Uveíte anterior: diagnóstico e tratamento inicial
Gabarito: letra A. O quadro — dor ocular intensa, fotofobia, lacrimejamento, hiperemia bilateral, precipitados ceráticos não granulomatosos, células na câmara anterior e PIO levemente elevada — é a apresentação clássica da uveíte anterior não infecciosa, cuja abordagem inicial combina corticosteroides tópicos e midriáticos (ciclopléticos). O diagnóstico diferencial com glaucoma agudo, episclerite, conjuntivite bacteriana e ceratite herpética se resolve pelos achados do exame: miose, hiperemia perilimbar e células na câmara anterior apontam para a inflamação intraocular, não para o fechamento angular (que cursa com midríase e PIO muito elevada) nem para processos de superfície.
A uveíte anterior é a inflamação da úvea — a camada vascular do olho — que acomete principalmente a íris e o corpo ciliar (iridociclite). É a forma mais comum de uveíte e, na maioria dos casos, tem caráter idiopático ou está associada a doenças autoimunes (espondiloartropatias, artrite idiopática juvenil, sarcoidose, doença de Behçet). O quadro clínico típico inclui dor ocular, fotofobia, lacrimejamento, hiperemia perilimbar (pericerática) e, ao exame com lâmpada de fenda, precipitados ceráticos (células inflamatórias depositadas no endotélio corneano) e células na câmara anterior (flare e células). A pressão intraocular pode estar normal ou levemente elevada, diferentemente do glaucoma agudo, em que é extremamente alta.
O tratamento inicial da uveíte anterior não infecciosa é baseado em dois pilares: corticosteroides tópicos (como acetato de prednisolona 1%) para controlar a inflamação e midriáticos/cicloplégicos (como atropina ou ciclopentolato) para aliviar a dor, prevenir a formação de sinéquias posteriores e estabilizar a barreira hematoaquosa. O corticoide tópico é a primeira linha de tratamento, conforme protocolos de uveíte, e deve ser iniciado precocemente. Em casos graves ou refratários, pode-se considerar imunossupressores sistêmicos, mas a abordagem inicial é sempre tópica.
A tabela abaixo resume os principais diagnósticos diferenciais do olho vermelho, com os achados que os distinguem:
Critério | Uveíte anterior | Glaucoma agudo | Conjuntivite bacteriana | Episclerite | Ceratite herpética |
|---|
Dor | Moderada a intensa | Muito intensa | Ausente ou leve | Leve | Moderada a intensa |
Visão | Levemente turva | Muito borrada | Normal ou pouco diminuída | Normal | Diminuída |
Hiperemia | Perilimbar | Perilimbar | Difusa | Setorial | Perilimbar |
PIO | Normal ou pouco elevada | Muito elevada (>45 mmHg) | Normal | Normal | Normal |
Pupila | Miose | Midríase irregular | Normal | Normal | Normal |
Secreção | Ausente | Ausente | Purulenta | Ausente | Ausente |
Córnea | Precipitados ceráticos | Edema (turva) | Normal | Normal | Infiltrado/úlcera |
Câmara anterior | Células/flare | Rasa | Normal | Normal | Normal |
A pegadinha desta questão está em distinguir a uveíte anterior do glaucoma agudo de ângulo fechado. Ambos cursam com dor intensa, hiperemia perilimbar e fotofobia, mas o glaucoma agudo apresenta PIO extremamente elevada (>45 mmHg), pupila em médio-midríase fixa e córnea edemaciada, enquanto a uveíte anterior cursa com miose, PIO normal ou levemente elevada e precipitados ceráticos. A presença de células na câmara anterior é o achado-chave que confirma a inflamação intraocular e afasta o fechamento angular.
Guarde a fronteira entre os sinais de inflamação intraocular (uveíte) e os de hipertensão ocular aguda (glaucoma): é exatamente nela que as alternativas se dividem.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa descreve corretamente a condição mais provável (uveíte anterior não infecciosa) e a abordagem terapêutica inicial mais indicada (corticosteroides tópicos e midriáticos). Os achados do enunciado — precipitados ceráticos não granulomatosos, células na câmara anterior e PIO levemente elevada — são patognomônicos de uveíte anterior. O tratamento com corticoide tópico controla a inflamação, e os midriáticos (ciclopléticos) aliviam a dor, previnem sinéquias e estabilizam a barreira hematoaquosa.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O glaucoma agudo de ângulo fechado cursa com PIO extremamente elevada (>45 mmHg), pupila em médio-midríase fixa, córnea edemaciada e câmara anterior rasa — achados ausentes no enunciado, que descreve miose (implícita na uveíte), PIO apenas levemente elevada e precipitados ceráticos. Além disso, o tratamento com acetazolamida oral é adjuvante no glaucoma agudo, mas não é a abordagem inicial isolada, e não se aplica à uveíte anterior, cuja base é o corticoide tópico.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A episclerite é uma inflamação superficial da esclera, que cursa com hiperemia setorial, dor leve e sem acometimento intraocular — não há precipitados ceráticos nem células na câmara anterior. O tratamento com lágrimas artificiais e observação é adequado para episclerite simples, mas não para uveíte anterior, que exige corticoide tópico e midriáticos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A conjuntivite bacteriana apresenta secreção purulenta, hiperemia difusa e ausência de acometimento intraocular (sem células na câmara anterior, sem precipitados ceráticos). O tratamento com antibioticoterapia tópica é correto para conjuntivite bacteriana, mas não se aplica ao quadro descrito, que é de inflamação intraocular.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A ceratite herpética cursa com dor, fotofobia e hiperemia, mas o achado característico é o infiltrado corneano dendrítico (úlcera em padrão de dendrito), não precipitados ceráticos nem células na câmara anterior. O tratamento com antiviral tópico e oral é específico para herpes, mas o quadro do enunciado não apresenta sinais de ceratite herpética, sendo a uveíte anterior a hipótese mais provável.
Gabarito: letra A