Questão de Medicina — Gastroenterologia — FGV 2026
Medicina›Gastroenterologia
Código
fg133513
Banca
FGV
Órgão
TJ-RJ
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Analista Judiciário - Assistencial - Médico
Mulher de 62 anos procura atendimento ambulatorial por quadro de dispepsia pós-prandial há aproximadamente seis meses com as seguintes características: desconforto epigástrico após as refeições, plenitude precoce e ocasionais episódios de náuseas. Refere história de diabetes mellitus tipo 1, diagnosticado aos 28 anos, em uso regular de insulina, e hipotireoidismo em tratamento com levotiroxina 100 mcg por dia. Nega tabagismo, etilismo ou uso de anti-inflamatórios não esteroidais. Ao exame físico, apresenta IMC 24 kg/m², palidez cutaneomucosa discreta, glossite atrófica e ausência de outras alterações significativas.Exames laboratoriais:• hemoglobina 10,2 g/dL (VR: 12-16 g/dL)• volume corpuscular médio 102 fL (VR: 80-100 fL)• leucócitos 4.800/mm³• plaquetas 165.000/mm³• ferritina 88 ng/mL (VR: 15-150 ng/mL)• vitamina B12 sérica 145 pg/mL (VR: 200-900 pg/mL)• ácido metilmalônico elevado• gastrina sérica em jejum 850 pg/mL (VR: menor que 100 pg/mL).Endoscopia digestiva alta evidencia mucosa gástrica com aspecto atrófico difuso no corpo e fundo, com visibilidade aumentada da vascularização submucosa e múltiplas pequenas lesões polipoides menores que um centímetro. Anatomopatológico de biópsias do corpo gástrico demonstra atrofia glandular acentuada com perda de células parietais e principais, substituição por epitélio metaplásico pseudopilórico e intestinal, infiltrado inflamatório linfoplasmocitário em profundidade e hiperplasia de células enterocromafins-like. Biópsias de antro mostram mucosa preservada sem atrofia. Pesquisa de Helicobacter pylori negativa.A conduta apropriada para o caso descrito é:
Ainiciar terapia de erradicação para Helicobacter pylori com esquema tríplice por 14 dias, programar endoscopia de controle em três meses e orientar reposição oral de vitamina B12;
Bsolicitar dosagem de anticorpos anticélulas parietais e antifator intrínseco, iniciar reposição parenteral de vitamina B12, programar vigilância endoscópica a cada três anos e investigar lesões polipoides com biópsias adicionais;
Cprogramar vigilância endoscópica anual devido ao alto risco de adenocarcinoma gástrico tipo intestinal, iniciar suplementação oral de ferro e vitamina B12 e repetir dosagem de gastrina em seis meses;
Dencaminhar para antrectomia cirúrgica para redução dos níveis de gastrina e prevenção de tumores neuroendócrinos, associada à reposição parenteral de vitamina B12 em longo prazo;
Einiciar inibidor de bomba de prótons em dose plena, programar endoscopia de controle em um ano e orientar suplementação oral de vitamina B12 e ácido fólico.
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GabaritoB — solicitar dosagem de anticorpos anticélulas parietais e antifator intrínseco, iniciar reposição parenteral de vitamina B12, programar vigilância endoscópica a cada três anos e investigar lesões polipoides com biópsias adicionais;
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Gastrite atrófica autoimune (tipo A): diagnóstico e conduta
Gabarito: letra B. O caso descreve uma gastrite atrófica autoimune (tipo A) — atrofia de corpo/fundo poupando antro, anemia megaloblástica (VCM 102 fL, B12 baixa, ácido metilmalônico elevado), hipergastrinemia (850 pg/mL) e hiperplasia de células enterocromafins-like (ECL) — cuja conduta correta combina: confirmar a etiologia autoimune (anticorpos anticélulas parietais e antifator intrínseco), repor vitamina B12 por via parenteral (a deficiência é por má absorção, não dietética), vigilância endoscópica periódica (risco de adenocarcinoma gástrico e de tumores neuroendócrinos) e biópsia das lesões polipoides (para excluir neoplasia). A alternativa B é a única que contempla todos esses pilares.
A gastrite atrófica autoimune é uma doença em que o sistema imunológico ataca as células parietais do corpo e fundo gástricos, levando à perda da produção de ácido e de fator intrínseco. A destruição das células parietais tem duas consequências principais: (1) acloridria — que estimula a gastrina pelas células G do antro (hipergastrinemia), e a gastrina, por sua vez, estimula a proliferação das células ECL (hiperplasia, que pode evoluir para tumores neuroendócrinos); e (2) deficiência de fator intrínseco — que impede a absorção de vitamina B12 no íleo terminal, causando anemia megaloblástica (macrocitose, VCM elevado, B12 baixa, ácido metilmalônico elevado). A gastrite atrófica autoimune é a principal causa de anemia perniciosa.
O diagnóstico é clínico-laboratorial-endoscópico: endoscopia mostra atrofia difusa de corpo/fundo com mucosa antral preservada (padrão que a distingue da gastrite atrófica por H. pylori, que costuma acometer antro), e a histologia confirma atrofia glandular com metaplasia intestinal e hiperplasia de células ECL. A pesquisa de H. pylori negativa reforça a etiologia autoimune. Os anticorpos anticélulas parietais (presentes em ~90% dos casos) e antifator intrínseco (mais específicos, presentes em ~50-70%) confirmam o diagnóstico.
