadas ao toque retal com tônus esfincteriano preservado — é a apresentação clássica da encoprese retentiva, que ocorre quando a retenção fecal crônica leva ao transbordamento (soiling) e à incontinência. O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história e no exame físico, conforme os critérios de Roma IV para distúrbios funcionais da defecação.
A encoprese é a eliminação repetida de fezes em locais inapropriados, de forma involuntária ou intencional, em criança com idade em que já se espera o controle esfincteriano (geralmente acima de 4 anos). A forma retentiva é a mais comum (cerca de 80% dos casos) e está diretamente ligada à constipação funcional: a criança retém as fezes para evitar a dor da evacuação, o cólon distende, e as fezes líquidas ou pastosas "vazam" ao redor do fecaloma, sujando a roupa íntima — o chamado soiling ou transbordamento. Esse mecanismo explica por que a perda ocorre tanto de dia quanto à noite, como no caso de João.
O diagnóstico diferencial é o ponto central da questão. A encoprese não retentiva (alternativa B) ocorre sem constipação prévia: a criança evacua em locais inapropriados sem retenção fecal, muitas vezes por questões comportamentais ou emocionais. A doença de Hirschsprung (alternativa C) é uma causa orgânica de constipação por aganglionose congênita, mas se manifesta tipicamente desde o período neonatal (retardo na eliminação de mecônio, distensão abdominal, enterocolite) e, ao toque retal, a ampola está vazia — ao contrário do caso, que mostra fezes impactadas. A síndrome do intestino irritável (alternativa D) cursa com dor abdominal e alteração do hábito intestinal (diarreia e/ou constipação), mas não é o diagnóstico principal em criança com encoprese e fecaloma. A constipação funcional sem incontinência fecal (alternativa E) é o diagnóstico quando há constipação, mas sem a perda involuntária de fezes — o que não se aplica a João, que tem incontinência.
O exame físico é decisivo: a palpação abdominal revela massa no quadrante inferior (fecaloma), e o toque retal confirma fezes endurecidas na ampola com tônus esfincteriano preservado — achados que afastam a doença de Hirschsprung (ampola vazia) e confirmam a impactação fecal. O exame neurológico normal exclui causas neurogênicas. A presença de dor à evacuação e a retenção voluntária para evitar o desconforto são o gatilho clássico da encoprese retentiva.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre encoprese retentiva e não retentiva. A chave é a presença de constipação com impactação fecal: se há fecaloma e transbordamento, é retentiva; se a criança evacua em locais inapropriados sem constipação, é não retentiva. No caso, a massa fecal e as fezes endurecidas ao toque retal fecham o diagnóstico de retentiva. Outra armadilha é a doença de Hirschsprung: a ampola vazia ao toque é o sinal que a afasta — aqui, a ampola está cheia de fezes.
Encoprese
1Retentiva (80% dos casos)
Constipação + fecaloma
Transbordamento (soiling)
Dia e noite
2Não retentiva
Sem constipação
Sem impactação fecal
Causa comportamental/emocional
3Diagnóstico diferencial
Doença de Hirschsprung
Aganglionose congênita
Desde o neonatal
Ampola retal vazia
Intestino irritável
Dor abdominal recorrente
Hábito intestinal alterado
Constipação sem incontinência
Sem perda involuntária
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A encoprese retentiva é o diagnóstico correto. João apresenta todos os elementos: constipação crônica com fezes duras e calibrosas, dor à evacuação, retenção voluntária para evitar o desconforto, massa fecal palpável no abdome e fezes impactadas ao toque retal. A perda involuntária de fezes (dia e noite) é o transbordamento ao redor do fecaloma, mecanismo típico da forma retentiva.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A encoprese não retentiva ocorre sem constipação prévia e sem impactação fecal. A criança evacua em locais inapropriados de forma voluntária ou por questões emocionais, sem o mecanismo de retenção e transbordamento. O caso de João tem constipação evidente e fecaloma, o que afasta essa alternativa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A doença de Hirschsprung é uma causa orgânica de constipação por aganglionose congênita, mas com apresentação típica desde o período neonatal (retardo na eliminação de mecônio, distensão abdominal, enterocolite). Ao toque retal, a ampola está vazia — sinal clássico que a distingue da constipação funcional. No caso, a ampola está cheia de fezes endurecidas, afastando o diagnóstico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A síndrome do intestino irritável é um distúrbio funcional que cursa com dor abdominal recorrente e alteração do hábito intestinal (diarreia, constipação ou alternância). Embora possa coexistir com constipação, não é o diagnóstico principal em uma criança com encoprese retentiva e fecaloma. O quadro de João é de retenção fecal com transbordamento, não de dor abdominal recorrente com alteração do hábito.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A constipação funcional sem incontinência fecal é o diagnóstico quando há constipação, mas sem a perda involuntária de fezes. João tem incontinência (manchas de fezes na roupa íntima), o que caracteriza a encoprese retentiva, não a constipação isolada. A presença de soiling é o diferencial.
Gabarito: letra A — encoprese retentiva, confirmada pela constipação crônica com impactação fecal e transbordamento.