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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
gp001408
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
FUNPRESP-JUD
Ano
2026
Cargo
Advogado

        O agrupamento das pessoas em classes sociais não é, ao contrário do que alguns pensam, "apenas uma decisão técnica como outra qualquer". Como tudo no estudo da desigualdade, esse agrupamento reflete decisões políticas, ainda que elas não sejam explícitas. E não é sem razão: a escolha da identificação de classes de uma forma específica tem implicações concretas. O problema não está apenas na terminologia usada, está também na forma como as classes são definidas.

        Quem não consegue entender isso pode fazer um exercício simples: identifique pobres como uma classe; considere que quase todo mundo queira erradicar a pobreza; que quase todo mundo queira saber melhor o que é preciso para tanto; defina como pobre 0,1% da população; nesse caso, que medida erradicaria a pobreza? Caridade privada seria suficiente; agora defina como pobre 99,9% da população. A medida recomendada seria uma revolução.

        Conclui-se desse exercício que a forma como pesquisas dividem a sociedade em classes tem implicações práticas, pois pesquisa em desigualdade é usada para definir políticas. Quando se coloca uma pessoa numa classe, a tendência é que essa pessoa passe a ser vista como todas as demais pessoas que estão naquela classe e, em alguns casos, passe a ser tratada do mesmo modo pelas políticas.

        Qual é a diferença substantiva entre uma pessoa um centavo abaixo da linha de renda que define os benefícios de assistência social e outra um centavo acima? Em renda, irrelevante, mas a classificação elegível e não elegível tem impactos concretos na vida das pessoas. Elas passam ou não pelo buraco da agulha dos critérios de elegibilidade de programas sociais. Alguns programas chegam a ser desenhados com base em classes, por isso o assunto não é apenas um detalhe acadêmico.


Marcelo Medeiros. Os ricos e os pobres. São Paulo: Companhia das Letras, 2023 

(com adaptações). 

Julgue o item a seguir, relativo às ideias e a aspectos linguísticos do texto precedente.


No período "O problema não está apenas na terminologia usada, está também na forma como as classes são definidas." (final do primeiro parágrafo), a substituição da segunda ocorrência da forma verbal "está" por mas alteraria o sentido estabelecido na coordenação das duas primeiras orações — o sentido de adição passaria a oposição. 

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Substituição de "está" por "mas" e a relação de coordenação

Gabarito: ERRADO (E). A substituição da segunda ocorrência de "está" por "mas" não alteraria o sentido de adição para oposição, porque o período original já expressa uma oposição (ou, mais precisamente, uma retificação/ressalva), e não uma simples adição. A passagem que decide a questão é:

"O problema não está apenas na terminologia usada, está também na forma como as classes são definidas."

A conjunção "mas" apenas explicitaria essa oposição que já está implícita na estrutura "não apenas... mas também". Portanto, o item está errado.

Análise do período original

O trecho "não está apenas na terminologia usada, está também na forma como as classes são definidas" apresenta a estrutura correlativa "não apenas... mas também" (aqui, com elipse do "mas"). Essa estrutura é clássica para expressar adição com valor de retificação: o segundo membro acrescenta uma informação que complementa e, ao mesmo tempo, corrige/amplia o primeiro. Veja:

  • "não apenas na terminologia" → nega uma limitação;

  • "está também na forma" → acrescenta outro elemento, mas com um matiz de oposição/ressalva em relação à ideia de que o problema seria só terminológico.

A conjunção "mas" (adversativa) introduz justamente essa quebra de expectativa: o leitor esperaria que o problema fosse só terminológico, e o texto diz que não, que há também a definição. Logo, o sentido de oposição já está presente no original, ainda que de forma implícita.

O que a substituição faria

Se substituíssemos o segundo "está" por "mas", teríamos:

"O problema não está apenas na terminologia usada, mas também na forma como as classes são definidas."

Essa reescrita é gramaticalmente correta e mantém o sentido original. A conjunção "mas" apenas torna explícita a relação de oposição/retificação que já existia. Não há mudança de adição para oposição, porque o original não era uma adição pura — era uma adição com valor de retificação, que é exatamente o que "mas" marca.

Por que a banca considerou errado

A banca queria que o candidato percebesse que a relação semântica não mudaria com a troca. O item afirma que "o sentido de adição passaria a oposição", mas isso é falso: o sentido de oposição já está lá. A substituição apenas explicita o que já estava implícito.

1Adição com retificação
Oposição já implícita
Segundo membro corrige/amplia
2Substituição por "mas"
Mantém o sentido
Apenas explicita a oposição
3Adição pura (e, nem)
Não é o caso do período
Relação "não apenas... mas também"
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Relação "não apenas... mas também": Adição com retificação (Oposição já implícita, Segundo membro corrige/amplia); Substituição por "mas" (Mantém o sentido, Apenas explicita a oposição); Adição pura (e, nem) (Não é o caso do período)
NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre adição pura (e, nem) e adição com retificação (não apenas... mas também). O candidato que não reconhece o valor de oposição implícito na estrutura correlativa marca "Certo", mas a troca não altera o sentido.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens de "substituição sem alteração de sentido", pergunte-se: a relação semântica já existia antes? Se sim, a troca apenas a torna explícita — não há mudança. Grife conectivos e estruturas correlativas (não só... mas também, tanto... quanto, ou... ou).

Gabarito: letra E (ERRADO).

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