Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor. Trouxe‑a para casa e coloquei‑a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina‑se a beber, e a flor não é para ser bebida.
Passei‑a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.
Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá‑la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí‑la no jardim. Nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, eu a via morrer.
Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei‑a docemente e fui depositá‑la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu‑me.
– Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!
Carlos Drummond de Andrade. Contos Plausíveis. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985, p. 80.
Considerando a estrutura e os aspectos linguísticos do texto, julgue o item a seguir. A substituição de “mas” por porém não causaria prejuízo à correção gramatical nem ao sentido do texto.
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GabaritoC — Certo
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Substituição de “mas” por “porém” — conjunções adversativas equivalentes
Gabarito: C (CERTO). A troca de “mas” por “porém” no trecho “Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia” preserva tanto a correção gramatical quanto o sentido de oposição/contraste entre as orações, pois ambas são conjunções coordenativas adversativas. O texto mantém a mesma relação lógica: o esforço do narrador (renovar a água) contrasta com o resultado (a flor empalidecia).
O comando
A questão pede um julgamento sobre substituição vocabular sem alteração de sentido e de correção gramatical. Esse tipo de item exige dois testes: (1) a palavra substituta pertence à mesma classe e exerce a mesma função sintática; (2) o valor semântico no contexto é preservado. Não se trata de interpretação profunda do texto, mas de análise morfossintática e semântica de um conectivo.
O texto e o trecho decisivo
No conto “Furto de flor”, o narrador furta uma flor, tenta cuidar dela e observa sua deterioração. O trecho relevante é:
“Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia.”
Aqui, “mas” liga duas orações coordenadas: a primeira expressa uma ação do narrador (renovar a água), a segunda um resultado inesperado (a flor empalidecer). Há, portanto, uma quebra de expectativa — exatamente o valor típico das conjunções adversativas.
A regra que decide
As conjunções adversativas — mas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto, não obstante, ainda assim — indicam oposição, contraste, ressalva ou quebra de expectativa. São intercambiáveis entre si na maioria dos contextos, com uma diferença sintática: “mas” não pode ser deslocado na frase, enquanto “porém” e as demais podem. No trecho, a substituição mantém a posição inicial da oração, o que é perfeitamente aceitável para “porém”.
Veja a equivalência:
Conectivo
Valor semântico
Exemplo no texto
mas
adversativo (oposição/quebra de expectativa)
“Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia.”
porém
adversativo (mesmo valor)
“Renovei a água do vaso, porém a flor empalidecia.”
Ambos introduzem a mesma relação de contraste entre a ação e o resultado. Não há mudança de sentido, nem prejuízo gramatical.
Por que as demais opções não se aplicam
Como a questão é de Certo/Errado, não há alternativas distratoras. O único ponto de atenção seria se a banca tentasse confundir com o valor aditivo que “mas” pode ter em alguns contextos (ex.: “não só... mas também”). No trecho, porém, o valor é claramente adversativo, pois há contraste entre as orações.
NÃO CAIA NESSA!
A banca poderia tentar induzir o candidato a achar que “mas” tem valor aditivo aqui, mas o contexto mostra oposição: renovar a água (cuidado) × flor empalidecer (deterioração).
PEGA ESSA DICA!
Ao julgar substituições de conectivos, pergunte: (1) a classe gramatical é a mesma? (2) o valor semântico no contexto é o mesmo? (3) a posição na frase é compatível? Se sim, a troca é válida.
Conclusão
A substituição de “mas” por “porém” é perfeitamente válida, pois ambas são conjunções adversativas equivalentes, e o sentido de oposição entre as orações é mantido. Portanto, o item está CERTO.