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Questão de Português — Pontuação — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsPontuação
Código
gp001395
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
FUNPRESP-JUD
Ano
2026
Cargo
Analista - Especialidade: Administração, Governança e Planejamento

        O agrupamento das pessoas em classes sociais não é, ao contrário do que alguns pensam, "apenas uma decisão técnica como outra qualquer". Como tudo no estudo da desigualdade, esse agrupamento reflete decisões políticas, ainda que elas não sejam explícitas. E não é sem razão: a escolha da identificação de classes de uma forma específica tem implicações concretas. O problema não está apenas na terminologia usada, está também na forma como as classes são definidas.

        Quem não consegue entender isso pode fazer um exercício simples: identifique pobres como uma classe; considere que quase todo mundo queira erradicar a pobreza; que quase todo mundo queira saber melhor o que é preciso para tanto; defina como pobre 0,1% da população; nesse caso, que medida erradicaria a pobreza? Caridade privada seria suficiente; agora defina como pobre 99,9% da população. A medida recomendada seria uma revolução.

        Conclui-se desse exercício que a forma como pesquisas dividem a sociedade em classes tem implicações práticas, pois pesquisa em desigualdade é usada para definir políticas. Quando se coloca uma pessoa numa classe, a tendência é que essa pessoa passe a ser vista como todas as demais pessoas que estão naquela classe e, em alguns casos, passe a ser tratada do mesmo modo pelas políticas.

        Qual é a diferença substantiva entre uma pessoa um centavo abaixo da linha de renda que define os benefícios de assistência social e outra um centavo acima? Em renda, irrelevante, mas a classificação elegível e não elegível tem impactos concretos na vida das pessoas. Elas passam ou não pelo buraco da agulha dos critérios de elegibilidade de programas sociais. Alguns programas chegam a ser desenhados com base em classes, por isso o assunto não é apenas um detalhe acadêmico.


Marcelo Medeiros. Os ricos e os pobres. São Paulo: Companhia das Letras, 2023 

(com adaptações). 

Julgue o item a seguir, relativo às ideias e a aspectos linguísticos do texto precedente.No trecho "Em renda, irrelevante" (segundo período doúltimo parágrafo), a vírgula é empregada para indicar umaelipse.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Vírgula indicando elipse em "Em renda, irrelevante"

Gabarito: C — CERTO. A vírgula em "Em renda, irrelevante" marca a elipse do verbo "é" (ou da locução "é irrelevante"), pois o termo "irrelevante" é um predicativo do sujeito que ficou subentendido. A frase completa seria: "Em renda, [a diferença] é irrelevante". A vírgula sinaliza exatamente essa omissão, como se lê no trecho do último parágrafo: "Em renda, irrelevante, mas a classificação elegível e não elegível tem impactos concretos na vida das pessoas."

A questão pede um julgamento sobre aspectos linguísticos — especificamente sobre a função da vírgula. Trata-se de uma análise gramatical (não de interpretação de ideias), e a resposta está na própria estrutura do período: a vírgula substitui o verbo que foi omitido, fenômeno conhecido como elipse (ou zeugma, quando o termo omitido já apareceu antes).

O que é elipse e como a vírgula a sinaliza

Elipse é a omissão de um termo que pode ser facilmente recuperado pelo contexto — não é um erro, é um recurso de coesão. Quando a omissão ocorre dentro de uma estrutura paralela, a vírgula costuma marcar o lugar do termo suprimido. Exemplo clássico:

Ela gosta de filmes românticos; ele, de ação. (= ele gosta de ação)

No trecho do texto, a estrutura é semelhante:

"Em renda, irrelevante, mas a classificação elegível e não elegível tem impactos concretos na vida das pessoas."

O sujeito "a diferença" (retomado do período anterior: "Qual é a diferença substantiva entre uma pessoa um centavo abaixo... e outra um centavo acima?") e o verbo "é" foram omitidos. A leitura completa seria: "Em renda, [a diferença] é irrelevante". A vírgula após "renda" não separa um adjunto adverbial comum — ela marca a supressão do verbo, que é justamente o que a elipse faz.

Por que a vírgula não tem outra função aqui

  • Não separa sujeito de verbo (não há verbo expresso).

  • Não isola um aposto ou vocativo (não há termo explicativo ou chamamento).

  • Não separa orações coordenadas (não há verbo na primeira parte).

A única leitura coerente é a de elipse do verbo "é", e a vírgula é o sinal gráfico que materializa essa omissão. A banca explora exatamente esse uso: a vírgula como marcador de elipse, e não como mera pausa.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens sobre pontuação, pergunte-se: "que termo foi omitido aqui?" Se a vírgula substitui um verbo ou um termo que o contexto permite recuperar, trata-se de elipse/zeugma. Desconfie de explicações que tratem a vírgula como simples pausa respiratória.

Conclusão

O item está CERTO: a vírgula em "Em renda, irrelevante" indica a elipse do verbo "é" (e do sujeito "a diferença"), recurso coesivo que evita repetição e mantém a fluidez do texto.

Gabarito: letra C.

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