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Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — FEPESE 2021

PortuguêsOutras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
qa350731
Banca
FEPESE
Órgão
Pref Caxambu do Sul
Ano
2021
Cargo
ASoc (Caxambu Sul)

O mistério da poesia.


Não sei o nome desse poeta, acho que boliviano; apenas lhe conheço um poema, ensinado por um amigo. E só guardei os primeiros versos: Trabajar era Bueno en el Sur. Cortar los árboles, hacer canoas de los troncos.


E tendo guardado esses dois versos tão simples, aqui me debruço ainda uma vez sobre o mistério da poesia.


O poema era grande, mas foram essas palavras que me emocionaram, lembro-me delas às vezes, numa viagem; quando estou aborrecido, tenho notado que as murmuro para mim mesmo, de vez em quando, nesses momentos de tédio urbano. E elas produzem em mim uma espécie de consolo e de saudade não sei de quê.


Lembrei-me agora mesmo, no instante em que abria a máquina para trabalhar nessa coisa vã e cansativa que é fazer crônica.


De onde vem o efeito poético? É fácil dizer que vem do sentido dos versos; mas não apenas do sentido. Se ele dissesse: Era Bueno trabajar en el Sur, não creio que o poema pudesse me impressionar. Se no lugar de usar o infinitivo do verbo cortar e do verbo hacer usasse o passado, creio que isso enfraqueceria tudo. Penso no ritmo: ele sozinho não dá para explicar nada. Além disso, as palavras usadas são, rigorosamente, das mais banais da língua. Reparem que tudo está dito com elementos mais simples: trabajar, era bueno, Sur, cortar, árboles, hacer canoas, troncos.


Isso lembra um dos maiores versos de Camões, todo ele também com as palavras mais corriqueiras de nossa língua: “A grande dor das coisas que passaram”.


Talvez o que mais me impressione seja mesmo isso: essa faculdade de dar um sentido solene e alto às palavras de todo dia. Nesse poema sul-americano a ideia de canoa é também motivo de emoção.


Não há coisa mais simples e primitiva que uma canoa feita de um tronco de árvore; e acontece que muitas vezes a canoa é de grande beleza plástica. E de repente me ocorre que talvez esses versos me emocionem particularmente por causa de uma infância de beira-rio e de beira-mar. Mas não pode ser: o principal sentido dos versos é o do trabalho; um trabalho que era bom, não essa “necessidade aborrecida” de hoje. Desejo de fazer alguma coisa simples, honrada e bela, e imaginar que já se fez.

 

Fala-se muito em mistério poético; e não faltam poetas que procurem esse mistério enunciando coisas obscuras, o que dá margem a muito equívoco e muita bobagem. Se na verdade existe muita poesia e muita carga de emoção em certos versos sem um sentido claro, isso não quer dizer que, turvando um pouco as águas, elas fiquem profundas…


(Rubem Braga)

Leia o texto.

 

Assinale a alternativa correta, considerando o texto.

  1. AO verso de Camões, citado no texto, forma um período composto.
  2. BOs versos do poeta boliviano emocionam quem os lê por trazer lembranças da infância.
  3. CNo terceiro parágrafo há dois exemplos de concordância nominal que nos indica que o autor é um homem, se não soubéssemos disso.
  4. DColocando-se no plural a primeira oração do último parágrafo, teríamos a seguinte redação: “Falam-se muito em mistérios poéticos”.
  5. ENo penúltimo parágrafo, se o primeiro verbo da primeira oração estivesse no pretérito imperfeito e no plural, a frase seria assim escrita: “Não haviam coisas mais simples e primitivas”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — No terceiro parágrafo há dois exemplos de concordância nominal que nos indica que o autor é um homem, se não soubéssemos disso.

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