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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
gp001415
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
FUNPRESP-JUD
Ano
2026
Cargo
Advogado

        O agrupamento das pessoas em classes sociais não é, ao contrário do que alguns pensam, "apenas uma decisão técnica como outra qualquer". Como tudo no estudo da desigualdade, esse agrupamento reflete decisões políticas, ainda que elas não sejam explícitas. E não é sem razão: a escolha da identificação de classes de uma forma específica tem implicações concretas. O problema não está apenas na terminologia usada, está também na forma como as classes são definidas.

        Quem não consegue entender isso pode fazer um exercício simples: identifique pobres como uma classe; considere que quase todo mundo queira erradicar a pobreza; que quase todo mundo queira saber melhor o que é preciso para tanto; defina como pobre 0,1% da população; nesse caso, que medida erradicaria a pobreza? Caridade privada seria suficiente; agora defina como pobre 99,9% da população. A medida recomendada seria uma revolução.

        Conclui-se desse exercício que a forma como pesquisas dividem a sociedade em classes tem implicações práticas, pois pesquisa em desigualdade é usada para definir políticas. Quando se coloca uma pessoa numa classe, a tendência é que essa pessoa passe a ser vista como todas as demais pessoas que estão naquela classe e, em alguns casos, passe a ser tratada do mesmo modo pelas políticas.

        Qual é a diferença substantiva entre uma pessoa um centavo abaixo da linha de renda que define os benefícios de assistência social e outra um centavo acima? Em renda, irrelevante, mas a classificação elegível e não elegível tem impactos concretos na vida das pessoas. Elas passam ou não pelo buraco da agulha dos critérios de elegibilidade de programas sociais. Alguns programas chegam a ser desenhados com base em classes, por isso o assunto não é apenas um detalhe acadêmico.


Marcelo Medeiros. Os ricos e os pobres. São Paulo: Companhia das Letras, 2023 

(com adaptações). 

Julgue o item a seguir, relativo às ideias e a aspectos linguísticos do texto precedente.Infere-se do texto que o agrupamento de pessoas em classessociais não é útil para a sociedade, pois resulta em políticaspúblicas injustas.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência sobre o agrupamento em classes sociais — Gabarito: E (ERRADO).

❌ ERRADO. O item afirma que o texto permite inferir que o agrupamento em classes sociais não é útil para a sociedade e que resulta em políticas públicas injustas. O texto, porém, sustenta exatamente o contrário: ele mostra que a forma de classificar tem implicações práticas e que a classificação impacta concretamente a vida das pessoas — o que pressupõe utilidade, não inutilidade. A passagem decisiva está no 3º parágrafo:

"Conclui-se desse exercício que a forma como pesquisas dividem a sociedade em classes tem implicações práticas, pois pesquisa em desigualdade é usada para definir políticas."

O autor não diz que as classes são inúteis ou que as políticas são injustas; ele afirma que a definição das classes tem consequências e que a classificação (elegível/não elegível) "tem impactos concretos na vida das pessoas". O item extrapola ao acrescentar um juízo negativo ("injustas") e uma negação de utilidade que o texto não contém.

Análise do item

O comando pede uma inferência ("Infere-se do texto"). Inferência legítima exige uma pista no texto que obrigue à conclusão. Aqui, a conclusão proposta é dupla: (1) o agrupamento não é útil; (2) ele gera políticas injustas. Nenhuma das duas tem apoio textual.

  • Sobre a utilidade: o texto afirma que a classificação "tem implicações práticas" e que "pesquisa em desigualdade é usada para definir políticas". Se é usada para definir políticas, ela é útil — o autor critica a forma como as classes são definidas, não a existência do agrupamento. Veja o 1º parágrafo:

"O problema não está apenas na terminologia usada, está também na forma como as classes são definidas."

O problema é a forma de definição, não o agrupamento em si. O item troca "forma de definir" por "agrupamento inútil" — uma troca de vocábulo que inverte o sentido.

  • Sobre a injustiça: o texto menciona que a classificação "tem impactos concretos na vida das pessoas" e que "a classificação elegível e não elegível tem impactos concretos". Impacto concreto não é o mesmo que injustiça. O autor não emite juízo de valor sobre a justiça das políticas; ele apenas constata que a classificação afeta quem recebe ou não benefícios. Atribuir "injustas" é acrescentar opinião que o autor não externou.

Por que o item é ERRADO

O item comete dois erros clássicos de interpretação:

  1. Extrapolação: o texto não diz que o agrupamento é inútil; diz que a forma de definir tem consequências. A utilidade é pressuposta pela própria função de "definir políticas".

  2. Opinião embutida: o adjetivo "injustas" é um juízo de valor que não está no texto. O autor fala em "impactos concretos", não em injustiça.

A inferência correta que o texto autoriza é: a forma de classificar as pessoas em classes influencia as políticas públicas e, por isso, não é uma decisão meramente técnica — como está explícito no 1º parágrafo:

"Como tudo no estudo da desigualdade, esse agrupamento reflete decisões políticas, ainda que elas não sejam explícitas."

O item, ao afirmar o oposto (inutilidade + injustiça), contradiz a tese central do texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer você acreditar que "implicações práticas" = "políticas injustas" e que "problema na forma de definir" = "agrupamento inútil". São extrapolações com aparência de inferência.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de inferência, pergunte: "qual pista do texto obriga a essa conclusão?". Se a conclusão depende de um juízo de valor ("injustas") ou de uma negação ("não é útil") que o texto não sustenta, é extrapolação.

Gabarito: letra E (ERRADO).

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