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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
gp001397
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
FUNPRESP-JUD
Ano
2026
Cargo
Analista - Especialidade: Administração, Governança e Planejamento

        O agrupamento das pessoas em classes sociais não é, ao contrário do que alguns pensam, "apenas uma decisão técnica como outra qualquer". Como tudo no estudo da desigualdade, esse agrupamento reflete decisões políticas, ainda que elas não sejam explícitas. E não é sem razão: a escolha da identificação de classes de uma forma específica tem implicações concretas. O problema não está apenas na terminologia usada, está também na forma como as classes são definidas.

        Quem não consegue entender isso pode fazer um exercício simples: identifique pobres como uma classe; considere que quase todo mundo queira erradicar a pobreza; que quase todo mundo queira saber melhor o que é preciso para tanto; defina como pobre 0,1% da população; nesse caso, que medida erradicaria a pobreza? Caridade privada seria suficiente; agora defina como pobre 99,9% da população. A medida recomendada seria uma revolução.

        Conclui-se desse exercício que a forma como pesquisas dividem a sociedade em classes tem implicações práticas, pois pesquisa em desigualdade é usada para definir políticas. Quando se coloca uma pessoa numa classe, a tendência é que essa pessoa passe a ser vista como todas as demais pessoas que estão naquela classe e, em alguns casos, passe a ser tratada do mesmo modo pelas políticas.

        Qual é a diferença substantiva entre uma pessoa um centavo abaixo da linha de renda que define os benefícios de assistência social e outra um centavo acima? Em renda, irrelevante, mas a classificação elegível e não elegível tem impactos concretos na vida das pessoas. Elas passam ou não pelo buraco da agulha dos critérios de elegibilidade de programas sociais. Alguns programas chegam a ser desenhados com base em classes, por isso o assunto não é apenas um detalhe acadêmico.


Marcelo Medeiros. Os ricos e os pobres. São Paulo: Companhia das Letras, 2023 

(com adaptações). 

Julgue o item a seguir, relativo às ideias e a aspectoslinguísticos do texto precedente.Quanto à tipologia, o texto classifica-se como injuntivo, poisinstrui o leitor a realizar pesquisa sobre as diversasimplicações do agrupamento de pessoas em classes sociais.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Tipologia textual: injuntivo × dissertativo-argumentativo

Gabarito: E (ERRADO). O item afirma que o texto é injuntivo porque "instrui o leitor a realizar pesquisa sobre as diversas implicações do agrupamento de pessoas em classes sociais". Essa classificação está equivocada: o texto de Marcelo Medeiros é dissertativo-argumentativo, pois defende uma tese (a definição de classes sociais é uma decisão política com implicações práticas) e a sustenta com argumentos e um exercício hipotético — não com instruções diretas ao leitor. A passagem que comprova a tese está no 1º parágrafo:

"Como tudo no estudo da desigualdade, esse agrupamento reflete decisões políticas, ainda que elas não sejam explícitas."

O texto não tem a finalidade de instruir o leitor a fazer pesquisa; ele argumenta para convencê-lo de um ponto de vista. O verbo "identifique" (2º parágrafo) é apenas um recurso retórico de um exercício mental, não uma ordem para o leitor executar uma tarefa.

O que caracteriza cada tipologia

  • Injuntivo (instrucional/prescritivo): visa dar instruções, ordens, conselhos ou prescrever procedimentos. Usa verbos no imperativo e tem sequência lógica de etapas. Ex.: bulas, manuais, receitas.

  • Dissertativo-argumentativo: expõe uma tese e a defende com argumentos, buscando persuadir o leitor. Estrutura típica: introdução (tese), desenvolvimento (argumentos), conclusão.

Análise do texto

O texto apresenta:

  • Tese: a forma de classificar as pessoas em classes sociais é uma decisão política, não meramente técnica.

  • Argumentos: o exercício hipotético (definir pobre como 0,1% ou 99,9% da população muda a medida recomendada) e o exemplo da linha de renda (um centavo acima/abaixo define elegibilidade).

  • Conclusão: a classificação tem "implicações práticas" e "impactos concretos na vida das pessoas".

Não há imperativos dirigidos ao leitor como ordem de execução. O "identifique" do 2º parágrafo é parte de um experimento mental para ilustrar a tese, não uma instrução de como fazer uma pesquisa.

Por que a assertiva está errada

A assertiva comete dois erros:

  1. Classifica o texto como injuntivo, quando ele é dissertativo-argumentativo.

  2. Afirma que o texto instrui o leitor a realizar pesquisa, o que não ocorre — o texto apenas sugere um exercício mental para demonstrar um ponto.

Critério

Texto Injuntivo

Texto Dissertativo-Argumentativo

Finalidade

Instruir, prescrever procedimentos

Convencer, persuadir o leitor

Estrutura

Sequência lógica de etapas

Tese + argumentos + conclusão

Verbo predominante

Imperativo (ordens)

Presente do indicativo (exposição)

Exemplo típico

Manual, bula, receita

Artigo de opinião, ensaio

Relação com o leitor

Comando direto

Diálogo argumentativo

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta confundir o recurso retórico (o exercício hipotético com "identifique") com a finalidade do texto. O texto não é uma instrução; é uma argumentação.

PEGA ESSA DICA!

Para identificar a tipologia, pergunte: qual é a intenção do autor? Se ele quer convencer → argumentativo; se quer ensinar a fazer → injuntivo. O conteúdo predomina sobre a forma.

Gabarito: letra E (ERRADO).

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