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Questão de Literatura — Pré-Modernismo (E. da Cunha, Lima Barreto, M. Lobato, A. dos Anjos, etc) — FEPESE 2022

LiteraturaPré-Modernismo (E. da Cunha, Lima Barreto, M. Lobato, A. dos Anjos, etc)
Código
qa331546
Banca
FEPESE
Órgão
Pref Videira
Ano
2022
Cargo
Prof ( )

O triste fim de Lima Barreto

 

É inevitável a comparação entre Machado de Assis e Lima Barreto. Dois cariocas, descendentes de escravos, mestiços, pinçaram, na mesma cidade e quase ao mesmo tempo, a paisagem, os personagens e os temas de seus romances. Se as semelhanças são grandes, as diferenças são igualmente profundas.

 

Autodidata, Machado percorreu um caminho ascendente. Dos ofícios humildes exercidos na juventude e na mocidade, alçou-se cultural e socialmente. Não criou apenas uma obra, mas criou-se a si próprio. Já foi dito que o Machado da maturidade, com aquele pincenê hierático, o cavanhaque grisalho, a efígie de selo postal, teria sido a sua maior criação.

 

Lima percorreu caminho inverso. Teve boa escolaridade, cursou a Politécnica, embora órfão de mãe desde a infância, teve o apoio do pai, que era tipógrafo conceituado, até bem pouco as gráficas usavam um manual francês traduzido por João Henriques Lima Barreto, pai do futuro romancista. (…)

 

Machado de Assis e Lima Barreto, ao morrerem, receberam um tipo estranho de homenagem.

 

Aos 41 anos, consumido pelo parati e pela miséria, com o pai louco no quarto ao lado, ele morreu abraçado a uma revista e teve um enterro humilde, acompanhado por bêbados como ele, vagabundos de subúrbio, cheirando a cachaça, os pés descalços. Quis ser enterrado em Botafogo -que ele detestava e criticava. Pouco mais de dez pessoas assistiram a seu sepultamento, entre eles, Félix Pacheco, Olegário e José Mariano -sendo que este pagou as despesas. Nenhuma repercussão nos jornais.

 

Machado saiu da Academia que ele fundara com Lúcio Mendonça, teve discurso de Ruy Barbosa, que o substituiu na presidência da casa que teria o nome dele. Apesar disso, como dois artistas que eram, receberam ambos a única homenagem que conta, a única que realmente eleva e consola.

 

Na agonia de Machado, um jovem desconhecido de 15 anos entrou em seu quarto, ajoelhou-se e beijou- -lhe a mão. Soube-se depois o nome desse jovem, que se tornou crítico literário e um dos fundadores do Partido Comunista Brasileiro: Astrojildo Pereira.

 

Com Lima Barreto a homenagem foi diferente. Chovia em Todos os Santos. O velório na sala era interrompido pelo barulho da chuva e, de quando em quando, pelos gritos do pai, que, no quarto ao lado, louco e moribundo, morreria horas depois. Em volta do caixão de terceira, os irmãos e a gente modesta do subúrbio, que Lima conhecia dos botequins e das ruas enlameadas e tristes.

 

De repente, um homem de seus 50 anos, cuja roupa e cujos modos revelavam que viera de longe, aproximou- se da mesa onde haviam colocado o caixão. Ninguém o conhecia, ninguém procurou saber quem era. Em silêncio, ele descobriu o rosto de Lima Barreto, contemplou-o, curvou-se e beijou-lhe a testa.

 

Saiu como entrara: em silêncio, sem cumprimentar ninguém. (…)

 

O triste fim de Lima Barreto ficou mais triste com o beijo de um desconhecido que nem a história nem a família ficaram sabendo quem era. Num registro de seu diário íntimo, Lima desabafara: “”Gosto da morte porque ela nos sagra”. O afilhado de Nossa Senhora da Glória -ele sempre invocava essa condição- morreu sem glória. Pouco a pouco, contudo, em torno de seu nome e de sua obra, vão se aproximando aqueles que, em silêncio, se curvam diante de sua dilacerada herança.

 

Carlos Heitor Cony – Folha de S. Paulo, 22 de outubro de 1999.

Leia o texto abaixo:     Afonso Henriques de Lima Barreto morreu em 1º de novembro de 1922, no Rio de Janeiro. Portanto, completam- se 100 anos da morte do escritor. Consoante ao texto acima e aos seus conhecimentos sobre esse autor e sua obra, assinale a alternativa correta.
  1. AO texto aborda as razões técnicas da construção do romance para mostrar por que Machado era mais reconhecido do que Lima Barreto.
  2. BO texto é predominantemente uma narrativa na qual o autor compara a morte e a vida de dois grandes personagens da literatura brasileira.
  3. CNo texto, o autor afirma que a comparação entre os dois romancistas é inevitável, uma vez que há entre eles mais semelhanças do que distinções.
  4. DLima Barreto tinha como temática central a questão racial, o preconceito, a exclusão. Era negro, morava na periferia e não foi reconhecido como escritor quando era vivo.
  5. EOs dois autores referidos no texto conviveram na mesma cidade, na mesma época e no mesmo espaço social, em especial, a Academia Brasileira de Letras.
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GabaritoD — Lima Barreto tinha como temática central a questão racial, o preconceito, a exclusão. Era negro, morava na periferia e não foi reconhecido como escritor quando era vivo.

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