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Questão de Português — Concordância (Verbal e Nominal) — Instituto Consulplan 2024

PortuguêsConcordância (Verbal e Nominal)
Código
qa593706
Banca
Instituto Consulplan
Órgão
CM BH
Ano
2024
Cargo
Red ( )
Ética e a vocação para a excelência


       Realização, felicidade. Quem não quer? Mas como chegar lá sem saber exatamente no que consistem a realização e a felicidade? Diversos sistemas filosóficos se ocuparam deste tema e ofereceram as mais diversas respostas, muitas vezes opostas entre si. Para uns, a felicidade estaria na fruição ilimitada dos prazeres; para outros, na negação completa destes mesmos prazeres. Para uns, a felicidade de uma pessoa é indissociável da felicidade dos demais; para outros, a felicidade individual pode justificar até mesmo que se passe o outro para trás. Em comum entre todas essas noções está a constatação de que a felicidade e a realização passam pelo modo como nos comportamos.
 
          Atualmente, fala-se em ética quase tanto quanto em felicidade ou realização. E a ética é frequentemente associada a um conjunto de normas, uma lista de “certos” e “errados” que balizam nosso comportamento no relacionamento conosco mesmos, com nossa família, nossos círculos de amigos e de trabalho, e no espaço público. Ser uma pessoa “ética” significaria se comportar de acordo com essas normas. Não é exatamente uma maneira errada de enxergar a questão, mas é uma maneira insuficiente.

      Uma ética entendida assim, em termos normativos, tende a se tornar uma ética negativa, uma ética de limites, em que a grande preocupação é traçar (e testar) a linha do “não pode”, o limite que separa o certo do errado, com a convicção implícita de que simplesmente estar do lado “bom” desse limite será suficiente. Para fazer uma analogia com a vida escolar, é claro que ser aprovado com a média mínima exigida pode ser aceitável quando a disciplina é especialmente difícil. Mas deveríamos transformar o “passar raspando” em um ideal, na chave da realização de um estudante? Deveríamos nos contentar em “passar raspando” pela vida?

      E a consequência de pensar na ética como a delimitação de linhas separando o certo e o errado é acabar olhando as situações no esquema “preto ou branco”: matar uma pessoa num acidente de trânsito se torna tão grave quanto ordenar um genocídio; uma “mentirinha social”, como aquele elogio nada sincero, é tão condenável quanto uma traição. A vida não é assim: dentro das ações condenáveis, há aquelas mais ou menos graves, e o mesmo vale para os atos louváveis.

      Uma ética normativa tende também a ser vista como um saber de especialistas, de experts, que sabem lidar com um complexo de normas, interpretá-las e aplicá-las às situações concretas. Ora, a experiência universal nos mostra que pessoas muito simples, sem qualquer formação especial, são com frequência muito mais retas que outras que usam sua formação para distorcer e justificar o injustificável. Por fim, para cada um de nós, uma moral entendida assim, em termos normativos, acaba dando à ética a condição de algo útil, necessário, mas “que me limita”. Ou seja, como uma exigência externa, requerida pela vida em sociedade, mas não tão grata, nem tão iluminadora da minha existência.

        Mas haveria alguma alternativa a essa visão, limitada e pouco atraente, que é a mais difundida e que chamamos de normativa?

      Sim, mas é preciso um bom recuo no tempo. É entre os antigos gregos que se encontra uma intuição acerca da moral que nos parece fascinante. Vários de seus mais ilustres pensadores viam essa questão – e influenciaram amplamente seus contemporâneos – de um modo bastante diverso do que apresentamos acima. Quando, entre eles – e entre os antigos em geral –, se refletia acerca do que depois se passou a chamar de ética, não se pensava em um conjunto de regras, em um emaranhado de normas que importasse conhecer.

       Em que se pensava? Em excelência, na busca do melhor e mais perfeito. Pensava-se na ciência da indagação sobre o que o homem está chamado a ser, sobre o que é a realização integral e plena do homem. A ética não era questão de cumprir normas, de se perguntar “posso ou não posso?”. Entendia-se a ética como a resposta à pergunta “o que devo ser?”. E a resposta, simples, mas profunda, era: o indivíduo é chamado a ser o melhor que ele puder ser; a não se contentar com menos do que com a excelência.

        De que excelência se tratava? A que, especificamente, a palavra arete (excelência moral) se referia? A todas as que podem ser alcançadas pelo homem? No estudo, no trabalho, em um hobby, enfim, em qualquer atividade humana? Não precisamente. Há muitas “excelências”: no esporte, na arte, nos estudos, na ciência. Mas o desempenho excepcional em certos campos não está ao alcance de todos: poucos serão, um dia, campeões olímpicos ou prêmios Nobel. Mais do que isso, ainda: o fato de se alcançar tal nível de performance nesses campos parciais, setorizados, não torna uma pessoa necessariamente melhor como pessoa. Todos temos experiência e notícia de como muitos gênios são canalhas.

