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Questão de Português — Predicado — FUNDATEC 2020

PortuguêsPredicado
Código
qa144377
Banca
FUNDATEC
Órgão
Pref F Westphalen
Ano
2020
Cargo
AT (Pref F Westphal)

O consumismo nunca foi tão cafona

 

Um micro-organismo  colocou por terra, em  algumas semanas, uma  sequência  genética capitalista,  forjada  em  anos  de  lavagem  cerebral.  Você  precisa  disso!  Não  dá  pra  viver  sem aquilo! Compre! Compre mais! O livro se conhece pela capa! A veste faz o monge! Eu mesma – devo  reconhecer  e  confessar  –  sou  bastante  consumista.  Já  fui  mais,  é  verdade.  Houve  uma época na qual comprar era mesmo uma compulsão.

Certa vez, saí de casa para trabalhar, num mês de março qualquer. Fazia quase 30 graus logo cedo. Vesti uma calça leve, calcei sandálias e uma bluzinha de seda. Na hora do almoço, o tempo virou bruscamente. Então, pensei: “Já que vou sair pra almoçar, passo no shopping e compro um casaquinho!”. A ideia em si não era ruim, nem absurda, posto que realmente estava frio. Naquele dia, eu tinha curso à noite e só voltaria pra casa depois das dez da noite. Acontece que, em vez de comprar um inocente casaquinho, voltei do almoço com três botas novas, dois pares de meia e quatro casacos. Detalhe: em vez de almoçar, engoli dois pães de queijo com um café duplo.

Eu precisava de tudo o que comprei? Claro que não! Comprei porque estava na liquidação? Também não! As vitrines estavam começando a ser abastecidas com a nova coleção outono/inverno. Usei tudo o que comprei? Pior que não! Uma das botas que comprei machucava o dedinho. Um dos casacos pinicava e o outro tinha uma gola irritante que apertava o pescoço. Eu tinha dinheiro sobrando, então? Não! Paguei tudo no cartão de crédito, cuja fatura já beirava a estratosfera.                   comprei tanta coisa, então?                   era economicamente burra! Minha mente funcionava no seguinte modo: eu me ferro tanto nesse trabalho, sofro tanto pra ganhar esse salário que mereço ter tudo que eu quiser! Eu mereço! Eu mereço! Eu mereço! Mereço o quê? Gastar meu dinheirinho suado com pilhas e mais pilhas de coisas inúteis? Encher o mundo de lixo? Abarrotar meus armários e gavetas com roupas, sapatos, bolsas e acessórios e não usar nem a metade? Servir de escrava da engrenagem do mundo neoliberal que repete sem parar o mantra: compre, compre, compre?

Bem, o fato verdadeiro é que o tal trabalho que me garantia dinheiro pra essa esbórnia consumista acabou por me adoecer. Pedi demissão e minha renda caiu pela metade. Fazendo faxina nos armários, um dia eu contei 117 pares de sapato! Não, eu não me orgulho disso! Na verdade, eu morro de vergonha. Fiquei com 15 pares, o que ainda é bastante, e doei o restante pra ser vendido num bazar assistencial. A partir daí, comecei a me curar. Adotei a prática de que,  pra  entrar  algo  novo,  tem  de  sair  algo  velho.  Então,  quando  vejo  que  não  há  nada  em minhas posses que eu queira descartar, não compro. Simples assim! Comecei a ser capaz de me perguntar: “eu preciso mesmo disso?”. E mais importante: aprendi a responder honestamente a esta pergunta. E, finalmente, depois de muita terapia, aprendi a reconhecer quando o impulso da compra é apenas uma estratégia estúpida para tampar um buraco emocional.

Da  próxima  vez  que  você  estiver  sendo  abduzido(a)  pelo  site  de  compra  da  grife,  da promoção  irrecusável,  da  negociação  a  qualquer  custo  que  sempre  vai  caber  no  seu  bolso, desculpe-me,  de  coração  mesmo,  mas  procure  usar  esse  dinheiro  pra  ajudar  quem  não  tem nada, quem passa fome, quem mora em zonas vulneráveis onde falta água, luz, esgoto... Falta tudo. Compre aí uma carga de papel higiênico, álcool gel, máscara e doe, né? Não vai depositar tudo aí na sua casa, certo? Compre uns respiradores e mande entregar em hospitais carentes de tudo. Deixe de ser cafona! A moda agora é ser minimalista, não produzir lixo, não jogar comida fora, respeitar a natureza, deixar a pele, as unhas e os cabelos respirarem. Até porque, caso você  adoeça,  não  vai  ser  esse  monte  de  tralha  chique  acumulada  aí  na  sua  casa  que  vai  lhe salvar! Pense nisso! Porque pensar também voltou a ser chique!

(Disponível em https://www.contioutra.com/o-consumismo-nunca-foi-tao-cafona - texto adaptado especialmente para esta prova).

Quanto à sua predicação, o verbo da oração “vesti uma calça leve” é classificado como:
  1. AIntransitivo.
  2. BTransitivo direto.
  3. CTransitivo indireto.
  4. DBitransitivo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — Transitivo direto.

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