Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — Quadrix 2023
Português›Tipologia e Gênero Textual
Código
qa505462
Banca
Quadrix
Órgão
CRB 9
Ano
2023
Cargo
Aux Adm ( )
Texto para o item a seguir.
Furto de flor
Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor. Trouxe‑a para casa e coloquei‑a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina‑se a beber, e a flor não é para ser bebida.
Passei‑a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.
Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá‑la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí‑la no jardim. Nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, eu a via morrer.
Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei‑a docemente e fui depositá‑la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu‑me.
– Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!
Carlos Drummond de Andrade. Contos Plausíveis. Rio de Janeiro: José Olympio, 1985, p. 80.
Considerando a estrutura e os aspectos linguísticos do texto, julgue o item a seguir. Há indícios no texto de que o narrador sentiu alguma espécie de remorso ou de temor por ter furtado a flor do jardim.
CCerto
EErrado
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GabaritoC — Certo
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Furto de flor — indícios de temor e remorso no narrador
Gabarito: CERTO. O item está correto porque o texto traz indícios claros de temor do narrador pela vida da flor — como se lê em "Temi por sua vida" —, ainda que não haja remorso pelo furto em si. A banca pede que se julgue se há indícios de "remorso ou de temor", e o temor está explicitamente marcado no texto.
O comando: compreensão ou inferência?
O enunciado usa o verbo "julgar" e a expressão "há indícios", o que aponta para uma tarefa de interpretação/inferência: não se busca uma frase literal que diga "sinto remorso", mas sim pistas no texto que autorizem concluir que o narrador experimentou algum desses sentimentos. A alternativa correta é aquela que se sustenta em passagens concretas, sem exigir que o leitor acrescente informações de fora.
O texto: o que o narrador sente e onde isso aparece
O conto narra o furto de uma flor e a consequente deterioração dela. O narrador, em 1ª pessoa, descreve suas reações:
"Logo senti que ela não estava feliz."
"Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida."
"Eu a furtara, eu a via morrer."
Essas passagens revelam preocupação e temor diante da possibilidade de a flor morrer. O verbo "temer" é explícito: "Temi por sua vida". Há também um sentimento de responsabilidade — "Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la" —, o que reforça o envolvimento emocional do narrador com o destino da flor.
A técnica: inferência legítima × extrapolação
A inferência é legítima quando se apoia em pistas deixadas pelo próprio texto. Aqui, o temor está literalmente nomeado ("Temi"), e a preocupação com a vida da flor é evidente em todo o segundo e terceiro parágrafos. Já o remorso pelo ato de furtar não aparece: o narrador não expressa culpa por ter tirado a flor do jardim; sua angústia é pela flor estar morrendo. Mas o item usa o conectivo "ou" — "remorso ou de temor" —, bastando que um dos dois sentimentos esteja presente. Como o temor está, o item é certo.
Análise do item
Item — ✅ CERTO
O item afirma: "Há indícios no texto de que o narrador sentiu alguma espécie de remorso ou de temor por ter furtado a flor do jardim."
A expressão "por ter furtado" pode sugerir que o sentimento decorre do ato do furto, mas o texto mostra que o temor é pela vida da flor, não pela culpa do furto. Mesmo assim, o temor existe e está ligado à situação criada pelo furto — o narrador teme porque a flor, que ele furtou, está morrendo. Portanto, há indícios suficientes de temor, e o item está correto.
PEGA ESSA DICA!
Em itens com "ou", basta que uma das condições seja satisfeita. Grife o conectivo e verifique cada parte separadamente.
Conclusão: o item é CERTO porque o texto apresenta indícios explícitos de temor do narrador pela vida da flor, ainda que não haja remorso pelo furto em si. A banca não exige que ambos os sentimentos estejam presentes — basta um deles, e o temor está claramente marcado em "Temi por sua vida".