Questão de Medicina — Oftalmologia — FGV 2025
- Código
- fg115560
- Banca
- FGV
- Órgão
- MPU
- Ano
- 2025
- Nível
- Superior
- Cargo
- Analista do - Oftalmologia
- Aherpes simples;
- Bsarcoidose;
- Cbrucelose;
- Dsífilis;
- Elepra.
GabaritoB — sarcoidose;
Gabarito: letra B. O quadro descrito — uveíte anterior granulomatosa com precipitados ceráticos em "gordura de carneiro", sinequias, nódulos conjuntivais, ECA elevada, aumento da glândula lacrimal, linfadenopatia hilar e hepatoesplenomegalia — é a apresentação clássica da sarcoidose, doença granulomatosa multissistêmica que acomete os olhos em 20% a 50% dos casos. O diagnóstico é essencialmente clínico-laboratorial, e a associação de uveíte granulomatosa com adenopatia hilar e ECA elevada fecha o quadro.
A sarcoidose é uma doença inflamatória granulomatosa de causa desconhecida, caracterizada pela formação de granulomas não caseosos em múltiplos órgãos. No olho, manifesta-se tipicamente como uveíte anterior granulomatosa, com precipitados ceráticos grandes e gordurosos ("mutton-fat"), nódulos irianos e de Koeppe/Busacca, e pode cursar com sinequias posteriores. A doença sistêmica frequentemente envolve pulmões (linfadenopatia hilar bilateral), pele (eritema nodoso, lúpus pérnio), glândulas salivares e lacrimais (aumento indolor), fígado e baço (hepatoesplenomegalia). Laboratorialmente, a enzima conversora de angiotensina (ECA) está elevada em cerca de 60% dos pacientes ativos, e há anergia cutânea — o que explica o PPD não reator, mesmo em áreas endêmicas para tuberculose. A síndrome de Heerfordt (uveíte + parotidite + paralisia facial) e a síndrome de Löfgren (eritema nodoso + adenopatia hilar + artrite) são apresentações agudas reconhecidas.
O diagnóstico diferencial das uveítes granulomatosas inclui tuberculose, sífilis, hanseníase, brucelose e infecções herpéticas. A chave para diferenciar está no padrão sistêmico: a sarcoidose cursa com ECA elevada e adenopatia hilar bilateral, enquanto a tuberculose teria PPD reator e radiografia de tórax com cavitações ou infiltrado apical; a sífilis apresenta VDRL positivo e manifestações cutâneas características; a hanseníase cursa com espessamento neural e lesões cutâneas hipocrômicas; a brucelose tem história de contato com animais e febre ondulante; o herpes simples costuma cursar com ceratite dendrítica e uveíte menos granulomatosa.
A banca explora exatamente essa sobreposição de sinais: o PPD não reator e a ECA elevada são os dois dados que mais fortemente apontam para sarcoidose, pois a anergia cutânea é uma marca da doença e a ECA elevada é um marcador de atividade granulomatosa. A linfadenopatia hilar bilateral é o achado radiológico mais característico, presente em 80% a 90% dos casos. A hepatoesplenomegalia e o aumento da glândula lacrimal reforçam o caráter multissistêmico. Nenhuma das outras alternativas reúne esse conjunto de manifestações.
Guarde o critério decisivo: uveíte granulomatosa + adenopatia hilar + ECA elevada + PPD não reator = sarcoidose até prova em contrário. É essa combinação que separa a sarcoidose das demais uveítes granulomatosas infecciosas.
Critério | Sarcoidose (gabarito) | Herpes simples | Brucelose | Sífilis | Hanseníase |
|---|---|---|---|---|---|
Tipo de uveíte | Anterior granulomatosa | Anterior não granulomatosa (ceratite dendrítica) | Pode causar uveíte | Granulomatosa (fases secundária/terciária) | Granulomatosa (forma virchowiana) |
Precipitados ceráticos | "Gordura de carneiro" (grandes) | Finos ou médios | Variável | Variável | Variável |
ECA sérica | Elevada | Normal | Normal | Normal | Normal |
PPD | Não reator (anergia cutânea) | Não específico | Não específico | Não específico | Não específico |
Achados sistêmicos típicos | Adenopatia hilar bilateral, hepatoesplenomegalia, aumento de glândula lacrimal | Lesões herpéticas cutâneo-mucosas | Febre ondulante, sudorese, contato com animais | VDRL positivo, lesões cutâneas características | Espessamento neural, lesões cutâneas hipocrômicas |
O herpes simples causa uveíte anterior, mas tipicamente não granulomatosa — cursa com ceratite dendrítica, e os precipitados ceráticos são finos ou médios, não em "gordura de carneiro". Não explica a linfadenopatia hilar, a hepatoesplenomegalia nem a ECA elevada. O PPD não reator e o aumento da glândula lacrimal também não fazem parte do quadro herpético.
A sarcoidose é a única alternativa que reúne todos os elementos: uveíte anterior granulomatosa com precipitados em gordura de carneiro, sinequias, nódulos conjuntivais (granulomas), ECA elevada (marcador de atividade), aumento da glândula lacrimal (envolvimento das glândulas salivares/lacrimais), linfadenopatia hilar bilateral (achado radiológico clássico) e hepatoesplenomegalia (envolvimento multissistêmico). O PPD não reator é esperado pela anergia cutânea característica da doença.
A brucelose é uma zoonose bacteriana que pode causar uveíte, mas o quadro é tipicamente diferente: febre ondulante, sudorese, artralgia e história de contato com animais ou derivados não pasteurizados. Não cursa com ECA elevada, adenopatia hilar bilateral nem aumento da glândula lacrimal como manifestações proeminentes. O PPD não reator não é um dado específico.
A sífilis pode causar uveíte granulomatosa, especialmente na fase secundária e terciária, mas o diagnóstico é confirmado por sorologia (VDRL/FTA-ABS). Não explica a ECA elevada, a linfadenopatia hilar bilateral nem o aumento da glândula lacrimal. A hepatoesplenomegalia pode ocorrer na sífilis congênita ou secundária, mas o conjunto de achados aponta fortemente para sarcoidose.
A hanseníase (lepra) pode causar uveíte, mas a forma granulomatosa é mais comum na hanseníase virchowiana, que cursa com espessamento de nervos periféricos, lesões cutâneas hipocrômicas ou eritematosas e perda de sensibilidade. Não há ECA elevada, adenopatia hilar bilateral nem aumento da glândula lacrimal como manifestações típicas. O PPD não reator não é um marcador específico.
A banca explora a associação automática entre uveíte granulomatosa e tuberculose, mas o PPD não reator e a ECA elevada invertem essa lógica: na sarcoidose há anergia cutânea (PPD negativo) e elevação da ECA, enquanto na tuberculose o PPD costuma ser reator e a ECA não é o marcador principal. Fique atento a esses dois dados — eles são a chave para não cair na armadilha.
Para uveítes granulomatosas, monte um quadro mental com os principais diagnósticos diferenciais e seus marcadores: sarcoidose (ECA elevada, PPD não reator, adenopatia hilar), tuberculose (PPD reator, radiografia com cavitação), sífilis (VDRL positivo), hanseníase (espessamento neural, lesões cutâneas), brucelose (febre ondulante, contato animal). Na prova, o par "ECA elevada + PPD não reator" é praticamente patognomônico de sarcoidose.
Gabarito: letra B
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