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Questão de Português — Funções Sintáticas dos Pronomes Relativos — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsFunções Sintáticas dos Pronomes Relativos
Código
qa593701
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
CM BH
Ano
2024
Cargo
Red ( )
Ética e a vocação para a excelência


       Realização, felicidade. Quem não quer? Mas como chegar lá sem saber exatamente no que consistem a realização e a felicidade? Diversos sistemas filosóficos se ocuparam deste tema e ofereceram as mais diversas respostas, muitas vezes opostas entre si. Para uns, a felicidade estaria na fruição ilimitada dos prazeres; para outros, na negação completa destes mesmos prazeres. Para uns, a felicidade de uma pessoa é indissociável da felicidade dos demais; para outros, a felicidade individual pode justificar até mesmo que se passe o outro para trás. Em comum entre todas essas noções está a constatação de que a felicidade e a realização passam pelo modo como nos comportamos.
 
          Atualmente, fala-se em ética quase tanto quanto em felicidade ou realização. E a ética é frequentemente associada a um conjunto de normas, uma lista de “certos” e “errados” que balizam nosso comportamento no relacionamento conosco mesmos, com nossa família, nossos círculos de amigos e de trabalho, e no espaço público. Ser uma pessoa “ética” significaria se comportar de acordo com essas normas. Não é exatamente uma maneira errada de enxergar a questão, mas é uma maneira insuficiente.

      Uma ética entendida assim, em termos normativos, tende a se tornar uma ética negativa, uma ética de limites, em que a grande preocupação é traçar (e testar) a linha do “não pode”, o limite que separa o certo do errado, com a convicção implícita de que simplesmente estar do lado “bom” desse limite será suficiente. Para fazer uma analogia com a vida escolar, é claro que ser aprovado com a média mínima exigida pode ser aceitável quando a disciplina é especialmente difícil. Mas deveríamos transformar o “passar raspando” em um ideal, na chave da realização de um estudante? Deveríamos nos contentar em “passar raspando” pela vida?

      E a consequência de pensar na ética como a delimitação de linhas separando o certo e o errado é acabar olhando as situações no esquema “preto ou branco”: matar uma pessoa num acidente de trânsito se torna tão grave quanto ordenar um genocídio; uma “mentirinha social”, como aquele elogio nada sincero, é tão condenável quanto uma traição. A vida não é assim: dentro das ações condenáveis, há aquelas mais ou menos graves, e o mesmo vale para os atos louváveis.

      Uma ética normativa tende também a ser vista como um saber de especialistas, de experts, que sabem lidar com um complexo de normas, interpretá-las e aplicá-las às situações concretas. Ora, a experiência universal nos mostra que pessoas muito simples, sem qualquer formação especial, são com frequência muito mais retas que outras que usam sua formação para distorcer e justificar o injustificável. Por fim, para cada um de nós, uma moral entendida assim, em termos normativos, acaba dando à ética a condição de algo útil, necessário, mas “que me limita”. Ou seja, como uma exigência externa, requerida pela vida em sociedade, mas não tão grata, nem tão iluminadora da minha existência.

        Mas haveria alguma alternativa a essa visão, limitada e pouco atraente, que é a mais difundida e que chamamos de normativa?

      Sim, mas é preciso um bom recuo no tempo. É entre os antigos gregos que se encontra uma intuição acerca da moral que nos parece fascinante. Vários de seus mais ilustres pensadores viam essa questão – e influenciaram amplamente seus contemporâneos – de um modo bastante diverso do que apresentamos acima. Quando, entre eles – e entre os antigos em geral –, se refletia acerca do que depois se passou a chamar de ética, não se pensava em um conjunto de regras, em um emaranhado de normas que importasse conhecer.

       Em que se pensava? Em excelência, na busca do melhor e mais perfeito. Pensava-se na ciência da indagação sobre o que o homem está chamado a ser, sobre o que é a realização integral e plena do homem. A ética não era questão de cumprir normas, de se perguntar “posso ou não posso?”. Entendia-se a ética como a resposta à pergunta “o que devo ser?”. E a resposta, simples, mas profunda, era: o indivíduo é chamado a ser o melhor que ele puder ser; a não se contentar com menos do que com a excelência.

        De que excelência se tratava? A que, especificamente, a palavra arete (excelência moral) se referia? A todas as que podem ser alcançadas pelo homem? No estudo, no trabalho, em um hobby, enfim, em qualquer atividade humana? Não precisamente. Há muitas “excelências”: no esporte, na arte, nos estudos, na ciência. Mas o desempenho excepcional em certos campos não está ao alcance de todos: poucos serão, um dia, campeões olímpicos ou prêmios Nobel. Mais do que isso, ainda: o fato de se alcançar tal nível de performance nesses campos parciais, setorizados, não torna uma pessoa necessariamente melhor como pessoa. Todos temos experiência e notícia de como muitos gênios são canalhas.