          A ética, portanto, não trata dessas “excelências”, mas de um tipo muito específico de excelência que, sim, está à mão de todo homem ou mulher, e que, sim, os torna melhores como pessoas. Quem no-la descreve é um autor estoico do século 3º, o imperador romano Marco Aurélio: “muitas coisas dependem por inteiro de ti: a sinceridade, a dignidade, a resistência à dor, (...) a aceitação do destino, (...) a benevolência, a liberalidade, a simplicidade, a seriedade, a magnanimidade. Observa quantas coisas podes já conseguir sem que caiba alegar pretextos de incapacidade natural ou inaptidão, e por desgraça permaneces voluntariamente por baixo das tuas possibilidades. Por acaso te vês obrigado a murmurar, a ser avaro, a adular, a culpar o teu corpo, a dar-lhe satisfações, a ser frívolo e a submeter a tua alma a tanta agitação, porque estás defeituosamente constituído? Não, pelos deuses! Faz tempo que podias haver-te afastado desses defeitos”.

         Marco Aurélio está se referindo às virtudes, e a famosa obra de Aristóteles Ética a Nicômaco é exatamente isso: um tratado sobre as diferentes virtudes, qualidades que se adquirem, que se forjam e que, em todas as épocas, foram admiradas (ainda que por vezes se desse mais atenção a umas que a outras). A elas se refere à ética e, para toda a experiência do ocidente e boa parte do oriente, as virtudes foram vistas como o fim da educação do homem.

       E isso nos traz de volta ao tema da realização e da felicidade, que, para Aristóteles, consiste em ser aquilo para o qual se foi chamado – o famoso “torna-te aquilo que és” do poeta Píndaro. Isto é, justamente a excelência na virtude. O homem cabal é, sobretudo, o homem virtuoso, mesmo quando seus dotes intelectuais ou sua formação cultural não sejam os melhores ou mais completos. E, se as virtudes são inúmeras, ainda mais variados são os caminhos para a excelência – tantos quantos há seres humanos, poderíamos dizer. Cada pessoa, com seus talentos e circunstâncias, tem sua maneira particular de atingir este ideal. O que une todos esses caminhos é a certeza de que na vivência das virtudes em alto nível (a eupraxia, ou o agir bem) está o caminho para a felicidade. Recuperar essa ética da excelência é um passo importantíssimo se queremos construir uma sociedade preocupada com o bem comum.




(Disponível em: gazetadopovo.com.br. Acesso em: 10/02/2024.)

Mas haveria alguma alternativa a essa visão, limitada e pouco atraente, que é a mais difundida e que chamamos de normativa?” Quanto à flexão do trecho anterior, assinale a afirmativa correta.

  1. AMas haveriam algumas alternativas a essa visão, limitada e pouco atraente, que é a mais difundida e que chamamos de normativa?
  2. BMas haveria algumas alternativas a essas visões, limitadas e pouco atraente, que são as mais difundidas e que chamamos de normativa?
  3. CMas haveriam algumas alternativas a essas visões, limitadas e poucas atraentes, que são as mais difundidas e que chamamos de normativas?
  4. DMas haveria algumas alternativas a essas visões, limitadas e pouco atraentes, que são as mais difundidas e que chamamos de normativas?
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GabaritoD — Mas haveria algumas alternativas a essas visões, limitadas e pouco atraentes, que são as mais difundidas e que chamamos de normativas?

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Concordância verbal e nominal na reescritura do trecho

Gabarito: letra D. A alternativa D é a única que preserva a correção gramatical ao pluralizar o trecho: o verbo haver permanece no singular (haveria), pois concorda com o núcleo do sujeito posposto "alternativa" (singular), e os adjetivos "limitadas" e "pouco atraentes" concordam corretamente com "visões" (feminino plural), mantendo "pouco" invariável por ser advérbio. A banca cobra exatamente a distinção entre o verbo haver (que concorda com o sujeito, não com o objeto) e a concordância nominal dos termos que qualificam o substantivo pluralizado.

O comando: o que a questão pede

O enunciado pede a flexão correta do trecho original, ou seja, uma reescritura que mantenha o sentido e a correção gramatical ao pluralizar os elementos. Isso envolve duas frentes: concordância verbal (o verbo "haver" deve concordar com o sujeito) e concordância nominal (adjetivos e pronomes devem concordar em gênero e número com o substantivo a que se referem). Não se trata de interpretação de texto, mas de gramática aplicada — a resposta se prova pela análise sintática do trecho, não pelo conteúdo do texto.

