Paciente masculino, 60 anos, procura atendimento por fadiga progressiva, tontura aos esforços e palidez há vários meses. Relata perda ponderal discreta e inapetência recente. O hemograma mostra anemia microcítica e hipocrômica (hemoglobina 8,2 g/dL; VCM 69 fL; HCM 19 pg). O esfregaço de sangue periférico evidencia anisopoiquilocitose, hipocromia acentuada e células em lápis.Valores de referência laboratoriais:• ferritina sérica 20 a 250 ng/mL• ferro sérico 60 a 170 µg/dL• TIBC 250 a 450 µg/dL• índice de saturação da transferrina (IST) 20 a 50%• reticulócitos 0,5 a 2,0%.Com base nos achados clínicos, hematológicos e do esfregaço, o conjunto de exames que melhor representa a situação descrita é:
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Anemia ferropriva: diagnóstico laboratorial
Gabarito: letra E. O quadro clínico (fadiga, tontura, palidez, perda ponderal) e o hemograma (anemia microcítica e hipocrômica, VCM 69 fL, HCM 19 pg) com esfregaço mostrando anisopoiquilocitose, hipocromia acentuada e células em lápis são clássicos de anemia ferropriva. O conjunto de exames que melhor representa essa condição é aquele com reticulócitos baixos/normais (resposta medular inadequada), ferritina sérica baixa (reservas de ferro depletadas), ferro sérico baixo, TIBC elevado (capacidade de ligação aumentada) e IST muito baixo — exatamente o padrão da alternativa E.
A anemia ferropriva é a causa mais comum de anemia microcítica e hipocrômica. Ela se desenvolve em estágios progressivos de depleção de ferro: primeiro caem as reservas (ferritina baixa), depois o ferro sérico e a saturação da transferrina, e só então a hemoglobina cai, com microcitose e hipocromia. O esfregaço de sangue periférico típico mostra anisocitose (variação de tamanho, refletida no RDW aumentado), poiquilocitose (variação de forma) e as chamadas células em lápis (eliptócitos alongados), que são um achado característico da ferropenia.
A contagem de reticulócitos é fundamental para avaliar a resposta da medula óssea. Na anemia ferropriva, a medula não consegue produzir hemácias adequadamente por falta de ferro, então a contagem de reticulócitos costuma estar normal ou baixa (não elevada), indicando resposta medular inadequada. Isso contrasta com anemias hemolíticas ou pós-hemorrágicas, onde a medula responde com reticulocitose (> 2%).
O perfil do metabolismo do ferro na anemia ferropriva é o oposto do que se vê na anemia de doença crônica. Enquanto na ferropenia a ferritina está baixa, o ferro sérico baixo, a TIBC elevada e o IST muito baixo, na anemia de doença crônica a ferritina costuma estar normal ou elevada (é um reagente de fase aguda), o ferro sérico baixo, mas a TIBC normal ou baixa, com IST variável. Essa distinção é crucial e é exatamente o que a questão explora.
A pegadinha central desta questão é reconhecer que a ferritina baixa é o marcador mais específico de depleção de ferro, e que a TIBC elevada (com IST muito baixo) é o padrão clássico da ferropenia — diferente da anemia de doença crônica, onde a TIBC costuma estar baixa. O candidato que confunde esses dois perfis acaba escolhendo uma alternativa com ferritina normal ou elevada, errando o diagnóstico.
Guarde o padrão completo: reticulócitos baixos/normais + ferritina baixa + ferro sérico baixo + TIBC alta + IST baixo = anemia ferropriva. É esse conjunto que separa a alternativa correta das demais.
Parâmetro
Anemia ferropriva (gabarito E)
Anemia de doença crônica (pegadinha B)
Reticulócitos
Baixo/normal (0,6%)
Baixo/normal
Ferritina
Baixa (30 ng/mL)
Normal/elevada (120 ng/mL)
Ferro sérico
Baixo (50 µg/dL)
Baixo (35 µg/dL)
TIBC
Elevada (420 µg/dL)
Baixa/normal (200 µg/dL)
IST
Muito baixo (12%)
Variável (17%)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Apresenta ferritina de 25 ng/mL (limítrofe, mas não claramente baixa), ferro sérico de 55 µg/dL (levemente abaixo do normal), TIBC de 250 µg/dL (no limite inferior da normalidade) e IST de 22% (normal). Esse perfil não é compatível com anemia ferropriva estabelecida: a ferritina deveria estar francamente baixa, a TIBC elevada e o IST muito reduzido. O reticulócito de 1,2% é normal, mas os demais parâmetros não fecham com ferropenia.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A ferritina de 120 ng/mL é normal, o que praticamente exclui anemia ferropriva (reservas de ferro adequadas). Além disso, a TIBC de 200 µg/dL está baixa, o que é o oposto do esperado na ferropenia (onde a TIBC aumenta). Esse perfil (ferritina normal, ferro baixo, TIBC baixa) é mais compatível com anemia de doença crônica, não com deficiência de ferro. O reticulócito de 0,4% é baixo, mas não é o achado decisivo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Todos os parâmetros estão dentro da normalidade: ferritina 180 ng/mL, ferro sérico 95 µg/dL, TIBC 300 µg/dL, IST 32% e reticulócitos 2,3%. Esse é um perfil de indivíduo sem anemia ferropriva — na verdade, a reticulocitose de 2,3% sugere resposta medular aumentada, incompatível com a anemia microcítica hipocrômica do enunciado. Não há nenhum sinal de depleção de ferro.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A ferritina de 300 ng/mL está elevada, indicando reservas de ferro abundantes — o que exclui anemia ferropriva. O ferro sérico de 150 µg/dL e o IST de 48% também são normais. Esse perfil é totalmente incompatível com o quadro descrito. A ferritina elevada pode ser vista em processos inflamatórios, mas não justifica a anemia microcítica hipocrômica com células em lápis.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Este é o conjunto clássico da anemia ferropriva: reticulócitos 0,6% (resposta medular inadequada, pois a medula não tem ferro para produzir hemácias), ferritina 30 ng/mL (baixa, indicando depleção das reservas de ferro), ferro sérico 50 µg/dL (baixo), TIBC 420 µg/dL (elevada, pois o organismo tenta aumentar a captação de ferro) e IST 12% (muito baixo, refletindo a pouca saturação da transferrina). Todos os parâmetros convergem para o diagnóstico de anemia ferropriva, confirmando o quadro clínico e hematológico apresentado.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre anemia ferropriva e anemia de doença crônica. Na ferropenia, a TIBC está elevada e a ferritina baixa; na doença crônica, a TIBC está baixa/normal e a ferritina normal/elevada. A alternativa B inverte exatamente esse padrão (ferritina normal, TIBC baixa) para induzir o erro. Fique atento: ferritina baixa + TIBC alta é o selo da deficiência de ferro.
PEGA ESSA DICA!
Para memorizar o perfil da anemia ferropriva, lembre do mnemônico "F-B-T-I": Ferritina baixa, ferro sérico Baixo, TIBC alta, IST baixo. E compare sempre com a anemia de doença crônica: ferritina normal/alta, ferro baixo, TIBC baixa/normal. Na prova, se a ferritina estiver normal ou elevada, a ferropenia está praticamente excluída.