          A ética, portanto, não trata dessas “excelências”, mas de um tipo muito específico de excelência que, sim, está à mão de todo homem ou mulher, e que, sim, os torna melhores como pessoas. Quem no-la descreve é um autor estoico do século 3º, o imperador romano Marco Aurélio: “muitas coisas dependem por inteiro de ti: a sinceridade, a dignidade, a resistência à dor, (...) a aceitação do destino, (...) a benevolência, a liberalidade, a simplicidade, a seriedade, a magnanimidade. Observa quantas coisas podes já conseguir sem que caiba alegar pretextos de incapacidade natural ou inaptidão, e por desgraça permaneces voluntariamente por baixo das tuas possibilidades. Por acaso te vês obrigado a murmurar, a ser avaro, a adular, a culpar o teu corpo, a dar-lhe satisfações, a ser frívolo e a submeter a tua alma a tanta agitação, porque estás defeituosamente constituído? Não, pelos deuses! Faz tempo que podias haver-te afastado desses defeitos”.

         Marco Aurélio está se referindo às virtudes, e a famosa obra de Aristóteles Ética a Nicômaco é exatamente isso: um tratado sobre as diferentes virtudes, qualidades que se adquirem, que se forjam e que, em todas as épocas, foram admiradas (ainda que por vezes se desse mais atenção a umas que a outras). A elas se refere à ética e, para toda a experiência do ocidente e boa parte do oriente, as virtudes foram vistas como o fim da educação do homem.

       E isso nos traz de volta ao tema da realização e da felicidade, que, para Aristóteles, consiste em ser aquilo para o qual se foi chamado – o famoso “torna-te aquilo que és” do poeta Píndaro. Isto é, justamente a excelência na virtude. O homem cabal é, sobretudo, o homem virtuoso, mesmo quando seus dotes intelectuais ou sua formação cultural não sejam os melhores ou mais completos. E, se as virtudes são inúmeras, ainda mais variados são os caminhos para a excelência – tantos quantos há seres humanos, poderíamos dizer. Cada pessoa, com seus talentos e circunstâncias, tem sua maneira particular de atingir este ideal. O que une todos esses caminhos é a certeza de que na vivência das virtudes em alto nível (a eupraxia, ou o agir bem) está o caminho para a felicidade. Recuperar essa ética da excelência é um passo importantíssimo se queremos construir uma sociedade preocupada com o bem comum.




(Disponível em: gazetadopovo.com.br. Acesso em: 10/02/2024.)

No fragmento “[...] uma lista de “certos” e “errados” que balizam nosso comportamento no relacionamento conosco mesmos.” , o pronome que exerce a mesma função em:

  1. A“[…] com a convicção implícita de que simplesmente estar do lado ‘bom’ desse limite será suficiente.”
  2. BOra, a experiência universal nos mostra que pessoas muito simples, sem qualquer formação especial, são com frequência muito mais retas [...]”
  3. CUma ética normativa tende também a ser vista como um saber de especialistas, de experts, que sabem lidar com um complexo de normas, [...]”
  4. DO que une todos esses caminhos é a certeza de que na vivência das virtudes em alto nível (a eupraxia, ou o agir bem) está o caminho para a felicidade.”
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GabaritoC — “Uma ética normativa tende também a ser vista como um saber de especialistas, de experts, que sabem lidar com um complexo de normas, [...]”

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Função sintática do pronome relativo "que"

Gabarito: letra C. No fragmento-base, o pronome relativo "que" exerce função de sujeito da oração adjetiva: "que balizam nosso comportamento" — quem baliza? Os "certos" e "errados". A alternativa C repete exatamente essa função: em "de experts, que sabem lidar", o "que" retoma "experts" e exerce a função de sujeito do verbo "saber". As demais alternativas usam o "que" como conjunção integrante (A, B e D), introduzindo orações subordinadas substantivas, e não como pronome relativo.

O comando

A questão pede que você identifique, entre as opções, aquela em que o pronome "que" exerce a mesma função sintática que exerce no trecho destacado. Isso é uma questão de análise sintática do pronome relativo — não de interpretação de sentido. O método é sempre o mesmo: substitua o "que" pelo seu antecedente e veja qual papel ele desempenha na oração que introduz.

