Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — FGV 2026
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
fg133492
Banca
FGV
Órgão
TJ-RJ
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Analista Judiciário - Assistencial - Médico
Homem de 41 anos procura atendimento por referir menor disposição nos últimos meses. Nega uso de medicações ou doenças prévias. Exame físico sem alterações relevantes. Resultados laboratoriais: TSH 4,5 mUI/L, T4 livre normal, anticorpos antitireoperoxidase (anti-TPO) positivos e colesterol LDL 165 mg/dL.Com base nas recomendações atuais, a conduta mais apropriada é:
Ainiciar levotiroxina 25-50 µg/dia, pois a presença de anti-TPO positivo e dislipidemia indica maior risco de progressão para hipotireoidismo clínico;
Bnão iniciar tratamento; repetir TSH em 6 meses e tratar apenas se TSH > 10 mUI/L ou se surgirem sintomas mais intensos;
Ctratar apenas se houver T4 livre abaixo do normal, pois o TSH ainda está dentro da variação fisiológica aceitável;
Dsolicitar cintilografia da tireoide para definir a necessidade de reposição, pois o anti-TPO positivo isoladamente não tem valor prognóstico;
Epostergar tratamento até o paciente apresentar sintomas claros de hipotireoidismo, pois o uso precoce de levotiroxina não altera o risco cardiovascular.
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GabaritoA — iniciar levotiroxina 25-50 µg/dia, pois a presença de anti-TPO positivo e dislipidemia indica maior risco de progressão para hipotireoidismo clínico;
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Hipotireoidismo subclínico: quando tratar
Gabarito: letra A. O paciente tem hipotireoidismo subclínico (TSH elevado com T4 livre normal), e a presença de anti-TPO positivo associada a dislipidemia (LDL 165 mg/dL) configura indicação de tratamento com levotiroxina, conforme as diretrizes atuais — a alternativa A reflete exatamente essa recomendação. A base é o consenso das sociedades de tireoide (ATA e SBEM), que indicam reposição no hipotireoidismo subclínico quando há anticorpos positivos ou dislipidemia associada.
O hipotireoidismo subclínico é definido pela elevação do TSH (acima do limite superior da normalidade, geralmente > 4,0 mUI/L) com T4 livre dentro da faixa de referência. É uma condição comum, frequentemente assintomática ou com sintomas inespecíficos como fadiga e menor disposição — exatamente o quadro do paciente. A principal causa é a tireoidite de Hashimoto, doença autoimune na qual o anticorpo anti-TPO está presente em cerca de 95% dos casos, como mencionado no material de apoio. A dosagem de anti-TPO, portanto, tem papel etiológico: confirma a natureza autoimune do hipotireoidismo.
A grande questão clínica é: todo hipotireoidismo subclínico deve ser tratado? A resposta é não. As diretrizes atuais recomendam tratamento com levotiroxina em situações específicas, que incluem: TSH persistentemente > 10 mUI/L, presença de anticorpos antitireoidianos (anti-TPO positivo), sintomas de hipotireoidismo, dislipidemia, bócio, gravidez ou desejo de engravidar, entre outras. A lógica é que, nesses grupos, o risco de progressão para hipotireoidismo clínico e de complicações (especialmente cardiovasculares, como a dislipidemia) é maior, e a reposição precoce pode modificar esse curso.
No caso apresentado, o paciente tem TSH de 4,5 mUI/L (levemente elevado), T4 livre normal, anti-TPO positivo e LDL elevado (165 mg/dL). A combinação de anti-TPO positivo + dislipidemia é exatamente uma das situações em que o tratamento é recomendado, mesmo com TSH apenas discretamente elevado. A dose inicial sugerida de 25-50 µg/dia é apropriada para início de tratamento em adultos jovens sem comorbidades cardíacas, com ajuste progressivo conforme resposta do TSH.
A pegadinha central desta questão é a tentação de não tratar por considerar o TSH apenas discretamente elevado (4,5 mUI/L) e o paciente assintomático. No entanto, as diretrizes são claras: a presença de anticorpos positivos e dislipidemia são indicações formais de tratamento, independentemente do nível exato do TSH (desde que acima do limite). A banca explora exatamente essa zona de dúvida — o candidato que memoriza apenas o gatilho de "TSH > 10" erra a questão.
