Questão de Português — Funções morfossintáticas da palavra QUE — FGV 2025
Português›Funções morfossintáticas da palavra QUE
Código
fg119830
Banca
FGV
Órgão
SEDUC-MT
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Professor de Educação Básica - Habilitação: Língua Portuguesa
Para responder à questão, leia a crônica
“Esquisitices” de Luis Fernando Verissimo.
A família chegou na casa da praia e, enquanto o pai e a mãe
se ocupavam de tirar os tapumes das janelas e religar a luz, a filha
adolescente foi direto para o seu quarto e sentiu que havia
alguma coisa diferente dos outros verões, um cheiro que ela não
lembrava, um brilho nas paredes, alguma coisa. Quando foi
ajudar a mãe a desempacotar as compras na cozinha, disse que o
mar tinha invadido a casa e a mãe disse que o mar nunca chegava
até ali, tá louca? Então invadiu só o meu quarto, disse a filha, e
naquela noite, quando entrou no quarto para dormir, viu que o
chão estava coberto de algas, e quando foi pegar um dos livros
que tinha deixado na prateleira no verão anterior derrubou várias
conchas no chão, e quando abriu a gaveta da sua mesinha de
cabeceira – juro, mãe! – descobriu uma estrela-do-mar. Não
conseguiu dormir, o som do mar invadia o quarto, ela chegou a
ouvir o ruído de fritura da espuma se desfazendo ao seu redor,
como se o mar estivesse arrebentando em volta da cama. E as
paredes fosforescentes! Se um peixe prateado pulasse na cama,
refletiria o brilho das paredes no ar, antes de cair ao seu lado.
Passou a noite esperando o peixe prateado. De manhã a mãe
disse que o mar não estava mais perto da casa, estava onde
sempre estivera desde que eles tinham construído a casa, e que
ela se acostumaria com o ruído. E que não, não sentira o cheiro
novo nem vira as algas no chão do quarto, nem as conchas, você
parece doida. A filha perguntou se o mar nunca tinha invadido a
casa e a mãe respondeu que não. Depois pensou um pouco e
disse: não que eu me lembre. Naquela noite a filha leu um pouco
– apesar das ondas estourando ao seu redor – depois mergulhou
a mão na água e pegou um cavalo-marinho para marcar o lugar, e
fechou o livro. Estava pronta para o peixe prateado, estava certa
de que nunca mais seria a mesma. Quando a mãe contou para o
pai as esquisitices da filha naquele verão, o pai só disse uma
coisa. Catorze anos é fogo.
VERISSIMO, Luis Fernando. Verissimo antológico: meio século de
crônicas, ou coisa parecida. Rio de Janeiro: Objetiva, 2020.
A referenciação anafórica ocorre quando um termo retoma uma informação já mencionada anteriormente no texto, a exemplo do que se verifica com o termo sublinhado em:
A“havia alguma coisa diferente dos outros verões, um cheiro que ela não lembrava”.
B“o mar tinha invadido a casa e a mãe disse que o mar nunca chegava até ali”.
C“quando entrou no quarto para dormir, viu que o chão estava coberto de algas”.
D“desde que eles tinham construído a casa, e que ela se acostumaria com o ruído”.
E“A filha perguntou se o mar nunca tinha invadido a casa e a mãe respondeu que não”.
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GabaritoA — “havia alguma coisa diferente dos outros verões, um cheiro que ela não lembrava”.
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Referenciação anafórica: o pronome relativo "que"
Gabarito: letra A. A única alternativa em que o termo sublinhado ("que") exerce função anafórica — retomando um termo anterior — é a A, pois o "que" é pronome relativo que se refere a "um cheiro". As demais alternativas empregam "que" como conjunção (integrante ou coordenativa), que não retoma nada, apenas conecta orações.
"havia alguma coisa diferente dos outros verões, um cheiro que ela não lembrava"
No trecho acima, o "que" retoma "um cheiro" (funciona como objeto direto da forma verbal "lembrava", que exige complemento: lembrar algo). Trata-se de um pronome relativo que introduz oração adjetiva e estabelece coesão referencial típica.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O "que" é pronome relativo e retoma "um cheiro", antecedente explícito. Há perfeita referenciação anafórica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"o mar tinha invadido a casa e a mãe disse que o mar nunca chegava até ali"
O "que" é conjunção subordinativa integrante, ligando o verbo "disse" à oração objetiva direta. Não retoma termo anterior — não é pronome relativo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"viu que o chão estava coberto de algas"
Novamente, "que" é conjunção integrante, introduzindo oração subordinada substantiva objetiva direta. Sem função anafórica.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"desde que eles tinham construído a casa, e que ela se acostumaria com o ruído"
O primeiro "que" integra a locução conjuntiva temporal "desde que"; o segundo "que" é conjunção coordenativa (ou integrante após "e"). Ambos são conectivos, não pronomes relativos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"a mãe respondeu que não"
"Que" é conjunção subordinativa integrante, completando o verbo "respondeu". Não há retomada anafórica.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar anáfora, verifique se o termo sublinhado pode ser substituído por "o qual", "a qual", "os quais" – isso ocorre apenas com pronomes relativos. Nas alternativas B a E, a substituição não é possível, pois o "que" é mero conectivo.