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Questão de Medicina — Hematologia — FGV 2026

MedicinaHematologia
Código
fg133515
Banca
FGV
Órgão
TJ-RJ
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Analista Judiciário - Assistencial - Médico
Paciente masculino, 64 anos, apresenta febre diária há quatro semanas, fadiga intensa, perda ponderal de 7 kg e sudorese noturna. Ao exame: palidez, esplenomegalia moderada e linfadenopatia cervical.Hemograma:• hemoglobina 8,8 g/dL• leucócitos 3.100/mm³ (neutrófilos 1.300/mm³)• plaquetas 82.000/mm³.Bioquímica:• ferritina 5.200 ng/mL• triglicerídeos 420 mg/dL• fibrinogênio 1,2 g/L• LDH 1.350 U/L• AST 180 U/LSorologias:• HIV negativo• hepatites A, B e C negativas• dengue, CMV e toxoplasmose negativas• sorologia para EBV com IgG elevado e IgM negativo.Tomografia de tórax e abdômen evidencia esplenomegalia e linfonodos aumentados em região mediastinal e abdominal. Biópsia de linfonodo cervical está em processamento, diante da suspeita de doença linfoproliferativa.Considerando os achados clínicos, laboratoriais e sorológicos apresentados, conclui-se que os métodos complementares e a abordagem terapêutica apropriados são, respectivamente:
  1. Asolicitar testes para infecção granulomatosa sistêmica (pesquisa molecular para Mycobacterium tuberculosis, teste tuberculínico, cultura e baciloscopia), além de instituir quimioterapia antituberculosa;
  2. Brealizar testes diagnósticos para síndrome viral ativa por EBV (PCR quantitativa e sorologias complementares), associados ao uso de antivirais e corticoide;
  3. Csolicitar avaliação para síndrome inflamatória associada a doença autoimune por meio de FAN, anti-DNA, complemento sérico e iniciar imunossupressão com pulsoterapia;
  4. Dproceder à investigação de síndromes hemofagocíticas hereditárias com testes genéticos relacionados à função lisossomal e proteínas de citotoxicidade, além de quimioterapia citorredutora;
  5. Esolicitar dosagem de sCD25 (sIL-2R) e testes de atividade/degranulação de células NK (por citometria, ex.: CD107a), além do aspirado ou biópsia de medula óssea com pesquisa de hemofagocitose, iniciando terapia direcionada à hemofagocitose com dexametasona e etoposida.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — solicitar dosagem de sCD25 (sIL-2R) e testes de atividade/degranulação de células NK (por citometria, ex.: CD107a), além do aspirado ou biópsia de medula óssea com pesquisa de hemofagocitose, iniciando terapia direcionada à hemofagocitose com dexametasona e etoposida.

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Síndrome hemofagocítica: diagnóstico e tratamento

Gabarito: letra E. O paciente apresenta febre, perda de peso, sudorese noturna, pancitopenia, ferritina muito elevada, hipertrigliceridemia, hipofibrinogenemia e LDH elevado — um conjunto que preenche critérios para síndrome hemofagocítica (SHF), provavelmente secundária a uma doença linfoproliferativa subjacente. A conduta correta é confirmar o diagnóstico com dosagem de sCD25 (receptor solúvel de IL-2), teste de atividade/degranulação de células NK e aspirado/biópsia de medula óssea com pesquisa de hemofagocitose, e iniciar terapia específica com dexametasona e etoposida (protocolo HLH-2004).

A síndrome hemofagocítica (também chamada linfohistiocitose hemofagocítica — LHH) é uma condição grave caracterizada por ativação descontrolada do sistema imune, com proliferação de linfócitos T e macrófagos que passam a fagocitar células sanguíneas, levando a citopenias e inflamação sistêmica. Ela se divide em duas grandes formas: primária (hereditária), causada por mutações genéticas que afetam a citotoxicidade de células NK e linfócitos T citotóxicos (ex.: defeitos em perforina, MUNC13-4, etc.), e secundária (adquirida), desencadeada por infecções (EBV, CMV, HIV, bactérias), neoplasias (linfomas, leucemias) ou doenças autoimunes. No caso apresentado, a suspeita de doença linfoproliferativa (linfonodomegalia, esplenomegalia, sintomas B) e a sorologia de EBV com IgG positivo e IgM negativo (infecção passada, não aguda) apontam fortemente para SHF secundária a linfoma.

O diagnóstico da SHF é clínico-laboratorial e se baseia em critérios estabelecidos (HLH-2004). Os achados do paciente já preenchem vários deles: febre > 38,3°C, citopenias em duas ou mais linhagens (hemoglobina 8,8 g/dL, neutrófilos 1.300/mm³, plaquetas 82.000/mm³), ferritina > 500 ng/mL (aqui 5.200 ng/mL), triglicerídeos elevados (> 265 mg/dL, aqui 420 mg/dL) e fibrinogênio baixo (< 1,5 g/L, aqui 1,2 g/L). Para confirmar, são necessários os demais critérios: hemofagocitose na medula óssea, baço ou linfonodo; atividade de células NK baixa ou ausente; e sCD25 elevado (≥ 2.400 U/mL). Por isso, a alternativa E está correta ao solicitar exatamente esses exames complementares.

