O parágrafo é uma unidade de composição constituída por um ou mais de um período, em que se desenvolve determinada ideia central, ou nuclear, a que se agregam outras, secundárias, intimamente relacionadas pelo sentido e logicamente decorrentes dela.
Trata-se, evidentemente, de uma definição, ou conceito, que a prática nem sempre confirma, pois, assim como há vários processos de desenvolvimento ou encadeamento de ideias, pode haver também diferentes tipos de estruturação de parágrafo, tudo dependendo, é claro, da natureza do assunto e de sua complexidade, do gênero de composição, do propósito, das idiossincrasias e de competência (competence) e do autor, tanto quanto da espécie de leitor a que se destine o texto. Esse conceito se aplica a um tipo de parágrafo considerado como padrão, e padrão não apenas no sentido de modelo, de protótipo, que se deva ou que convenha imitar, dada a sua eficácia, mas também no sentido de ser frequente, ou predominante, na obra de escritores — sobretudo modernos — de reconhecido mérito.
Tal critério nos leva, por conseguinte, a resistir à tentação de... de... tentar sistematizar o que é assistemático, quer dizer, de procurar características comuns e constantes em parágrafos carentes de estrutura típica. Isso, todavia, não nos impede de apontar e(ou) comentar exemplos tanto dos que, fugindo à norma, se distinguem pela eficácia dos recursos de expressão e do desenvolvimento de ideias, quanto dos que, também atípicos — mas atípicos por serem produto da inexperiência ou do arbítrio inoperante —, denunciam desordem de raciocínio (incoerências, incongruências, falta de unidade, hiatos lógicos, falta de objetividade e outros defeitos) e, por isso, revelam-se ineficazes como forma de comunicação.
Othon Moacyr Garcia. Comunicação em prosa moderna.
27.ª edição. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010 (com adaptações).
A partir da leitura do texto e considerando seus aspectos formais e de conteúdo, julgue o item a seguir. As expressões “mas também” e “todavia” possuem exatamente o mesmo valor de oposição.
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Valor semântico de "mas também" e "todavia"
Gabarito: E (Errado). A afirmação de que "mas também" e "todavia" possuem exatamente o mesmo valor de oposição é falsa, pois "mas também" é uma locução conjuntiva ADITIVA (soma, acréscimo), enquanto "todavia" é uma conjunção ADVERSATIVA (oposição, contraste). A banca tenta confundir o candidato ao explorar a presença da palavra "mas", que isoladamente é adversativa, mas que, na locução "não só... mas também", perde esse valor e assume o de adição.
Desenvolvimento
1. O comando
A questão pede um julgamento Certo/Errado sobre uma afirmação de caráter semântico-gramatical: comparar o valor de duas expressões conectivas no texto. Não se trata de interpretação de conteúdo, mas de reconhecimento do valor semântico de conectivos — tarefa que exige conhecer a classificação das conjunções e, sobretudo, observar o contexto em que cada uma aparece. O comando "possuem exatamente o mesmo valor" é uma armadilha: a palavra "exatamente" já sinaliza que qualquer diferença, por menor que seja, torna a afirmação incorreta.
2. O texto
O texto de Othon Moacyr Garcia discute a definição de parágrafo e a dificuldade de sistematizar sua estrutura. No segundo parágrafo, o autor afirma que o conceito de parágrafo padrão se aplica "não apenas no sentido de modelo... mas também no sentido de ser frequente". Aqui, "mas também" integra a correlação aditiva "não só... mas também", que soma duas características do parágrafo padrão: ser modelo e ser frequente. Já no terceiro parágrafo, "Isso, todavia, não nos impede de apontar..." — o "todavia" introduz uma ressalva/oposição à ideia anterior de que seria impossível sistematizar o que é assistemático.
3. A técnica que decide
A regra central é: o valor de um conectivo é dado pelo contexto, não pela palavra isolada. Vejamos:
"mas também" — na correlação "não só... mas também", o "mas" perde seu valor adversativo e a locução inteira funciona como conjunção aditiva, equivalente a "e também", "bem como". Indica soma, não oposição.
"todavia" — é uma conjunção adversativa clássica, equivalente a "mas", "porém", "contudo". Indica oposição, quebra de expectativa, ressalva.
A pegadinha da banca é explorar o fato de "mas" ser, isoladamente, a conjunção adversativa por excelência. O candidato desatento vê "mas" em "mas também" e conclui que há oposição. Mas a presença do "também" transforma a locução em aditiva.
Expressão
Classificação
Valor semântico
Equivalente a
"mas também"
Aditiva (correlação "não só... mas também")
Soma, acréscimo
"e também", "bem como"
"todavia"
Adversativa
Oposição, contraste, ressalva
"mas", "porém", "contudo"
4. O gancho
Para resolver questões como esta, pergunte sempre: qual é a relação que o conectivo estabelece no contexto específico em que aparece? Não basta reconhecer a palavra; é preciso verificar se ela faz parte de uma locução ou correlação que altera seu valor. A palavra "exatamente" no enunciado é o sinal de alerta: qualquer diferença de valor, por mínima que seja, torna o item errado.
Alternativa E — ❌ Errado ⟵ GABARITO
A afirmação é incorreta. No texto, "mas também" aparece na correlação aditiva "não apenas... mas também", somando duas acepções de "padrão":
"padrão não apenas no sentido de modelo, de protótipo, que se deva ou que convenha imitar, dada a sua eficácia, mas também no sentido de ser frequente, ou predominante"
Já "todavia" introduz uma ressalva à impossibilidade de sistematizar:
"Isso, todavia, não nos impede de apontar e(ou) comentar exemplos"
Portanto, "mas também" tem valor aditivo (soma) e "todavia" tem valor adversativo (oposição). Não possuem o mesmo valor.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a presença da palavra "mas" em "mas também". Como "mas" é a conjunção adversativa típica, o candidato desatento conclui que há oposição. Mas, na correlação "não só... mas também", o valor é de adição.
PEGA ESSA DICA!
Ao encontrar "não só... mas também", "não apenas... mas também", "não somente... como também", reconheça imediatamente a correlação aditiva. O "mas" aí não é adversativo.