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Questão de Português — Interpretação de Textos — FGV 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
fg134318
Banca
FGV
Órgão
AL-RO
Ano
2026
Nível
Médio
ATENÇÃO: O texto a seguir se refere à questão.


'Quer adressar?', me perguntou a moça


         De início não entendi o verbo cravado no coração da frase e, usando o etarismo a meu favor, pedi graciosamente, por favor, que a moça repetisse.

          O cenário era a loja de um shopping no Leblon, onde eu negociava com ela, vendedora educadíssima, os últimos detalhes da compra de um produto volumoso que, sem carro, eu não podia levar naquele momento. Foram necessárias três repetições da frase até que – como se falava no tempo do orelhão, quando o português era ouvido por aqui – a ficha caiu:

     “Eu posso adressar o produto?”, era o que perguntava a moça, fazendo-se finalmente entender. A moça queria ostentar na fala o mesmo padrão internacional do shopping.

      A pureza vernacular não linka com a minha prosa vadia de cronista. A ideia aqui é mexer com a língua, roçar na de Luís de Camões e – como o tamanduá esticando a dele para pegar as formigas – tirar prazer disso. Para manter o emprego, equilibro num parágrafo as ordens do manual de redação – exibindo às vezes uma mesóclise de polainas – e já no parágrafo seguinte caio de boca – com o piercing no lábio inferior – no saboreio do último barbarismo ouvido na esquina. Nada a ver com os rigores de um professor de português. O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado.

    A propósito. Preciso dizer que quando eu, cliente, finalmente entendi o que a moça na loja do shopping queria dizer com a proposta de “adressar” a compra, eu aquiesci jovial – e me fiz up to date:


      “Sim, por favor, adressa, sim”.


(Trecho adaptado da crônica de Joaquim Ferreira dos Santos, publicada em “O Globo”.)
Assinale a frase, retirada do texto, que apresenta intertextualidade com outra frase conhecida, considerada como um ditado popular.
  1. ANada a ver com os rigores de um professor de português.
  2. B(...) pedi graciosamente, por favor, que a moça repetisse.
  3. C(...) como se falava no tempo do orelhão, quando o português era ouvido por aqui.
  4. DO target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado.
  5. EA moça queria ostentar na fala o mesmo padrão internacional do shopping.
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GabaritoD — O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Intertextualidade com ditado popular – FGV 2026

Gabarito: letra D. A única frase que estabelece intertextualidade com um ditado popular é a alternativa D: "O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado." O autor parodia o conhecido ditado "meter o nariz onde não é chamado" (ou "meter a colher..."), substituindo o termo por "língua", criando uma referência irônica ao próprio ofício de escrever. As demais alternativas não se apoiam em nenhum ditado consagrado.

"[...] mas meter a língua onde não se foi chamado."

O trecho faz eco direto à sabedoria popular, adaptando-a ao contexto da crônica. Intertextualidade se caracteriza por essa remissão a outro texto – aqui, um ditado oral anônimo.

Alternativa A — ❌ Incorreta

"Nada a ver com os rigores de um professor de português." A frase apenas nega relação com o universo do professor, sem remeter a nenhum ditado popular. Erro: troca de conceito – não há intertextualidade.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"pedi graciosamente, por favor, que a moça repetisse." Descrição do narrador; nenhum eco de ditado. Erro: troca de conceito – intertextualidade ausente.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"como se falava no tempo do orelhão, quando o português era ouvido por aqui." Há uma comparação com o passado („tempo do orelhão”), mas não se trata de um ditado popular – é uma expressão coloquial, não um texto consagrado. Erro: troca de conceito – não atende ao critério de intertextualidade com ditado.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado." Conforme demonstrado, "meter a língua onde não se foi chamado" é uma variação do ditado popular "meter o nariz onde não é chamado”. A banca considerou essa intertextualidade explícita.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"A moça queria ostentar na fala o mesmo padrão internacional do shopping." Não há referência a nenhum ditado. Erro: troca de conceito – intertextualidade ausente.

Gabarito: letra D.

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