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Questão de Medicina — Distúrbios Nutricionais — FGV 2026

MedicinaDistúrbios Nutricionais
Código
fg133509
Banca
FGV
Órgão
TJ-RJ
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Analista Judiciário - Assistencial - Médico
Mulher de 62 anos, com diagnóstico de adenocarcinoma gástrico avançado em cuidados paliativos domiciliares, é trazida ao pronto-socorro por familiares devido a quadro de confusão mental progressiva há cinco dias. Familiares relatam que a paciente vem apresentando náuseas persistentes e vômitos frequentes nas últimas três semanas, com piora após tentativas de alimentação, tendo perdido aproximadamente 8 kg nesse período. Relata inapetência acentuada e consegue ingerir apenas pequenas quantidades de líquidos. Possui gastrostomia para drenagem que tem drenado volumes de 800 a 1200 mL diariamente. Não recebe nutrição enteral ou parenteral. Nega uso de bebidas alcoólicas. Nas últimas 48 horas, apresentou desorientação progressiva, inicialmente temporal e posteriormente também espacial, com dificuldade para reconhecer familiares.Ao exame físico: paciente confusa, desorientada no tempo e espaço, Glasgow 13 (abertura ocular espontânea, resposta verbal confusa, obediência a comandos), emagrecida com perda acentuada de massa muscular, desidratada com mucosas secas, pressão arterial 96 x 58 mmHg, frequência cardíaca 102 bpm, frequência respiratória 18 incursões por minuto, temperatura axilar 36,4 °C.Exame neurológico: pupilas isocóricas e fotorreagentes mas com resposta lentificada, nistagmo horizontal bilateral evocado pelo olhar lateral, oftalmoparesia do músculo reto lateral bilateral mais acentuada à direita, paciente acamada sem condições de deambulação, incoordenação de membros superiores à prova índex-nariz bilateralmente, reflexos patelares e aquileus diminuídos simetricamente, sensibilidade tátil preservada, mas com hipoestesia distal em membros inferiores.Exames laboratoriais:• hemoglobina 9,2 g/dL (VR: 12-16 g/dL)• volume corpuscular médio 102 fL (VR: 80-100 fL)• leucócitos 6.800/mm³ sem desvio• plaquetas 165.000/mm³Função renal:• ureia 52 mg/dL (VR: 10-50 mg/dL)• creatinina 1,2 mg/dL (VR: 0,7-1,2 mg/dL)Eletrólitos:• sódio 132 mEq/L• potássio 3,2 mEq/L• cloreto 96 mEq/L• magnésio 1,4 mEq/L (VR: 1,5-2,5 mEq/L)Glicemia 88 mg/dL.Albumina sérica 2,4 g/dL (VR: 3,5-5,0 g/dL).Gasometria venosa: pH 7,38, bicarbonato 22 mEq/L.Tomografia computadorizada de crânio sem contraste realizada na emergência não evidencia lesões agudas, hemorragias ou efeito de massa.Eletrocardiograma: taquicardia sinusal, frequência cardíaca 102 bpm, sem outras alterações agudas.O tratamento inicial apropriado para a condição neurológica que acomete essa paciente é:
  1. Aadministrar naloxona 0,4 mg intravenosa em bolus, podendo repetir até a dose máxima de 2 mg para reversão de possível intoxicação por opioides utilizados para controle de dor oncológica; associar flumazenil 0,2 mg intravenoso em bolus para reversão de benzodiazepínicos e iniciar reposição volêmica com solução salina isotônica;
  2. Badministrar tiamina 100 mg intramuscular em dose única, seguida de tiamina oral 100 mg por dia por cinco dias; iniciar reposição de magnésio com sulfato de magnésio 2 gramas intravenoso em dose única e prescrever suplementação vitamínica oral com complexo B após estabilização do quadro;
  3. Cadministrar glicose hipertônica 50% 50 mL intravenosa em bolus para correção de possível hipoglicemia não detectada, seguida de tiamina 100 mg intramuscular após infusão de glicose; iniciar reposição volêmica com soro glicosado 5% e programar ressonância magnética de encéfalo para investigação etiológica;
  4. Dadministrar tiamina 500 mg intravenosa diluída em 100 mL de solução salina isotônica infundida em 30 minutos três vezes ao dia por dois dias consecutivos, seguida de 250 mg intravenosa ou intramuscular uma vez ao dia por mais cinco dias; repor magnésio e outras vitaminas do complexo B, e iniciar tiamina oral 100 mg ao dia após completar tratamento parenteral;
  5. Eadministrar aciclovir 10 mg por kg intravenoso a cada oito horas para tratamento de possível encefalite herpética; solicitar punção lombar com análise do líquor incluindo reação em cadeia da polimerase para herpes simples; iniciar dexametasona 4 mg intravenoso a cada seis horas e programar eletroencefalograma.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — administrar tiamina 500 mg intravenosa diluída em 100 mL de solução salina isotônica infundida em 30 minutos três vezes ao dia por dois dias consecutivos, seguida de 250 mg intravenosa ou intramuscular uma vez ao dia por mais cinco dias; repor magnésio e outras vitaminas do complexo B, e iniciar tiamina oral 100 mg ao dia após completar tratamento parenteral;

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Síndrome de Wernicke-Korsakoff: diagnóstico e tratamento

Gabarito: letra D. A paciente apresenta a tríade clássica da encefalopatia de Wernicke — confusão mental, oftalmoparesia (paralisia do reto lateral bilateral) e ataxia — em contexto de desnutrição grave (adenocarcinoma gástrico, vômitos persistentes, perda de 8 kg, gastrostomia em drenagem, sem suporte nutricional). O tratamento inicial é a reposição parenteral de tiamina em altas doses, conforme preconizado para esta emergência neurológica.

