Questão de Português — Interpretação de Textos — FGV 2026
Português›Interpretação de Textos
Código
fg134319
Banca
FGV
Órgão
AL-RO
Ano
2026
Nível
Médio
ATENÇÃO: O texto a seguir se refere à questão.
'Quer adressar?', me perguntou a moça
De início não entendi o verbo cravado no coração da frase e,
usando o etarismo a meu favor, pedi graciosamente, por favor,
que a moça repetisse.
O cenário era a loja de um shopping no Leblon, onde eu
negociava com ela, vendedora educadíssima, os últimos detalhes
da compra de um produto volumoso que, sem carro, eu não
podia levar naquele momento. Foram necessárias três repetições
da frase até que – como se falava no tempo do orelhão, quando o
português era ouvido por aqui – a ficha caiu:
“Eu posso adressar o produto?”, era o que perguntava a
moça, fazendo-se finalmente entender. A moça queria ostentar
na fala o mesmo padrão internacional do shopping.
A pureza vernacular não linka com a minha prosa vadia de
cronista. A ideia aqui é mexer com a língua, roçar na de Luís de
Camões e – como o tamanduá esticando a dele para pegar as
formigas – tirar prazer disso. Para manter o emprego, equilibro
num parágrafo as ordens do manual de redação – exibindo às
vezes uma mesóclise de polainas – e já no parágrafo seguinte caio
de boca – com o piercing no lábio inferior – no saboreio do último
barbarismo ouvido na esquina. Nada a ver com os rigores de um
professor de português. O target não é preparar o leitor para a
nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado.
A propósito. Preciso dizer que quando eu, cliente, finalmente
entendi o que a moça na loja do shopping queria dizer com a
proposta de “adressar” a compra, eu aquiesci jovial – e me fiz
up to date:
“Sim, por favor, adressa, sim”.
(Trecho adaptado da crônica de Joaquim Ferreira dos Santos,
publicada em “O Globo”.)
Em relação ao texto, assinale a afirmativa correta.
AA crítica ao emprego do verbo adressar advém do repúdio do autor a palavras que infrinjam a pureza vernacular.
BEm “exibindo às vezes uma mesóclise de polainas”, o autor reconhece que a mesóclise deve ser utilizada com frequência na linguagem escrita.
CPara tirar a nota mil do Enem, o estudante deve obedecer rigorosamente à norma culta e evitar estrangeirismos e neologismos, o que não é o caso do autor, que é mais liberal nesse sentido.
DOs rigores de um professor de português nada têm a ver com as normas gramaticais de um Manual de Redação.
EEm “como se falava no tempo do orelhão, quando o português era ouvido por aqui” o autor externa ironicamente sua exaltação à linguagem do passado e sua crítica à linguagem falada no presente.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoC — Para tirar a nota mil do Enem, o estudante deve obedecer rigorosamente à norma culta e evitar estrangeirismos e neologismos, o que não é o caso do autor, que é mais liberal nesse sentido.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Interpretação de Crônica – FGV 2026
Gabarito: letra C. A afirmativa C é a única inteiramente sustentada pelo texto: o autor afirma que seu objetivo não é preparar para o Enem, que exige rigor gramatical, enquanto ele adota uma postura mais liberal com a língua.
A chave da questão está no comando “assinale a afirmativa correta” — exige COMPREENSÃO, não inferência. Portanto, a resposta deve estar literal ou parafraseada no texto. Exploremos cada alternativa.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A) “A crítica ao emprego do verbo adressar advém do repúdio do autor a palavras que infrinjam a pureza vernacular.”
O texto não critica o uso do verbo; ao contrário, o autor o aceita e o repete: “Sim, por favor, adressa, sim”. Além disso, ele escreve: “A pureza vernacular não linka com a minha prosa vadia de cronista”. Logo, ele não defende a pureza vernacular.
NÃO CAIA NESSA!
Extrapolação — atribui ao autor uma opinião purista que ele explicitamente rejeita.
Alternativa B — ❌ Incorreta
B) “Em ‘exibindo às vezes uma mesóclise de polainas’, o autor reconhece que a mesóclise deve ser utilizada com frequência na linguagem escrita.”
O trecho diz “exibindo às vezes uma mesóclise de polainas” — “às vezes” indica ocasionalmente, não “com frequência”. A expressão é irônica e não prescritiva; o autor não defende o uso frequente da mesóclise.
PEGA ESSA DICA!
Desconfie de palavras absolutas ou que distorcem o advérbio original.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
C) “Para tirar a nota mil do Enem, o estudante deve obedecer rigorosamente à norma culta e evitar estrangeirismos e neologismos, o que não é o caso do autor, que é mais liberal nesse sentido.”
O texto afirma: “O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem, mas meter a língua onde não se foi chamado”. Isso pressupõe que para o Enem seria necessário seguir regras (como as de um professor de português), enquanto o autor admite sua liberdade. A passagem seguinte menciona os “rigores de um professor de português” e o manual de redação, contrapondo-os à sua própria prática.
“Nada a ver com os rigores de um professor de português. O target não é preparar o leitor para a nota mil do Enem”
Portanto, a alternativa é uma paráfrase fiel: o Enem exige obediência à norma culta; o autor não segue essa rigidez.
Alternativa D — ❌ Incorreta
D) “Os rigores de um professor de português nada têm a ver com as normas gramaticais de um Manual de Redação.”
O texto diz “equilibro num parágrafo as ordens do manual de redação” e, logo após, “Nada a ver com os rigores de um professor de português”. O autor aproxima os dois ao mostrar que ele mesmo lida com ambos, mas não afirma que são independentes. A alternativa força uma separação que o texto não estabelece; é uma interpretação equivocada.
NÃO CAIA NESSA!
O leitor pode confundir a expressão “nada a ver” — ela se refere ao autor com o professor, não à relação entre os conceitos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
E) “Em ‘como se falava no tempo do orelhão, quando o português era ouvido por aqui’ o autor externa ironicamente sua exaltação à linguagem do passado e sua crítica à linguagem falada no presente.”
O trecho é uma comparação para descrever a dificuldade de entender a moça; não há exaltação ao passado nem crítica ao presente. O próprio autor, ao final, aceita e usa o termo “adressar”, mostrando que não despreza a fala contemporânea. A ironia pode existir, mas não no sentido de exaltação ou crítica contundente; é uma leitura exagerada.
PEGA ESSA DICA!
Cuidado com inferências não autorizadas — o texto não sustenta juízo de valor sobre passado/presente.
Conclusão: apenas a alternativa C se apoia em passagens claras do texto, sendo a correta. Gabarito: letra C.