A técnica que decide

No trecho-base, temos: "uma lista de 'certos' e 'errados' que balizam nosso comportamento". O "que" retoma "certos e errados" (antecedente). Substituindo: "certos e errados balizam nosso comportamento". Quem pratica a ação de balizar? Os "certos e errados". Logo, o pronome relativo exerce função de sujeito da oração adjetiva restritiva.

"uma lista de 'certos' e 'errados' que balizam nosso comportamento"

Aqui, o verbo "balizam" está no plural porque concorda com o antecedente "certos e errados". O pronome relativo "que" ocupa o lugar do sujeito na oração adjetiva. Essa é a função que devemos procurar nas alternativas.

O que é pronome relativo × conjunção integrante

O pronome relativo retoma um termo antecedente (substantivo ou pronome) e introduz uma oração subordinada adjetiva — aquela que funciona como adjunto adnominal do antecedente. Exemplo: "O livro que comprei é ótimo" (o "que" retoma "livro" e exerce função de objeto direto).

A conjunção integrante introduz uma oração subordinada substantiva — aquela que funciona como sujeito, objeto, complemento nominal, etc. do verbo da oração principal. Exemplo: "Espero que você venha" (o "que" não retoma nada; apenas liga a oração "você venha" como objeto direto de "espero").

Como distinguir na prática: substitua o "que" por "o qual", "a qual", "os quais", "as quais". Se a substituição for possível e mantiver o sentido, é pronome relativo. Se não for possível, é conjunção integrante.

Análise das alternativas

Função do "que"

Trecho-base

Alternativa C

Classe

Pronome relativo

Pronome relativo

Antecedente

"certos" e "errados"

"experts"

Função sintática

Sujeito da oração adjetiva

Sujeito da oração adjetiva

Alternativa A — ❌ Incorreta

"com a convicção implícita de que simplesmente estar do lado 'bom' desse limite será suficiente"

Aqui, o "que" é conjunção integrante, introduzindo a oração substantiva completiva nominal "simplesmente estar do lado 'bom' desse limite será suficiente", que completa o sentido do nome "convicção". Não há antecedente para o "que" retomar. A substituição por "o qual" não é possível: "a convicção implícita de o qual simplesmente estar..." não faz sentido. Erro: troca de conceito — confunde conjunção integrante com pronome relativo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

"a experiência universal nos mostra que pessoas muito simples, sem qualquer formação especial, são com frequência muito mais retas"

O "que" aqui também é conjunção integrante, introduzindo a oração substantiva objetiva direta "pessoas muito simples... são com frequência muito mais retas", que funciona como objeto direto do verbo "mostra". Não retoma nenhum termo anterior. A substituição por "o qual" é impossível. Erro: troca de conceito — mesma confusão da alternativa A.

Alternativa C — ✅ Correta

"Uma ética normativa tende também a ser vista como um saber de especialistas, de experts, que sabem lidar com um complexo de normas"

O "que" é pronome relativo e retoma "experts". Substituindo: "experts sabem lidar com um complexo de normas". Quem pratica a ação de saber? Os "experts". Logo, o pronome relativo exerce função de sujeito da oração adjetiva restritiva "que sabem lidar com um complexo de normas". Exatamente a mesma função do trecho-base. Correta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"O que une todos esses caminhos é a certeza de que na vivência das virtudes em alto nível (a eupraxia, ou o agir bem) está o caminho para a felicidade."

Aqui, o "que" em "O que une" é pronome relativo sem antecedente explícito, funcionando como sujeito da oração "O que une todos esses caminhos" — mas note que ele não retoma um substantivo anterior; é um pronome relativo com valor de "aquilo que". Já o segundo "que" ("a certeza de que na vivência...") é conjunção integrante. A função do primeiro "que" é de sujeito, mas o antecedente é implícito ("aquilo"), diferente do trecho-base, onde o antecedente é explícito ("certos e errados"). Erro: troca de conceito — confunde pronome relativo sem antecedente com pronome relativo com antecedente explícito.

Conclusão

A única alternativa em que o "que" exerce a mesma função sintática do trecho-base — sujeito de oração adjetiva com antecedente explícito — é a letra C. Nas demais, o "que" é conjunção integrante (A, B) ou pronome relativo sem antecedente explícito (D).

PEGA ESSA DICA!

Para resolver questões de função do "que", substitua-o por "o qual/a qual/os quais/as quais". Se a substituição for possível, é pronome relativo; se não, é conjunção integrante. Depois, analise a função do termo substituído na oração.

Gabarito: letra C

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