Guarde o critério decisivo: no hipotireoidismo subclínico, a decisão de tratar não se baseia apenas no valor do TSH, mas na presença de fatores de risco associados — anticorpos positivos, dislipidemia, sintomas, bócio. É essa combinação que separa a alternativa correta das demais.
Critério
Hipotireoidismo subclínico com indicação de tratar (A)
Conduta expectante (B)
TSH
4,5 mUI/L (discretamente elevado)
4,5 mUI/L (discretamente elevado)
Anti-TPO
Positivo (indica etiologia autoimune)
Ausente ou não considerado
Dislipidemia
Presente (LDL 165 mg/dL)
Ausente ou não considerada
Conduta recomendada
Iniciar levotiroxina 25-50 µg/dia
Repetir TSH em 6 meses; tratar se TSH > 10 mUI/L ou sintomas intensos
Base da decisão
Fatores de risco associados (anti-TPO + dislipidemia)
Apenas valor do TSH ou sintomas claros
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A conduta de iniciar levotiroxina 25-50 µg/dia está correta porque o paciente preenche critérios de tratamento do hipotireoidismo subclínico: anti-TPO positivo (indicando etiologia autoimune, tireoidite de Hashimoto) e dislipidemia (LDL 165 mg/dL). A presença desses fatores indica maior risco de progressão para hipotireoidismo clínico e de complicações cardiovasculares, justificando a reposição precoce. A dose inicial de 25-50 µg/dia é a recomendada para início de tratamento em adultos, com ajuste conforme resposta do TSH.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A conduta de não tratar e repetir TSH em 6 meses, tratando apenas se TSH > 10 mUI/L, está incorreta porque ignora os fatores de risco presentes. O gatilho de TSH > 10 mUI/L é uma das indicações de tratamento, mas não a única — a presença de anti-TPO positivo e dislipidemia já configura indicação de tratamento, mesmo com TSH de 4,5 mUI/L. A conduta expectante seria adequada apenas para pacientes com TSH discretamente elevado, sem anticorpos, sem sintomas e sem comorbidades associadas.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A afirmação de que se deve tratar apenas se o T4 livre estiver abaixo do normal está incorreta. O diagnóstico de hipotireoidismo subclínico é justamente caracterizado por TSH elevado com T4 livre normal — ou seja, esperar o T4 livre cair significaria aguardar a progressão para hipotireoidismo clínico, perdendo a janela de intervenção precoce. O TSH é o marcador mais sensível da função tireoidiana e é nele que se baseia a decisão de tratar no hipotireoidismo subclínico.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A solicitação de cintilografia da tireoide está incorreta. Exames de imagem não são necessários para o diagnóstico ou acompanhamento do hipotireoidismo primário, como explicitado no material de apoio. A cintilografia pode ser útil em outras situações (como na distinção entre tireoidite e doença de Graves), mas não tem papel na decisão de tratar hipotireoidismo subclínico. Além disso, o anti-TPO positivo tem sim valor prognóstico, pois indica etiologia autoimune e maior risco de progressão.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A conduta de postergar o tratamento até o paciente apresentar sintomas claros está incorreta. O tratamento precoce no hipotireoidismo subclínico com fatores de risco (como anti-TPO positivo e dislipidemia) pode sim alterar o risco cardiovascular, pois a dislipidemia associada ao hipotireoidismo tende a melhorar com a reposição de levotiroxina. Além disso, a presença de anticorpos positivos indica maior risco de progressão para hipotireoidismo clínico, e o tratamento precoce pode prevenir essa evolução. Esperar sintomas claros seria uma conduta passiva que contraria as recomendações atuais.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a zona de dúvida do hipotireoidismo subclínico: o candidato que memoriza apenas o gatilho de "TSH > 10 mUI/L" ou que considera o paciente "assintomático" tende a escolher a alternativa B (não tratar). No entanto, as diretrizes são claras: anti-TPO positivo e dislipidemia são indicações formais de tratamento, independentemente do valor exato do TSH. A presença de anticorpos antitireoidianos é o marcador de risco mais importante para progressão — é isso que a alternativa A captura e as demais ignoram.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de hipotireoidismo subclínico, monte mentalmente a lista de indicações de tratamento: TSH > 10 mUI/L, anti-TPO positivo, sintomas de hipotireoidismo, dislipidemia, bócio, gravidez ou desejo de engravidar. Se qualquer um desses estiver presente, o tratamento está indicado — mesmo com TSH apenas discretamente elevado. Essa lista resolve a maioria das questões sobre o tema.