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Questão de Português — Pontuação — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsPontuação
Código
gp001394
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
FUNPRESP-JUD
Ano
2026
Cargo
Analista - Especialidade: Administração, Governança e Planejamento

        O agrupamento das pessoas em classes sociais não é, ao contrário do que alguns pensam, "apenas uma decisão técnica como outra qualquer". Como tudo no estudo da desigualdade, esse agrupamento reflete decisões políticas, ainda que elas não sejam explícitas. E não é sem razão: a escolha da identificação de classes de uma forma específica tem implicações concretas. O problema não está apenas na terminologia usada, está também na forma como as classes são definidas.

        Quem não consegue entender isso pode fazer um exercício simples: identifique pobres como uma classe; considere que quase todo mundo queira erradicar a pobreza; que quase todo mundo queira saber melhor o que é preciso para tanto; defina como pobre 0,1% da população; nesse caso, que medida erradicaria a pobreza? Caridade privada seria suficiente; agora defina como pobre 99,9% da população. A medida recomendada seria uma revolução.

        Conclui-se desse exercício que a forma como pesquisas dividem a sociedade em classes tem implicações práticas, pois pesquisa em desigualdade é usada para definir políticas. Quando se coloca uma pessoa numa classe, a tendência é que essa pessoa passe a ser vista como todas as demais pessoas que estão naquela classe e, em alguns casos, passe a ser tratada do mesmo modo pelas políticas.

        Qual é a diferença substantiva entre uma pessoa um centavo abaixo da linha de renda que define os benefícios de assistência social e outra um centavo acima? Em renda, irrelevante, mas a classificação elegível e não elegível tem impactos concretos na vida das pessoas. Elas passam ou não pelo buraco da agulha dos critérios de elegibilidade de programas sociais. Alguns programas chegam a ser desenhados com base em classes, por isso o assunto não é apenas um detalhe acadêmico.


Marcelo Medeiros. Os ricos e os pobres. São Paulo: Companhia das Letras, 2023 

(com adaptações). 

Julgue o item a seguir, relativo às ideias e a aspectos linguísticos do texto precedente.O uso das aspas no primeiro parágrafo indica umafastamento do autor da ideia transmitida no trecho por elasdelimitado.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Uso das aspas e afastamento do autor — Gabarito: C (CERTO).

CERTO. O item afirma que as aspas no primeiro parágrafo indicam afastamento do autor da ideia transmitida no trecho delimitado. Isso está correto: o autor coloca a expressão "apenas uma decisão técnica como outra qualquer" entre aspas para marcar distância em relação a essa ideia, que ele não endossa — pelo contrário, ele a refuta logo em seguida. A passagem que prova isso é:

"O agrupamento das pessoas em classes sociais não é, ao contrário do que alguns pensam, 'apenas uma decisão técnica como outra qualquer'."

O trecho entre aspas é apresentado como uma opinião alheia ("do que alguns pensam"), e o autor a contesta com a negação "não é" e com a expressão "ao contrário". As aspas, aqui, têm função metalinguística/distanciadora: sinalizam que o autor cita uma ideia para criticá-la, não para assumi-la. Portanto, o item está certo.

Desenvolvimento: o que as aspas fazem no texto

As aspas têm múltiplas funções: citação literal, destaque de estrangeirismo/neologismo, ironia, e afastamento do autor em relação ao termo aspeado. Neste caso, a função é exatamente a de distanciamento crítico: o autor não concorda com a ideia de que o agrupamento em classes seja "apenas uma decisão técnica". Ele a rejeita com a negação "não é" e a contrapõe com a tese de que esse agrupamento "reflete decisões políticas".

Observe a estrutura do período:

  • "não é" — negação explícita;

  • "ao contrário do que alguns pensam" — marca que a ideia é de terceiros;

  • "'apenas uma decisão técnica como outra qualquer'" — a ideia aspeada que o autor não subscreve.

As aspas, portanto, isolam a opinião de "alguns" para que o autor possa distanciar-se dela. Se o autor concordasse, não haveria necessidade de aspas nem de negação. A banca cobra exatamente essa leitura contextual do sinal de pontuação.

Por que as outras interpretações falham

  • Não é citação de fala literal: não há indicação de discurso direto de uma pessoa específica; é uma ideia genérica atribuída a "alguns".

  • Não é ironia: o autor não usa as aspas para zombar ou inverter o sentido; ele apenas marca distância e refuta a ideia.

  • Não é destaque de estrangeirismo/neologismo: a expressão é comum, não técnica nem estrangeira.

A função é exclusivamente a de afastamento — e é isso que o item afirma.

NÃO CAIA NESSA!

A banca testa se o candidato reconhece a função distanciadora das aspas, em vez de pensar apenas em "citação". A chave é o contexto: o autor nega a ideia aspeada, logo, ele se afasta dela.

PEGA ESSA DICA!

Ao ver aspas, pergunte: o autor concorda com o que está entre aspas? Se ele nega ou critica, as aspas indicam afastamento. Se ele transcreve uma fala, indicam citação literal.

Gabarito: letra C (CERTO).

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