Questão de História — História do Brasil — FGV 2025
História›História do Brasil
Código
fg119757
Banca
FGV
Órgão
SEDUC-MT
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Professor de Educação Básica - Habilitação: História
“Filho de ex-escravos, crescera na fazenda levando a mesma vida dos pais. Era pajem do sinhô moço. Tinha a obrigação de brincar com ele. Era o cavalo em que o mocinho galopava sonhando conhecer todas as terras do pai. Tinham a mesma idade. [E ele perguntava:] Se eram livres, por que continuavam ali? Por que, então, tantas negras na senzala? Por que todos não se arribavam à procura de outros lugares e trabalhos?”EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio. Pallas, RJ: 2023.Pensando nas raízes históricas do racismo no Brasil, escolha a alternativa que responde as questões levantadas pela autora em seu livro.
AA vinculação de escravizados ao cotidiano familiar dos senhores criava relações de afeto entre negros e brancos, que garantiam liberdades e conforto compensatórias aos empregados descendentes de africanos.
BAcostumados ao regime de servidão relativa, mesmo após a libertação os negros e seus familiares mantinham-se voluntariamente apegados ao trabalho nas fazendas e às relações de submissão.
CA garantia de sobrevivência dos trabalhadores negros nas fazendas estava na remuneração assalariada que os senhores lhes passaram a oferecer para que permanecessem ali e acumulassem recursos.
DLibertos por direito, os negros antes escravizados não tiveram a liberdade de fato assegurada, pois marcados racialmente pelo regime anterior não eram vistos pela sociedade como indivíduos livres e capazes.
EO regime escravocrata enraizou-se de tal maneira na mentalidade dos negros que, mesmo libertos, eles não conseguiam conceber modos de vida distintos daqueles a que estavam habituados.
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GabaritoD — Libertos por direito, os negros antes escravizados não tiveram a liberdade de fato assegurada, pois marcados racialmente pelo regime anterior não eram vistos pela sociedade como indivíduos livres e capazes.
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Raízes históricas do racismo no Brasil
Gabarito: letra D. O trecho de Conceição Evaristo expressa a perplexidade de um filho de ex-escravos diante da permanência na mesma condição subalterna após a abolição. A alternativa correta explica que, embora legalmente livres, os negros não alcançaram a liberdade de fato porque o racismo e a herança escravocrata os marcava como inferiores, impedindo sua plena inserção social. Esse fenômeno – liberdade jurídica sem efetiva integração – é reconhecido pela historiografia como uma das raízes do racismo à brasileira.
A questão cobra a compreensão do pós-abolição: a Lei Áurea (1888) extinguiu a escravidão, mas não foi acompanhada de políticas de inclusão. Os ex-escravos e seus descendentes continuaram marginalizados, sem acesso a terra, educação ou trabalho digno. O questionamento do personagem – “Se eram livres, por que continuavam ali?” – reflete justamente essa contradição entre o direito formal e a realidade opressiva.
Alternativa
Descrição
Correta?
Motivo da Correção/Incorreção
A
A vinculação de escravizados ao cotidiano familiar dos senhores criava relações de afeto entre negros e brancos, que garantiam liberdades e conforto compensatórias aos empregados descendentes de africanos.
❌ Incorreta
Idealização romântica; a escravidão era violenta e desumana, e a suposta benevolência era exceção, não regra.
B
Acostumados ao regime de servidão relativa, mesmo após a libertação os negros e seus familiares mantinham-se voluntariamente apegados ao trabalho nas fazendas e às relações de submissão.
❌ Incorreta
A permanência decorria da ausência de alternativas (sem terras, sem empregos urbanos, sujeitos a exploração), não de apego voluntário; a ideia culpabiliza a vítima.
C
A garantia de sobrevivência dos trabalhadores negros nas fazendas estava na remuneração assalariada que os senhores lhes passaram a oferecer para que permanecessem ali e acumulassem recursos.
❌ Incorreta
O fim da escravidão não foi acompanhado de salários dignos; os negros foram relegados a trabalhos precários, sem remuneração ou com pagamento em espécie.
D
Libertos por direito, os negros antes escravizados não tiveram a liberdade de fato assegurada, pois marcados racialmente pelo regime anterior não eram vistos pela sociedade como indivíduos livres e capazes.
✅ Correta
Explica que, embora legalmente livres, o racismo e a herança escravocrata impediam a plena inserção social, refletindo a contradição entre direito formal e realidade opressiva.
E
O regime escravocrata enraizou-se de tal maneira na mentalidade dos negros que, mesmo libertos, eles não conseguiam conceber modos de vida distintos daqueles a que estavam habituados.
❌ Incorreta
Culpabiliza a vítima; a permanência não se devia a uma suposta incapacidade mental, mas à falta de políticas de inclusão e à marginalização estrutural.
Pós-abolição (1888): Liberdade jurídica (Lei Áurea extinguiu escravidão, Sem políticas de inclusão); Realidade opressiva (Sem acesso a terra, Sem educação, Sem trabalho digno); Consequência (Racismo estrutural, Marginalização dos negros)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a convivência entre senhores e escravos gerava “relações de afeto” que garantiam conforto. Isso é uma idealização romântica: a escravidão era violenta e desumana, e a chamada “casa-grande” não oferecia compensações significativas. A historiadora Emilia Viotti da Costa, entre outros, demonstra que a suposta benevolência era exceção, não regra.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Sugere que os negros permaneciam nas fazendas por apego voluntário à servidão. Na verdade, a permanência decorria da ausência de alternativas: sem terras, sem empregos urbanos e sujeitos a práticas de exploração, como o colonato ou o “sistema de barracão”, que os mantinham endividados. A ideia de “submissão voluntária” é um estereótipo que culpabiliza a vítima.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Alega que houve remuneração assalariada e acumulação de recursos. Historicamente, o fim da escravidão não foi acompanhado de salários dignos; os negros foram relegados a trabalhos precários, muitas vezes sem remuneração ou com pagamento em espécie. A Lei de Terras (1850) já havia dificultado o acesso à propriedade, e o poder público não ofereceu suporte.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Afirma que, apesar de libertos por direito, os negros não tiveram a liberdade de fato, pois o racismo os impedia de ser vistos como indivíduos capazes. Essa é a interpretação correta: a abolição foi uma medida jurídica, mas a mentalidade escravocrata e a discriminação racial continuaram. O trecho do livro ilustra exatamente essa frustração.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Atribui a permanência a uma incapacidade mental dos negros de conceber outra vida (“enraizou-se na mentalidade”). Trata-se de um argumento racista e a-histórico: as escolhas eram limitadas por fatores estruturais, não por suposta “acomodação” cultural. A resistência negra (quilombos, revoltas, associações) prova que havia desejo e luta por transformação.
NÃO CAIA NESSA!
Cuidado com as alternativas A e E, que usam discursos corriqueiros mas enganosos: a romantização das relações senhor-escravo (A) e a culpabilização das vítimas (E) são formas sutis de negar a violência histórica. A banca espera que você identifique o contraste entre liberdade formal e exclusão real – chave para entender o racismo brasileiro.