O texto: onde mora a resposta

O trecho original é uma pergunta retórica do autor: "Mas haveria alguma alternativa a essa visão, limitada e pouco atraente, que é a mais difundida e que chamamos de normativa?" A estrutura sintática é: sujeito "alguma alternativa" (posposto ao verbo), núcleo "alternativa" (singular), seguido de adjuntos adnominais "limitada" e "pouco atraente" (adjetivos que concordam com "alternativa"), e uma oração adjetiva "que é a mais difundida" (referindo-se a "visão"). Ao pluralizar, é preciso manter a concordância de todos os termos com o novo núcleo "visões".

A técnica: concordância verbal com o verbo "haver"

O verbo haver no sentido de "existir" é impessoal e fica sempre no singular: "Havia pessoas na sala", "Haverá problemas". No trecho, porém, "haver" é usado como verbo principal no sentido de "existir" — "haveria alguma alternativa" — e, nesse caso, concorda com o sujeito. O sujeito é "alguma alternativa" (singular), então o verbo fica no singular: "haveria". Se o sujeito fosse plural ("algumas alternativas"), o verbo deveria ir para o plural ("haveriam"). A pegadinha da banca é confundir o "haver" impessoal (que não flexiona) com o "haver" pessoal (que concorda com o sujeito).

A técnica: concordância nominal

Os adjetivos "limitada" e "pouco atraente" concordam com o substantivo a que se referem. No original, referem-se a "visão" (singular feminino). Ao pluralizar para "visões", os adjetivos devem ir para o plural feminino: "limitadas" e "pouco atraentes". A palavra "pouco" é um advérbio de intensidade e, por isso, é invariável — não concorda com o substantivo. O mesmo vale para a oração adjetiva: "que é a mais difundida" deve virar "que são as mais difundidas" (concordando com "visões").

O gancho: o critério que separa as alternativas

Teste cada alternativa perguntando: o verbo "haver" concorda com o sujeito (singular ou plural)? Os adjetivos concordam em gênero e número com o substantivo? O advérbio "pouco" permanece invariável? A oração adjetiva concorda com o antecedente? A única que acerta todas essas exigências é a D.

Concordância no trecho
  • 1Verbal (verbo haver)
    • Pessoal: concorda com o sujeito
      • "alguma alternativa" → singular
      • "algumas alternativas" → plural
    • Impessoal (existir): sempre singular
  • 2Nominal
    • Adjetivos concordam com o substantivo
      • "visão" → limitada, pouco atraente
      • "visões" → limitadas, pouco atraentes
    • Advérbio "pouco" é invariável
    • Oração adjetiva concorda com o antecedente
      • "que é" → "que são"
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: Mantém o verbo "haveriam" no plural, mas o sujeito "algumas alternativas" é plural — o verbo deveria concordar com o sujeito, mas a forma "haveriam" está correta para sujeito plural. Porém, o problema está na concordância nominal: "limitada" e "pouco atraente" permanecem no singular, mas deveriam concordar com "alternativas" (plural). Além disso, "essa visão" permanece no singular, mas o trecho foi pluralizado. Erro do catálogo: contradiz o texto ao não pluralizar os adjetivos.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: O verbo "haveria" está no singular, mas o sujeito "algumas alternativas" é plural — o verbo deveria concordar com o sujeito ("haveriam"). Além disso, "limitadas" está no plural, mas "pouco atraente" permanece no singular, e "que é" não concorda com "visões" (plural). Erro do catálogo: contradiz o texto ao manter o verbo no singular com sujeito plural e não pluralizar todos os adjetivos.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: O verbo "haveriam" está no plural, correto para o sujeito plural "algumas alternativas". Porém, "poucas atraentes" está errado: "pouco" é advérbio e deve permanecer invariável ("pouco atraentes"), não "poucas". Além disso, "que chamamos de normativas" está correto, mas "que são as mais difundidas" está correto. O erro está apenas em "poucas". Erro do catálogo: troca o advérbio invariável "pouco" pelo adjetivo variável "poucas".

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta: O verbo "haveria" está no singular, concordando com o sujeito "alguma alternativa" (singular). Os adjetivos "limitadas" e "pouco atraentes" concordam com "visões" (plural feminino). O advérbio "pouco" permanece invariável. A oração adjetiva "que são as mais difundidas" concorda com "visões". Tudo está gramaticalmente correto e preserva o sentido original.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de reescritura, identifique primeiro o sujeito e o núcleo do sujeito. Depois, verifique se o verbo concorda com ele. Por fim, confira se todos os adjetivos e pronomes concordam com o substantivo a que se referem. Advérbios (como "pouco") são invariáveis.

Gabarito: letra D

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