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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
gp001396
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
FUNPRESP-JUD
Ano
2026
Cargo
Analista - Especialidade: Administração, Governança e Planejamento

        O agrupamento das pessoas em classes sociais não é, ao contrário do que alguns pensam, "apenas uma decisão técnica como outra qualquer". Como tudo no estudo da desigualdade, esse agrupamento reflete decisões políticas, ainda que elas não sejam explícitas. E não é sem razão: a escolha da identificação de classes de uma forma específica tem implicações concretas. O problema não está apenas na terminologia usada, está também na forma como as classes são definidas.

        Quem não consegue entender isso pode fazer um exercício simples: identifique pobres como uma classe; considere que quase todo mundo queira erradicar a pobreza; que quase todo mundo queira saber melhor o que é preciso para tanto; defina como pobre 0,1% da população; nesse caso, que medida erradicaria a pobreza? Caridade privada seria suficiente; agora defina como pobre 99,9% da população. A medida recomendada seria uma revolução.

        Conclui-se desse exercício que a forma como pesquisas dividem a sociedade em classes tem implicações práticas, pois pesquisa em desigualdade é usada para definir políticas. Quando se coloca uma pessoa numa classe, a tendência é que essa pessoa passe a ser vista como todas as demais pessoas que estão naquela classe e, em alguns casos, passe a ser tratada do mesmo modo pelas políticas.

        Qual é a diferença substantiva entre uma pessoa um centavo abaixo da linha de renda que define os benefícios de assistência social e outra um centavo acima? Em renda, irrelevante, mas a classificação elegível e não elegível tem impactos concretos na vida das pessoas. Elas passam ou não pelo buraco da agulha dos critérios de elegibilidade de programas sociais. Alguns programas chegam a ser desenhados com base em classes, por isso o assunto não é apenas um detalhe acadêmico.


Marcelo Medeiros. Os ricos e os pobres. São Paulo: Companhia das Letras, 2023 

(com adaptações). 

Julgue o item a seguir, relativo às ideias e a aspectos linguísticos do texto precedente.Infere-se do texto que o agrupamento de pessoas em classessociais não é útil para a sociedade, pois resulta em políticaspúblicas injustas.
  1. CCerto
  2. EErrado
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Agrupamento em classes sociais e políticas públicas — Gabarito: ERRADO (E)

❌ ERRADO. A afirmativa de que o agrupamento em classes sociais "não é útil para a sociedade, pois resulta em políticas públicas injustas" extrapola o texto: o autor não diz que o agrupamento é inútil nem que as políticas são injustas. Pelo contrário, o texto afirma que a forma de classificar "tem implicações práticas" e que "pesquisa em desigualdade é usada para definir políticas" — ou seja, o agrupamento é útil e relevante, ainda que suas consequências possam ser problemáticas. A passagem que ancora a refutação está no 3º parágrafo:

"Conclui-se desse exercício que a forma como pesquisas dividem a sociedade em classes tem implicações práticas, pois pesquisa em desigualdade é usada para definir políticas."

O texto reconhece que a classificação "tem impactos concretos na vida das pessoas" (4º parágrafo), mas isso não autoriza a conclusão de que seja "inútil" ou que gere "políticas injustas". A afirmativa inverte o juízo do autor: ele critica a forma como as classes são definidas, não a existência do agrupamento em si.

Análise da afirmativa

A afirmativa contém três desvios em relação ao texto:

  1. "não é útil para a sociedade" — o texto diz o oposto: a classificação "tem implicações práticas" e é usada para "definir políticas". O autor não a considera inútil; ele a considera importante justamente por suas consequências.

  1. "resulta em políticas públicas injustas" — o texto menciona que a classificação pode levar a tratamentos diferenciados ("passe a ser tratada do mesmo modo pelas políticas"), mas não qualifica essas políticas como injustas. O autor não emite juízo de valor sobre a justiça ou injustiça; ele apenas constata os efeitos práticos.

  1. Relação de causa e consequência — a afirmativa estabelece uma relação causal ("pois resulta em políticas injustas") que o texto não sustenta. O texto diz que a classificação "tem implicações práticas", mas não afirma que essas implicações sejam injustas.

Por que a afirmativa é ERRADA

O comando pede uma inferência ("Infere-se do texto"), mas a afirmativa extrapola o que o texto permite concluir. Uma inferência legítima deve se apoiar em pistas textuais; aqui, a conclusão de "inutilidade" e "injustiça" não tem base no texto — é uma opinião pessoal do candidato ou do examinador, não uma dedução ancorada.

O texto, na verdade, valoriza o estudo das classes sociais, pois mostra que a forma de classificar afeta diretamente a vida das pessoas ("Elas passam ou não pelo buraco da agulha dos critérios de elegibilidade de programas sociais"). Isso indica que o agrupamento é relevante e útil para a análise da desigualdade, ainda que suas definições possam ser problemáticas.

Conclusão

A afirmativa contradiz a tese central do texto, que é a de que a classificação em classes tem implicações práticas e políticas — não que seja inútil ou injusta. Portanto, o item está ERRADO.

Gabarito: letra E (ERRADO).

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