O tratamento da SHF, especialmente nas formas secundárias graves, segue o protocolo HLH-2004, que combina dexametasona (corticoide) e etoposida (quimioterápico), com o objetivo de suprimir a hiperinflamação e eliminar as células T ativadas. Em casos secundários a linfoma, o tratamento da neoplasia de base é fundamental, mas a terapia imediata da hemofagocitose é necessária para controlar a síndrome. A alternativa E menciona exatamente essa abordagem.

A pegadinha central desta questão é reconhecer que, apesar da suspeita de doença linfoproliferativa, o quadro clínico-laboratorial é dominado pela síndrome hemofagocítica, que exige investigação e tratamento específicos antes mesmo do resultado da biópsia do linfonodo. As demais alternativas propõem investigações e terapias para outras condições (tuberculose, EBV aguda, autoimunidade, SHF hereditária) que não se encaixam nos achados apresentados.

Critério

Alternativa A (Tuberculose)

Alternativa B (EBV ativo)

Alternativa C (Autoimune)

Alternativa D (SHF hereditária)

Alternativa E (SHF secundária)

Hipótese diagnóstica

Infecção granulomatosa (TB)

Síndrome viral ativa por EBV

Doença autoimune (ex.: lúpus)

SHF primária (genética)

SHF secundária (a linfoma)

Exames propostos

PCR TB, PPD, cultura, baciloscopia

PCR quantitativa EBV, sorologias

FAN, anti-DNA, complemento

Testes genéticos (função lisossomal, citotoxicidade)

sCD25, atividade/degranulação NK, mielograma/biópsia com hemofagocitose

Tratamento

Quimioterapia antituberculosa

Antivirais + corticoide

Imunossupressão (pulsoterapia)

Quimioterapia citorredutora

Dexametasona + etoposida (HLH-2004)

Compatibilidade com achados

Ferritina, triglicerídeos e fibrinogênio não típicos de TB

IgG+ / IgM- indica infecção passada, não ativa

Achados não típicos de colagenose; linfadenopatia sugere linfoma

SHF primária é rara em idoso; quadro sugere causa adquirida

Preenche critérios HLH-2004 (febre, citopenias, ferritina, triglicerídeos, fibrinogênio)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Sugere investigar tuberculose (granulomatose sistêmica) e iniciar quimioterapia antituberculosa. Embora a tuberculose possa causar febre, perda de peso e linfadenopatia, os achados laboratoriais são decisivos contra essa hipótese: a ferritina extremamente elevada (5.200 ng/mL), a hipertrigliceridemia e a hipofibrinogenemia são típicas de SHF, não de tuberculose. Além disso, iniciar tratamento antituberculoso empírico sem confirmação diagnóstica seria inadequado e atrasaria o tratamento da condição real.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Propõe investigar síndrome viral ativa por EBV (PCR quantitativa) e usar antivirais e corticoide. A sorologia mostra IgG elevado e IgM negativo, indicando infecção passada por EBV, não infecção aguda ou reativação. Embora o EBV seja um gatilho comum para SHF, a abordagem correta não é tratar o vírus com antivirais (ineficazes na mononucleose), mas sim tratar a síndrome hemofagocítica resultante. A alternativa confunde a causa precipitante com o tratamento da consequência.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Sugere investigar doença autoimune (FAN, anti-DNA, complemento) e iniciar imunossupressão com pulsoterapia. Embora doenças autoimunes possam causar febre e citopenias, os achados de ferritina muito elevada, hipertrigliceridemia e hipofibrinogenemia não são típicos de lúpus ou outras colagenoses. Além disso, a presença de linfadenopatia e esplenomegalia com suspeita de linfoma torna a hipótese autoimune menos provável. A pulsoterapia com corticoide isolada não é o tratamento padrão para SHF, que requer etoposida.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Propõe investigar síndromes hemofagocíticas hereditárias com testes genéticos e iniciar quimioterapia citorredutora. A SHF hereditária (primária) geralmente se manifesta na infância, com história familiar e defeitos genéticos específicos. Em um paciente de 64 anos com suspeita de linfoma, a SHF é quase certamente secundária, não hereditária. Testes genéticos para função lisossomal e proteínas de citotoxicidade seriam apropriados em crianças ou adultos jovens com SHF recorrente, não neste contexto. Além disso, "quimioterapia citorredutora" é vago e não especifica o protocolo correto (dexametasona + etoposida).

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Esta alternativa está correta porque propõe exatamente os exames necessários para confirmar SHF: dosagem de sCD25 (receptor solúvel de IL-2, um dos critérios diagnósticos), teste de atividade/degranulação de células NK (por citometria, como CD107a, que avalia a função citotóxica) e aspirado ou biópsia de medula óssea com pesquisa de hemofagocitose (o achado patológico clássico). Além disso, indica o tratamento correto com dexametasona e etoposida, conforme o protocolo HLH-2004. Esses passos são essenciais para confirmar o diagnóstico e iniciar a terapia específica, especialmente em um paciente com provável SHF secundária a linfoma.

Gabarito: letra E

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