A encefalopatia de Wernicke é uma emergência médica causada pela deficiência aguda de tiamina (vitamina B1), um cofator essencial no metabolismo da glicose. Sem tiamina, o cérebro não consegue utilizar glicose como fonte de energia, levando a lesão em áreas específicas: corpos mamilares, região periaquedutal e tálamo. O quadro clássico é a tríade de confusão mental, ataxia e oftalmoplegia (paralisia dos músculos oculares, especialmente o reto lateral, causando estrabismo convergente e nistagmo).

A paciente reúne todos os elementos: confusão progressiva, nistagmo horizontal, oftalmoparesia bilateral do reto lateral, incoordenação (ataxia), reflexos diminuídos e hipoestesia distal — esta última sugerindo polineuropatia associada, comum na deficiência de tiamina. O contexto é de deficiência nutricional grave: adenocarcinoma gástrico com vômitos persistentes, perda de 8 kg, gastrostomia em drenagem de alto débito (perdendo secreções ricas em vitaminas e eletrólitos) e ausência de nutrição enteral ou parenteral. A anemia macrocítica (VCM 102 fL) e a hipomagnesemia (1,4 mEq/L) reforçam o estado de carências múltiplas.

O tratamento de emergência consiste em tiamina parenteral em altas doses, pois a via oral é insuficiente para repor os estoques depletados. A dose recomendada é de 500 mg IV, infundida em 30 minutos, três vezes ao dia por dois dias, seguida de 250 mg IV ou IM uma vez ao dia por mais cinco dias. É fundamental repor tiamina ANTES da glicose, pois a glicose consome os últimos estoques de tiamina e pode precipitar ou agravar a encefalopatia. Também se deve repor magnésio (cofator da tiamina) e outras vitaminas do complexo B, pois deficiências são frequentemente múltiplas.

A pegadinha central desta questão é a tentação de tratar a confusão mental como intoxicação por opioides (naloxona), hipoglicemia (glicose hipertônica) ou encefalite herpética (aciclovir). A banca explora o reflexo automático de "reverter" causas reversíveis de rebaixamento do nível de consciência, mas o quadro neurológico focal (oftalmoparesia, nistagmo, ataxia) é a chave para o diagnóstico de Wernicke. A alternativa C, que administra glicose ANTES da tiamina, é uma armadilha clássica: a glicose sem tiamina pode piorar o quadro.

Guarde a sequência: tiamina parenteral em altas doses → reposição de magnésio e complexo B → tiamina oral de manutenção. É exatamente essa a conduta da alternativa D.

  1. 1Tiamina parenteral em altas doses
  2. 2Reposição de magnésio e complexo B
  3. 3Tiamina oral de manutenção
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Administra naloxona e flumazenil para reverter intoxicação por opioides e benzodiazepínicos. A paciente nega uso de álcool e não há relato de uso de opioides ou benzodiazepínicos. O quadro neurológico (oftalmoparesia, nistagmo, ataxia) não é compatível com intoxicação por essas drogas, que causariam miose (opioides) e depressão respiratória, ausentes aqui. A confusão mental tem outra etiologia.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A dose de tiamina está insuficiente: 100 mg IM em dose única é a dose profilática, não terapêutica. Na encefalopatia de Wernicke estabelecida, são necessárias altas doses parenterais (500 mg IV três vezes ao dia). A alternativa também não especifica a reposição de tiamina antes da glicose, ponto crítico do tratamento.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Administra glicose hipertônica antes da tiamina, o que é contraindicado: a glicose consome os estoques residuais de tiamina e pode precipitar ou agravar a encefalopatia de Wernicke. A glicemia da paciente é normal (88 mg/dL), não havendo indicação de glicose hipertônica. A reposição volêmica com soro glicosado 5% também é inadequada, pois a paciente está desidratada e hiponatrêmica (sódio 132 mEq/L), necessitando de solução salina isotônica.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A conduta está correta e completa: tiamina 500 mg IV em 100 mL de SF 0,9% infundida em 30 minutos, três vezes ao dia por dois dias, seguida de 250 mg IV/IM por cinco dias. Essa é a dose terapêutica recomendada para encefalopatia de Wernicke. A alternativa também prevê a reposição de magnésio (cofator da tiamina) e outras vitaminas do complexo B, além da manutenção oral após o tratamento parenteral. A via parenteral é essencial, pois a absorção oral é imprevisível em paciente com vômitos e má absorção.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Trata possível encefalite herpética com aciclovir. A encefalite herpética causa febre, déficit neurológico focal e alteração do nível de consciência, mas não cursa com oftalmoparesia, nistagmo e ataxia como quadro predominante. A TC de crânio normal não exclui encefalite, mas o quadro clínico é muito mais sugestivo de encefalopatia de Wernicke. A punção lombar e o EEG seriam úteis na investigação, mas não são o tratamento inicial apropriado para esta paciente.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora o reflexo de "reverter causas reversíveis" de confusão mental: naloxona (opioides), glicose (hipoglicemia) e aciclovir (encefalite). Mas o quadro neurológico focal — oftalmoparesia, nistagmo, ataxia — é a chave para Wernicke. E a alternativa C é a armadilha mais sutil: glicose antes da tiamina piora o quadro. Na prova, diante de confusão + oftalmoplegia + ataxia em paciente desnutrido, pense Wernicke e trate com tiamina parenteral em altas doses antes de qualquer glicose.

PEGA ESSA DICA!

Memorize a tríade de Wernicke: confusão + ataxia + oftalmoplegia. E a regra de ouro: tiamina antes da glicose. Se a alternativa oferece glicose sem tiamina, está errada. A dose terapêutica é 500 mg IV TID, não 100 mg IM.

Gabarito: letra D

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