A conduta envolve quatro pilares: (1) reposição de B12 parenteral — a via oral é ineficaz porque a absorção está comprometida pela falta de fator intrínseco (embora altas doses orais possam ser tentadas em casos selecionados, a via parenteral é o padrão); (2) vigilância endoscópica — o risco de adenocarcinoma gástrico é 3 a 6 vezes maior que na população geral, e a vigilância a cada 2-3 anos é recomendada; (3) investigação das lesões polipoides — os pólipos podem ser hiperplásicos, mas também podem ser tumores neuroendócrinos (carcinoides) associados à hipergastrinemia, exigindo biópsia; e (4) seguimento da hipergastrinemia — que tende a persistir enquanto houver acloridria, mas deve ser monitorada.
A distinção crucial que a banca explora é entre gastrite atrófica autoimune (tipo A) e gastrite atrófica por H. pylori (tipo B): na primeira, a atrofia é de corpo/fundo, poupa antro, há anemia perniciosa e hipergastrinemia; na segunda, a atrofia é predominantemente antral, há infecção pelo H. pylori e a erradicação é o tratamento. A alternativa A erra ao propor erradicação de H. pylori (que é negativa) e reposição oral de B12; a C erra ao propor vigilância anual (excessiva) e suplementação oral de B12; a D erra ao propor antrectomia (não indicada, pois a hipergastrinemia é consequência da acloridria, não da gastrina antral); e a E erra ao propor IBP (que pioraria a hipergastrinemia) e suplementação oral de B12.
Guarde o tripé que decide a questão: atrofia de corpo/fundo + anemia megaloblástica + hipergastrinemia = gastrite autoimune → B12 parenteral + vigilância endoscópica + biópsia de pólipos. É exatamente esse tripé que separa a alternativa correta das demais.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Erra ao propor erradicação de H. pylori — a pesquisa foi negativa, e a gastrite atrófica autoimune não é causada por essa bactéria. Além disso, a reposição oral de vitamina B12 é inadequada: a deficiência decorre da falta de fator intrínseco (destruição das células parietais), o que impede a absorção intestinal da vitamina, tornando a via parenteral obrigatória. A endoscopia de controle em três meses também é precoce demais para vigilância de gastrite atrófica.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Contempla todos os pilares da conduta: dosar anticorpos anticélulas parietais e antifator intrínseco (confirma a etiologia autoimune), reposição parenteral de B12 (correta, pois há má absorção por deficiência de fator intrínseco), vigilância endoscópica a cada três anos (adequada para o risco aumentado de adenocarcinoma gástrico) e biópsia das lesões polipoides (necessária para excluir tumor neuroendócrino ou pólipo adenomatoso). É a conduta mais completa e alinhada às diretrizes.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A vigilância endoscópica anual é excessiva — o intervalo recomendado para gastrite atrófica autoimune é de 2 a 3 anos, não anual. A suplementação oral de ferro e vitamina B12 é inadequada para a B12 (deve ser parenteral, pela má absorção). A repetição da gastrina em seis meses não é prioridade na conduta inicial, e a afirmação de "alto risco de adenocarcinoma gástrico tipo intestinal" é imprecisa: o risco é aumentado, mas não justifica vigilância anual de rotina.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A antrectomia cirúrgica é um absurdo terapêutico: a hipergastrinemia é consequência da acloridria (perda de células parietais), não da produção antral de gastrina — retirar o antro não corrige a hipergastrinemia e expõe a paciente a risco cirúrgico desnecessário. A prevenção de tumores neuroendócrinos é feita com vigilância endoscópica e biópsia, não com cirurgia. A reposição parenteral de B12 está correta, mas isoladamente não justifica a alternativa.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O inibidor de bomba de prótons (IBP) é contraindicado: a paciente já tem acloridria (atrofia das células parietais) e hipergastrinemia — o IBP pioraria ainda mais a hipergastrinemia e estimularia a proliferação das células ECL. A suplementação oral de vitamina B12 é inadequada (deve ser parenteral), e a endoscopia de controle em um ano é precoce demais para a vigilância recomendada (2-3 anos).
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre gastrite atrófica autoimune (tipo A) e gastrite por H. pylori (tipo B). Na tipo A, a atrofia é de corpo/fundo, poupa antro, há anemia perniciosa e hipergastrinemia — e o tratamento NÃO é erradicar H. pylori (que é negativa), mas repor B12 parenteral e vigiar endoscopicamente. Na tipo B, a atrofia é antral, há infecção pelo H. pylori e a erradicação é o tratamento. A alternativa A cai exatamente nessa armadilha, propondo erradicação para uma paciente com H. pylori negativo.
PEGA ESSA DICA!
Na prova, monte o diagnóstico em três passos: (1) anemia megaloblástica (VCM alto + B12 baixa + ácido metilmalônico elevado) → deficiência de B12; (2) endoscopia com atrofia de corpo/fundo poupando antro + H. pylori negativo → gastrite autoimune; (3) hipergastrinemia + hiperplasia de células ECL → confirma o tipo A. A conduta é sempre: B12 parenteral + vigilância endoscópica a cada 2-3 anos + biópsia de pólipos. Se a alternativa propuser erradicação de H. pylori ou B12 oral, está errada.