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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
gp001409
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
FUNPRESP-JUD
Ano
2026
Cargo
Advogado

        O agrupamento das pessoas em classes sociais não é, ao contrário do que alguns pensam, "apenas uma decisão técnica como outra qualquer". Como tudo no estudo da desigualdade, esse agrupamento reflete decisões políticas, ainda que elas não sejam explícitas. E não é sem razão: a escolha da identificação de classes de uma forma específica tem implicações concretas. O problema não está apenas na terminologia usada, está também na forma como as classes são definidas.

        Quem não consegue entender isso pode fazer um exercício simples: identifique pobres como uma classe; considere que quase todo mundo queira erradicar a pobreza; que quase todo mundo queira saber melhor o que é preciso para tanto; defina como pobre 0,1% da população; nesse caso, que medida erradicaria a pobreza? Caridade privada seria suficiente; agora defina como pobre 99,9% da população. A medida recomendada seria uma revolução.

        Conclui-se desse exercício que a forma como pesquisas dividem a sociedade em classes tem implicações práticas, pois pesquisa em desigualdade é usada para definir políticas. Quando se coloca uma pessoa numa classe, a tendência é que essa pessoa passe a ser vista como todas as demais pessoas que estão naquela classe e, em alguns casos, passe a ser tratada do mesmo modo pelas políticas.

        Qual é a diferença substantiva entre uma pessoa um centavo abaixo da linha de renda que define os benefícios de assistência social e outra um centavo acima? Em renda, irrelevante, mas a classificação elegível e não elegível tem impactos concretos na vida das pessoas. Elas passam ou não pelo buraco da agulha dos critérios de elegibilidade de programas sociais. Alguns programas chegam a ser desenhados com base em classes, por isso o assunto não é apenas um detalhe acadêmico.


Marcelo Medeiros. Os ricos e os pobres. São Paulo: Companhia das Letras, 2023 

(com adaptações). 

Julgue o item a seguir, relativo às ideias e a aspectos linguísticos do texto precedente.No trecho "Elas passam ou não pelo buraco da agulha doscritérios de elegibilidade de programas sociais" (últimoparágrafo), o autor do texto faz referência à rigidez e àestreiteza dos critérios de acesso a programas sociais.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A expressão "buraco da agulha" e a rigidez dos critérios de elegibilidade

Gabarito: C (CERTO). O item está correto porque a expressão "buraco da agulha" é usada em sentido figurado para indicar algo extremamente estreito e difícil de atravessar, e o texto a emprega justamente para caracterizar os critérios de elegibilidade de programas sociais como rígidos e restritivos. Como se lê no último parágrafo: "Elas passam ou não pelo buraco da agulha dos critérios de elegibilidade de programas sociais".

A questão pede uma interpretação do trecho, não uma mera localização literal. O comando "faz referência à rigidez e à estreiteza" exige que você perceba o sentido conotativo da expressão. Vamos provar isso com o próprio texto.

A metáfora do "buraco da agulha"

No trecho, o autor compara os critérios de elegibilidade a um "buraco de agulha" — algo muito estreito, por onde é difícil passar. Essa imagem é clássica para expressar dificuldade extrema (lembre-se da passagem bíblica sobre o camelo passar pelo fundo de uma agulha). O texto usa essa metáfora para mostrar que a classificação entre "elegível" e "não elegível" é um filtro rígido que define quem entra ou não nos programas sociais.

O parágrafo anterior reforça essa leitura:

"a classificação elegível e não elegível tem impactos concretos na vida das pessoas. Elas passam ou não pelo buraco da agulha dos critérios de elegibilidade de programas sociais."

A expressão "passam ou não" já indica que há um obstáculo — nem todos conseguem atravessar. A imagem do buraco de agulha, portanto, não é decorativa: ela materializa a ideia de estreiteza (poucos passam) e rigidez (o critério é inflexível).

Por que a alternativa "Errado" não se sustenta

Se o item dissesse que a expressão se refere à facilidade de acesso, estaria errado. Mas o item afirma exatamente o oposto — e é isso que o texto sustenta. Não há nenhuma pista no texto que contradiga a leitura de rigidez; pelo contrário, todo o parágrafo final gira em torno da dificuldade e do impacto concreto da classificação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca poderia tentar fazer você achar que "buraco da agulha" é só uma expressão solta, sem relação com o contexto. Mas o texto a amarra diretamente aos "critérios de elegibilidade" — a metáfora qualifica esses critérios.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de interpretação, desconfie de leituras literais. Quando o texto usa uma imagem (como "buraco da agulha"), pergunte: o que essa imagem representa no contexto? A resposta está sempre nas palavras ao redor.

Gabarito: letra C (CERTO).

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